Fluminense: um clube sem plano (ou Unimed: um plano com clube)

“Puta que pariu é o melhor patrocínio do Brasil”, cantavam os jogadores do Fluminense no vestiário do Orlando Scarpelli.


A patética cena – eternizada no DVD sobre o título da Copa do Brasil – era movida pelo calor do título inédito e da promessa de receber o bicho em dobro. Mais do que tudo isso, aquela reação era uma retribuição boleirística e pelasaquistíca ao homem que tornou aquele momento possível: o Abramovich tricolor.

Sim, Celso Barros é o tal Abramovich tricolor e, acredite, isso não é um bom sinal. O que Celso Barros, presidente da Unimed, faz pelo Fluminense é muito mais do que simplesmente usar seu poder na maior cooperativa na área médica do mundo para financiar craques a rodo em seu time do coração. O que Celso Abarrosvich [infâmia mode on] faz é criar uma dependência do Fluminense ao seu investidor, tal qual o clube de Stanford Bridge depende dos rublos de Roman.

Até aí, alguns dirão, nada demais! Afinal, qual clube do mundo não necessita de dinheiro de patrocinadores ou investidores? Sem dúvida, estão certos. Nenhum clube do tamanho do Fluminense sobrevive sem um patrocinador por muito tempo, sem uma receita que garanta um equilíbrio orçamentário. Mas a Unimed, todos sabem, é muito mais do que um mero patrocinador. Tornou-se fonte de esperança e ganhou poderio sem precedente no Salão Nobre do mais aristocrático dos clubes que já jogaram a terceira divisão do Campeonato Brasileiro. Tanta generosidade rendeu à Abarrosvich a alcunha de Papai Celso. Seu afeto paternal é demonstrado em mesadas, religiosamente pagas às estrelas de seu circo particular.

A Unimed, que tanto esbanja, representa para o Fluminense a possibilidade de receber grandes jogadores – a maioria longe do auge da carreira, como Romário, Edmundo, Ramon, Roger, Petkovic, Carlos Alberto e, agora, Fred. Isso acontece porque a Unimed tem interesse no retorno de mídia que o Fluminense a proporciona. Portanto, nada como contratar alguém que já tem nome nesse mercado futeboleiro e que – midiaticamente falando, meu caro – tem a capacidade de ser onipresente no noticiário. Quiçá até balançar as redes. E isso, às vezes, até fazem. Afinal, são quase sempre atacantes e/ou jogadores com cacuetes ofensivísticos e, convenhamos, bola no pé.

Abarrosvich anuncia a contratação de Valderrama

O pobrema do Fluminense é que, sem um departamento de futebol estruturado, fica por conta da Unimed nomear e pagar os gerentes, administradores, managers ou qualquer outro nome que se dê ao cara que comanda o departamento do futebol. Exemplo, Branco. Ou seja, tascam-lhe incoerências, como gastar uma pequena fortuna para ter Dodô, Leandro Amaral e Washington juntos. Mas isso, é claro, dá o tal retorno de mídia que, nesta lógica, deixa de ser um produto oferecido pelo clube e passa a ser uma política de futebol, capitaneada pelo patrocinador. Uma consequência disso é a valorização de jogadores da base (e o Fluminense tem um bom trabalho com os garotos de Xerém) que não acontece, pois não garante o tal retorno de mídia imediato. A solução é sempre Romário, Edmundo, Fred ou o atacante de nome que esteja dando sopa no mercado. Custe o que custar. Afinal, é garantia de matéria no Jornal Nacional (pega na minha rima!).

Essa, alguns dirão, é uma estratégia galáCtica, dos tempos de Florentino Pérez [que de tão bons podem até voltar] no Real Madrid. É, pode ser, mas as realidades são muito diferentes. O Real Madrid havia vendido [em negociação polêmica] um terreno que garantiu dinheiro na mão, o que como todo mundo sabe é vendaval na vida de um sonhador. Lá, a política galáCtica – uma espécie de Star System de chuteiras – era financiada com dinheiro do clube e o retorno financeiro era esperado por uma rede de produtos licenciados já estabelecida (e que seria fortalecida), um estádio próprio com (ainda mais) caros carnês anuais de ingresso esgotados, valorização dos patrocínios (na camisa ou não), pré-temporadas no exterior a peso de ouro e, quem sabe, os louros do sucesso esportivo. Tudo isso, garantiria uma superexposição da marca em todo mundo, transformando o Real em sinônimo de futebol por todos os cantos. O investimento, portanto, se pagaria em euros, dólares, yens e, quiçá, até rublos.

Star System Tricolor: Lê, Wash e Dô indo pra escolinha

E o que tem o Fluminense? Certamente não um estádio. A torcida até comparece, mas perde-se muito dinheiro com taxas e afins no Maracanã. Dívidas trabalhistas também não ajudam neste quesito. Produtos Licenciados? Apenas engatinhando. Não chegam a ser representativos diante dos salários pagos aos atletas. Pré-temporada lucrativa? Rá. Resultados esportivos? Há controvérsias. Com altos e baixos. Certamente melhor do que administrações passadas fizeram, mas nada acima das tradições e da grandeza do clube das Laranjeiras e abaixo do investimento feito.

E mais, a valorização do espaço destinado ao patrocínio no uniforme não existe. Afinal é ela [ela = o dinheiro injetado pela Unimed] que possibilita a chega dos tais [supostos] craques. Se no Real, então, [e, sem querer fazer juízo de valor, até no Corinthians na contratação do Ronaldo Fofômeno] o clube valoriza o próprio material para capitalizar em cima da própria imagem, no Fluminense, é o patrocinador que banca a valorização. Cria-se, portanto, a tal dependência – que só é vista em clubes com donos, como os ingleses, ou em clubes-empresas minúsculos do interior do Paraná – e é duro confiar em um Fluminense sem a Unimed.

Camisa do Fluminense antes da chegada da Unimed

Há quem diga que tudo isso é bom para o Fluminense. Eu vos digo que é um perigo. O Fluminense, hoje, está nas mãos de uma empresa que não tem reais necessidades de se envolver em futebol. A mesma só mantém os investimentos porque a atual força política do clube aprecia a ajuda. Sem uma força política amistosa, as mesadas provavelmente seriam cortadas. O Fluminense depende mais do que um patrocinador. Depende que sua política esteja em acordo com os interesses da Unimed. Isso inibe renovação política no Fluminense, o que é essencial para o surgimento de novas ideias.

Sabe, acho até que o Nelson Rodrigues concordaria comigo [ainda que não concordasse com meus argumentos].

Crédito: Mídia Independente, Lance! e Fantástico e Criativo Mundo Livre da Internet Brasileira.

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