Fome de Bola – Cinema e Futebol no Brasil
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Quando Luiz Zanin Oricchio decidiu escrever um livro sobre a relação entre futebol e o cinema no Brasil, o desafio parecia ser grande. “O documentarista João Moreira Salles riu e disse que seria o mesmo que fazer uma pesquisa sobre escolas de samba em Tóquio, tão pobre seria o material disponível”, conta Oricchio na introdução de “Fome de Bola – Cinema e Futebol no Brasil”. Não sei se existe alguma escola de samba no Japão, mas seria um erro ignorar a produção cinematográfica relacionada ao futebol, mesmo que o cinema nacional não tenha produzido tantas obras sobre o esporte, conforme constatação do próprio autor.
O livro – integrante da “Coleção Aplauso”, destinada a resgatar a memória do cinema, televisão e teatro no Brasil – é a mais completa obra já publicada sobre a tabelinha futebol e cinema no país. Zanin, crítico de cinema e editor do suplemento Cultura do jornal “O Estado de São Paulo”, analisa todos os filmes a que teve acesso, de “Campeão de Futebol” (1931), uma das primeiras obras de ficção a ter o futebol como tema central, ao bastante comentado “Boleiros 2”, passando por gravações de jogos de futebol realizados nas primeiras décadas do século.
O livro do santista Oricchio, que dedica a obra à equipe do Santos da década de 1960, tem como ponto forte a contextualizando da influência do futebol sobre as produções cinematográficas, principalmente no que diz respeito ao nosso desempenho em Copas do Mundo, e, em um processo inverso, a influência do “Cinema Novo” sobre as películas que tratam do futebol. Essa relação se mostrou bastante intensa e instável. Do entusiasmo pré e pós-Copa a crítica social sobre o futebol, ocorrida na década de 1960 quando a opinião de que o futebol não passava de uma alienação coletiva passou a ganhar destaque, em produções como “Garrincha, Alegria do Povo” (1962) e “Subterrâneos do Futebol” (1965).
Outras discussões interessantes chamam a atenção no livro. A primeira delas é a importância do “Canal 100” no jeito de filmar e retratar o futebol através das telas. Oricchio destaca a influência das belas imagens do cinejornal na forma de registrar o esporte, difundindo a imagem do futebol brasileiro pelo país, o que parece ser um consenso entre críticos e diretores.
A outra, é a dificuldade em filmar o futebol em si, o que explica os poucos filmes de ficção sobre o tema. Aqui a questão central é encontrar uma maneira de reproduzir a coreografia de uma partida, a ação dos jogadores. O que nos conforta um pouco é pensar que esse desafio não é apenas nosso, basta dar uma olhada em “Fuga para a Vitória” (Estados Unidos, 1981).
Lançado em 2006 – no embalo da Copa do Mundo, como acontece com freqüência com filmes e livros aqui no Brasil – “Fome Bola” traz ainda uma relação de todos os filmes já feitos no país, o que inclui filmagens de jogos, filmes de ficção, documentários e especiais para a televisão, e uma série de entrevistas com pessoas ligadas ao cinema e ao futebol, como Ugo Giorgetti, João Moreira Salles, Luiz Carlos Barreto e Pelé. Apesar dos dois anos de seu lançamento, o livro continua sendo uma boa pedida, não só pela abrangência da obra, como pela idéia, bastante recorrente, de que apesar de alguns bons filmes produzidos sobre o futebol, o cinema nacional ainda deve uma grande obra sobre o esporte preferido dos brasileiros.