Férias pelo Leste: a receosa Belgrado

Chegar a Belgrado significa, imediatamente, se lembrar dos conflitos dos Balcãs. É impossível citar a capital da Sérvia e não recordar os horrores da guerra, e ao entrar na cidade tudo isso fica bem visível.

No início dos anos 1990, a Iugoslávia começou a ser desmantelada. Eslovênia e Croácia foram as primeiras a se tornar independentes. Depois veio a Bósnia, em capítulo triste e sangrento que contarei no próximo texto, sobre Sarajevo. A Macedônia, aliada, saiu bem depois, sem traumas. Kosovo também quis, mas segue preso. Tudo isso em um período de mais ou menos dez anos, e ao custo de muitas vidas.

As marcas dos bombardeios da Otan, que demoraram a acontecer na Guerra da Bósnia e no Kosovo nem tanto, seguem no centro de Belgrado. As instalações militares e alguns prédios públicos não foram reconstruídos. Suas carcaças seguem aterrorizando os habitantes da cidade. Muitos ingênuos, sem a noção do horror que seu país infligiu aos vizinhos.

A cidade é uma capital como muitas brasileiras. Trânsito pesado, vida corrida, muita poluição e 1,7 milhão de habitantes. Não há tantas atrações também. Infelizmente, a população não é das mais educadas. Talvez ainda seja muito receosa em receber turistas, tanto que a infra-estrutura para isso é precária. Para conseguir um mapa da cidade foi uma enorme dificuldade, e mesmo assim me deram um recorte de jornal. Fora o fato de a Sérvia ter sido o único país a me pedir visto de entrada.

A grata exceção da minha passagem por lá tem nome e sobrenome: Pedrag Trkulja, responsável pelo museu do Estrela Vermelha. Atencioso, prestativo e com um inglês perfeito – vale lembrar que a Sérvia usa o alfabeto cirílico, como estudo russo, me virei bem por lá, mas isso é sempre uma barreira muito grande -, garantiu uma visita inesquecível ao passado vitorioso do Crvena Zvezda. Afinal, são poucos clubes que têm em sua galeria de troféus uma Copa dos Campeões e um Mundial Interclubes, conquistados por craques do nível de Dejan Savicevic, Sinisa Mihajlovic, Vladimir Jugovic,  Robert Prosinecki, Stevan Stojanovic, Darko Pancev…

O museu é pequeno até, mas muito bem administrado e com acesso às arquibancadas. Possui uma boa coleção de flâmulas, todos as taças do clube, muitas fotos antigas – com destaque para os encontros com o Santos de Pelé e o Botafogo de Garrincha – e muitas referências aos maiores ídolos do passado do Estrela Vermelha. Incluindo o maior deles, Rajko Mitic, que atuou nos anos 1940 e 50. Ele leva o título de 1a estrela do clube, que surgiu tarde, somente em 1945. E ainda empresta o nome ao melhor camarote local, com vista central para o gramado e um excelente bar aos fundos.

Já ia me esquecendo… sabem qual é o apelido do, oficialmente chamado, Estádio do Estrela Vermelha? Maracanã, mas escrito Marakana. Isso porque na época de sua construção ele era um dos maiores da Europa, e por isso ganhou o apelido do hoje esqueletado palco mais importante do futebol brasileiro.

Do Marakana parti para o Estádio do Partizan, apenas 1,5 km distante. Algo que para mim foi uma descoberta interessante, afinal, trata-se de uma das maiores rivalidades do mundo – sou obrigado a citar Guarani x Ponte Preta, com seus estádios próximos também! Aliás, quando estava na lojinha do Estrela Vermelha, me arrisquei a perguntar para qual sentido da rua deveria ir para achar a casa do rival. O funcionário, naturalmente, se recusou a responder. Não repliquei.

No Partizan não há museu, e a loja oficial é bem menor. Também não dá para ir ver o gramado ou mesmo as arquibancadas. Por isso, minha visita limitou-se a fotos do lado externo.

Belgrado vale a visita para você ver o outro lado da guerra, o lado dos opressores. A população em si não pode ser culpada pelos erros de imbecis que estavam no poder. Não é justo generalizar. Imbecis, aliás, que têm sido punidos pelos tribunais internacionais por toda dor e tensão que geraram na região. De qualquer modo, é um povo ainda temerário com os olhares internacionais.

Próximo texto: Sarajevo

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