Filipinas: De pioneiros a desconhecidos

“Dirijo-me às ilhas filipinas”, respondia o almirante Ruy López de Villalobos a quem o perguntasse, em suas expedições. Era assim que ele chamava as ilhas localizadas ao sul do Pacífico que, no século 16, eram colonizadas por ordem do Rei Felipe II de Espanha. Reafirmando a autoridade do monarca em suas cartas, Villalobos acabou por dar nome ao arquipélago.

As pouco mais de sete mil ilhas que se estendem desde o sul da China, próximo a Hong Kong, até o norte da Indonésia, exatamente a meio caminho da Austrália, são densamente povoadas (como acontece em toda a região) e fervilham em diversidade de fauna, flora e também de cultura.

A colonização espanhola de mais de trezentos anos deixou fortes traços na região, muito embora a população nativa já atingisse a marca de meio milhão de habitantes quando da chegada dos exploradores, em meados de 1500. O idioma local foi preservado como oficial, mas a religião predominante é o catolicismo – algo raro na Ásia.

Mas apesar do longo período de dominação espanhola, a influência dos Estados Unidos também é marcante. Os dois países entraram em guerra no final do século 19 pelo controle de colônias espanholas no Caribe, e o arquipélago acabou entrando na conta. Os 48 anos de dominação estadunidense renderam à República das Filipinas o inglês como segundo idioma oficial.

Pioneirismo

À época já colônia norte-americana, mas ainda fortemente influenciadas pelos costumes da antiga metrópole – bem como pelo enorme contingente de espanhóis instalados nas ilhas –as Filipinas receberam o futebol muito cedo, ainda no final do século 19. Tanto que a Federação de Futebol Filipina (então chamada de Federação Atlética Amadora Filipina) foi a primeira a ser fundada na Ásia, em 1907, antes mesmo da fundação de uma confederação asiática. Como comparação, vale lembrar que no Brasil a CBD só seria criada sete anos depois.

Para esse nascimento prematuro, contribuiu muito o fato da Espanha ter sido uma das fundadoras da FIFA, em 1902. Curiosamente, a afiliação da federação filipina à entidade máxima do futebol aconteceu somente em 1930. Nos primeiros anos, o futebol era praticado juntamente a outros esportes apenas como recreação, de tal maneira que a primeira partida disputada por uma seleção nacional foi em 1º de fevereiro de 1913: uma vitória por 2 a 1 sobre a China na primeira edição dos Jogos do Extremo Oriente, precursor dos Jogos Asiáticos. Esta é considerada a primeira partida entre seleções asiáticas da história.

O “mestizo”

Não estava em campo nesta vitória o maior futebolista filipino de todos os tempos. Paulino Alcántara Riestrá, filho de militar espanhol e mãe nativa, nasceu na cidade de Iloilo, mas ainda criança se mudou para Barcelona. Após dar seus primeiros chutes na bola nas canteras do FC Galeno, Alcántara logo foi recrutado pelo Barcelona após ser observado por Joan Gamper, fundador do clube catalão.

Foi em 25 de fevereiro de 1912, aos 15 anos, quatro meses e 18 dias, que o mestiço marcou três gols em sua estréia pela equipe principal, na vitória por 9 a 0 sobre o Catalá SC, em partida válida pelo campeonato da Catalunha. Ele permanece até hoje como o jogador mais jovem a vestir a camisa azul-grená e a marcar com ela. Foi, também, o primeiro asiático a defender um clube europeu.

Após uma breve experiência no Bohemians de Manila, capital filipina, acompanhando os pais, Alcántara voltou ao Barcelona. Na rápida passagem pelo futebol de sua terra natal, ajudou a seleção nacional a golear o Japão por 15 a 2, na decisão dos Jogos do Extremo Oriente de 1917, em Tóquio. Esta foi a maior vitória das Filipinas até hoje – e um placar que dificilmente será batido.

De volta à Espanha, acumulou cinco Copas do Rei e dez Campeonatos da Catalunha, fazendo dupla inesquecível com Ricardo Zamora. Defendeu também a seleção da província e o próprio selecionado espanhol, antes de se aposentar. Sua incrível marca de 357 gols ainda não foi batida, o que faz dele o maior artilheiro do clube de todos os tempos. Em 1951, chegou a ser técnico da Fúria. Durante toda sua carreira, sempre enalteceu o fato de ter nascido nas Filipinas.

Involução

Para um país pioneiro no futebol, berço de um dos melhores jogadores da era pré-profissionalismo, as Filipinas não conseguiram transformar o início promissor em uma base sólida. A mudança de comando do arquipélago foi fundamental para este processo: todos os esforços para desenvolver o esporte foram anulados com a introdução dos costumes estadunidenses. Tanto que, ainda hoje, o basquete é muito mais popular no país.

Apesar disso, em 1936 foi criado o campeonato nacional de futebol, à época restrito à capital Manila. Com o fim da Segunda Guerra Mundial e a conquista da independência dos Estados Unidos, as Filipinas foram co-fundadoras da Confederação Asiática de Futebol em 1954. Entretanto, a próxima vitória que a seleção conseguiria viria somente em 1971.

A essa altura, o futebol filipino já carecia de experiência em relação ao restante do continente. As Coréias do Sul e do Norte haviam até disputado uma Copa do Mundo, enquanto a seleção nacional sequer se classificava para a fase final da Copa das Nações Asiáticas, feito até hoje não alcançado.

No final da década de 70, a federação se reestruturou e criou centros de treinamento para jovens, iniciativa que foi repetida em 1998 com o “Kasibulan”, projeto de base que recebeu apoio financeiro alemão. Atualmente, a Bundesliga continua auxiliando no desenvolvimento do futebol no país e até mesmo abriga Ralph Koch, jovem meia, no TuS Niederaden, clube de juvenis.
Após duas campanhas desastrosas nas eliminatórias para as Copas de 1998 e 2002 (um ponto conquistado em nove jogos, dois gols marcados e 39 sofridos), a federação local percebeu o atrasado estágio em que o futebol se encontrava no país e decidiu abdicar de disputas maiores para focar ainda mais no desenvolvimento das bases, com o investimento em novos centros de treinamentos para jovens, financiados pelo Projeto GOAL, da Fifa. Com um histórico de 23 vitórias, 14 empates e 147 derrotas, com impressionantes 647 gols sofridos, o apelido de “azkals”, ou vira-latas no idioma local, parecia perfeito.

Por isso, a seleção não disputou os qualificatórios para a edição de 2007 da Copa das Nações Asiáticas e para as Copas de 2006 e 2010, participando apenas de torneios menores como o Asean Championship, disputado pelos países do sudeste asiático, e a Challenge Cup, criada pela AFC para as equipes de menor representatividade no continente. Tudo para colocar as ilhas filipinas de volta no mapa.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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