Fazendo história

Duelos no time principal são poucos e quando existem não são decisivos. Já nas divisões de base, esse confronto se torna mais frequente e sempre com extrema importância. Brasil e Gana duelaram mais uma vez pela Copa do Mundo sub-20. Nunca um país africano havia ganhado a competição, e foi justamente na África que isso acabou. Gana venceu o Brasil nos pênaltis, depois de estar atrás por duas oportunidades.

A vitória acabou com o jejum dos ganenses, que já haviam batido na trave por duas tentativas. Em 2001 a equipe foi vencida na final pela Argentina, e em 1993 pelo Brasil. Naquela oportunidade, o Brasil com um jogador a menos, e ainda assim venceu por 2 a 1 os africanos, que tinham como base a sub-17 campeã dois anos antes. Em 2007, quem ficou com um a menos foram os africanos. O zagueiro Francis Boadi foi expulso, mas Issac Donkor fez o gol que eliminou a seleção verde-amarela.

Nesta 17ª edição, as Estrelas Negras tiveram mais um jogador expulso. Aos 36 minutos do primeiro tempo, o zagueiro Addo foi expulso por falta feia em Alex Teixeira. Mesmo com um a mais o Brasil perdeu várias oportunidades e nos penâltis, Alan Kardec, Giuliano e Douglas Costa, fizeram, mas Souza, Alex Teixeira e Maicon perderam. O goleiro Rafael ainda pegou duas cobranças, dos zagueiros Mensah e Addae, mas não conseguiu salvar a seleção no chute de Badu.

“Somos campeões por direito próprio, com todo merecimento. Não me preocupou a expulsão de Daniel Addo. Já passamos por isso há dois anos também contra o Brasil. Mas hoje nós ganhamos porque soubemos adaptar ao jogo. Acabo de me converter como o primeiro treinador a levar um país africano ao título do sub-20”, disse Sellas Tetteh após a final contra o Brasil.

Mesmo o Brasil não vencendo, a hegemonia sul-americana imperou novamente. Nos dezessete torneios disputados, apenas em cinco edições não houve um país da América do Sul na final: em 1977, na primeira edição do torneio entre União Soviética e México. 1981, Alemanha e Catar. 87 entre Iugoslávia e Alemanha. No Mundial da Arábia Saudita, em 1989, com Portugal e Nigéria, e em 1999, Espanha e Japão decidiram o título. A Argentina ainda continua como maior vencedora, com seis conquistas. O Brasil é o segundo, com quatro.

Espanha e Nigéria, que chegaram ao Egito como favoritas, depois de chegarem a final do sub-17 em 2007, decepcionaram e não confirmaram o favoritismo. A Nigéria por pouco não foi eliminada na primeira fase. Venezuela, em sua primeira participação fez bonito, ao contrário de Taíti, outro estreante, que foi um verdadeiro saco de pancadas. A Argentina, que não passou das eliminatórias sul-americanas foi a ausência mais sentida da competição.

DESFALQUES

Por falar em ausência, faltaram muitos jogadores que poderiam dar um brilho maior à competição. A Inglaterra fez um péssimo Mundial e não contou com sua maior estrela: Jack Wilshere, meia ofensivo do Arsenal, não liberado por Arsène Wenger. O Everton também não liberou a promessa Jack Rodwell, peça importante de David Moyes. Isso sem contar em Walcott e Gibbs, jogadores do Arsenal, que tinham idade, mas não foram ao Egito.

Outra seleção desfalcada que ainda fez uma campanha melhor que os ingleses foi a Itália. Sem Mario Balotelli, Davide Santon, Alberto Paloschi, e o meia Luca Morrone, da Juve, a Azzurra caiu nas quartas para a Hungria, após eliminar a favorita Espanha na fase anterior.

A maioria das seleções ficaram sem alguns dos principais jogadores. Alguns por lesão, outros que já atuam com maior regularidade em suas seleções, e na maioria dos casos, a não liberação do atleta por parte do clube. Desfalque por desfalques, Gana também teve os seus, mas fez uma campanha incrível, da base formada no sub-17, 2007, passando pelo título do Campeonato Africano sub-20, até a conquista inédita do Mundial.

CAMPANHA VITORIOSA: AFRICANO SUB-20

Addo, Opare, Boadi, Nortey, Opoku; Alhassan, Yartey, Quansah; Osei, Adams e Donkor. Era essa escalação de Gana na vitória sobre o Brasil no Mundial sub-17. Passados dois anos pouca coisa mudou. Ficaram alguns jogadores, saíram outros e entraram novos nomes. Para o torneio classificatório disputado em Ruanda, Gana não teve dificuldades.

Sem disputar a fase preliminar do torneio, iniciou sua caminhada rumo ao Mundial com um sonoro 5-1 na primeira partida em Angola, e apesar da derrota na segunda partida por 1 a 0, garantiu vaga na segunda fase. Na fase seguinte, um adversário teoricamente mais fácil, Gâmbia, e sem encontrar dificuldades, garantiu a vaga na fase de grupos com duas vitórias, 2-1 e 1-0.

Divididos em dois grupos, Gana disputou com Mali, Ruanda e Camarões uma das duas vagas para o Mundial. Na outra chave Nigéria, África do Sul, Costa do Marfim e o já classificado Egito.

Sem encontrar dificuldades, apesar do empate na primeira partida por 1-1 com Camarões, Gana venceu Ruanda com dois gols de Osei, e Mali, com mais um de Osei e outro de Awako, ambas partidas por 2-0. Com o primeiro lugar no grupo, ganhou o direito de disputar uma das semi-finais contra a África do Sul.

Brilhando mais uma vez a estrela de Osei, Gana passou pelos sul-africanos por um placar de 4-3 em uma partida disputadíssima. Com a vitória de Camarões sobre os nigerianos por 2-0, a briga pelo título ficaria entre as duas seleções.

Desta vez Camarões não foi páreo para o brilhantismo de Osei, que com dois gols garantiu a vitória e o título para os ganenses, o terceiro na história. Além da conquista, o país foi um dos quatros classificados para o Mundial, e de quebra Ransford Osei garantiu a artilharia isolada com sete gols durante a competição.

MUNDIAL DO EGITO

Já no Egito, Gana tinha pela frente um Grupo D fortísssimo, talvez a mais temida de todas as chaves, formada por Uruguai, Inglaterra e Uzbequistão. A esperança dos ganeses eram depositadas no forte poderio ofensivo, comandado por Ransford Osei, já consagrado – pelas exibições no último Mundial sub-17 e do Africano sub-20 – desconhecido Dominic Adiyiah e de Andre Ayew, filho da lenda Abedi Pelé. Mesmo com as dificuldades da estreia, em que bateu no sufoco a seleção uzbeque com gols de Osei e Adiyiah, Gana não tomou conhecimento da Inglaterra, aplicando um histórico 4-0, e já com a vaga garantida com antecência para a próxima fase, não saiu de um empate por 2-2 com o Uruguai.

As oitavas-de-final recebeu um jogo continental entre Gana x África do Sul. E assim como já havia acontecido no torneio classificatório, os ganenses mais uma vez despacharam a África do Sul, desta vez por 2-1, com gols de Awey e Adiyiah, este último aos 9 minutos do primeiro tempo da prorrogação. E por pouco não perderam. Graças as boas defesas do goleiro Agyei e dos remates imprecisos do ataque amajita. Com a classificação, Gana garantiu a vaga nas quartas de final para enfrentar a Coreia do Sul.

Em uma partida acirrada, os ganenses, que chegaram a abrir 3-1 no placar acabaram sofrendo um gol de Kim Dong-Sub aos 37′ do segundo tempo, provocando uma pressão por parte dos sul-coreanos, que mesmo com a insistência não foram páreo para a avassaladora dupla Osei e Adiyiah.

Com vaga na próxima fase, Gana protagonizou mais uma partida emocionante, desta vez no Cairo International Stadium contra a Hungria, desfalcada de seu principal jogador, o capitão Koman, suspenso, e do treinador, acompanhando a seleção das tribunas. Sempre à frente no placar, a história se repetiu, e após estar vencendo por 3-1 novamente, cedeu um gol aos hungáros no final incendiando a partida, mas sem êxito. Com a vitória, Gana se tornou a primeira finalista do Mundial sub-20 2009, mas ainda esperava a decisão entre Brasil e Costa Rica. E a decisão, todos já sabem.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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