Exeter: Músicos, mágicos e paranormais

Reunião da diretoria do Exeter City. Em pauta, a contratação de um novo jogador:

URI: E então, vamos tentar trazer o John Smith? A aura dele é muito boa e sinto vibrações positivas vindo do garoto…
MICHAEL: Garoto, alguém falou em garoto?
DARTH: Calma, Michael, o John Smith tem 18 anos.
MICHAEL: Ah! Velho demais para mim…
URI: Acho que devemos contratá-lo. Eu só não sei como vamos convencer o empresário dele.
DAVID: Será que se eu fizer o truque da levitação ele topa?
URI: Acho que não…
DAVID: E se eu fizer o rosto da namorada dele aparecer tatuada no meu sovaco?
URI: Também não…
DAVID: E se…
DARTH: Chega! Se o empresário não concordar, eu farei com que o lado negro da Força dê um jeito nele!
URI: Está decidido, então. Vou usar o poder da minha mente para entortar as colheres da casa dele, uma para cada ano de contrato que vamos oferecer. E Michael, fique longe do rapaz…

É óbvio que toda a conversa acima não passa de brincadeira. Porém, por incrível que pareça, os personagens são reais: Uri Geller é o presidente do Exeter, e David Blaine, Michael Jackson e Darth Vader são mesmo diretores do clube.

Em busca do factóide

Para quem não reconhece o nome, Uri Geller é um dos 'paranormais' mais famosos do mundo. O auge de sua exposição aconteceu nos anos 80, quando apareceu em shows de TV em todo mundo exibindo seu 'dom' de entortar colheres com o 'poder da mente'. Ele assumiu a presidência do Exeter em maio de 2002, após o clube ser comprado por um grupo de empresários. Apesar de suas decisões administrativas questionáveis, um mérito não se pode negar ao entortador de colheres: nos dez meses que esteve à frente do Exeter, o clube conheceu uma exposição na mídia que nunca antes tivera.

Primeiro, Geller fez uso de sua própria esquisitice para fazer o clube aparecer. “Embora eu defenda o uso de uma ética de trabalho positiva e de uma visão otimista, prometo que não farei uso de nenhuma atividade paranormal para beneficiar o clube”. Essa foi uma de suas primeiras declarações após assumir a presidência. É mole?

E depois veio mais. Com muitos amigos no show business, Geller usou sua influência para colocar o Exeter na boca do povo. Em maio, organizou um minishow no estádio do time com o cantor Michael Jackson e o mágico David Blaine. Embora mal conhecessem o clube, os dois foram promovidos a diretores honorários, inclusive com direito a voto nas reuniões de diretoria (mas eles nunca mais tenham aparecido por lá para votar).

Mas a maior bizarrice ainda estava por vir. Em janeiro deste ano, Uri Geller descobriu que o fisiculturista David Prowse de vez em quando ia ao estádio de St. James' Park assistir a jogos do Exeter – para quem não sabe, Prowse é o homem que vestiu a roupa de Darth Vader na trilogia “Guerra nas Estrelas”. Geller não perdeu tempo e incluiu Prowse entre os diretores honorários do clube. E ainda 'justificou' a decisão: “Há uma vantagem psicológica. Imagine só os jogadores adversários entrando em campo sabendo que Darth Vader está de olho neles”.

Esses e muitos outros 'factóides' marcaram a passagem de Uri Geller pela presidência. Em campo, porém, os resultados não foram nada bons, ao ponto de ameaçar a estada do clube na Football League, a qual já dura mais de 80 anos.

O primeiro adversário da seleção brasileira

O Exeter City Football Club foi fundado há quase 100 anos, em 1904, a partir da fusão de dois pequenos times locais: o Exeter United e o St. Sidwell's. Quatro anos mais tarde, tornou-se profissional e passou a disputar torneios regionais. Em 1920, foi convidado a fazer parte da Football League (a liga nacional inglesa), quando esta criou sua terceira divisão.

Porém, foi três anos antes quando o Exeter conseguiu um de seus maiores feitos. Em 1917, o time fez uma excursão pela América Latina, enfrentando equipes argentinas e brasileiras. E foi no Rio de Janeiro que o Exeter garantiu seu lugar na história do futebol mundial: na dia 21 de julho, os ingleses participaram do primeiro jogo na história da seleção do Brasil (e perderam por 2 a 0).

É fácil entender por que esse momento foi tão importante para o Exeter. Basta olhar o resto de sua história. Em 83 anos de futebol, a melhor colocação que a equipe conseguiu foi o vice-campeonato da região sul da terceira divisão, em 1933 – e na época só o campeão subia para a segundona.

Depois, as únicas 'honras' da equipe foram ser um dos fundadores da quarta divisão, em 1958, e o título desse mesma divisão, conquistado em 1990 – até hoje, é o único troféu do clube. Outro feito lembrado com carinho pela torcida foi ter chegado duas vezes às quartas-de-final da copa da Inglaterra, em 1931 e 1981.

Estagnado na quarta divisão desde 1994, o Exeter pelo menos tem o orgulho de dizer que nunca foi rebaixado para a Conference (a quinta divisão da Inglaterra). Isso é muito importante, pois a Conference não faz parte da Football League, sendo uma liga de futebol semiprofissional. Este ano, porém, o Exeter corre o risco de perder até essa pequena ponta de orgulho: o time passou a temporada toda na zona de rebaixamento e precisa de uma bela combinação de resultados para se salvar da queda.

Em coma

Além dos resultados discretos do Exeter dentro de campo, a história da equipe é marcada pela penúria financeira. Ao longo de seus 99 anos de vida, o clube várias vezes esteve a um passo da falência. E hoje a situação não é nada melhor.

Embalada pelo 'boom' do 'football business' e por uma breve melhora nas contas do clube, a diretoria do Exeter decidiu promover melhorias em seu estádio, as quais vinham sendo cobradas pela liga há algum tempo. O problema é que no ano passado o futebol como negócio entrou em crise, e o dinheiro secou. Resultado: uma dívida próxima dos US$ 3 milhões, valor astronômico para um clube tão pequeno.

Para piorar, a diretoria passou os últimos meses numa verdadeira tempestade. Em março, descobriu-se que Uri Geller não estava formalmente registrado como diretor do Exeter, o que o forçou a abandonar a presidência. Em abril, outros seis diretores abandonaram o barco, devido à divida gigantesca e às pressões da torcida pelos maus resultados. Todos sabem que se o time de fato cair para a Conference, a falência será praticamente inevitável.

No último ano, Uri Geller tem dito em entrevistas que deixou de desenvolver sua paranormalidade, para se concentrar em temas mais 'importantes', como auto-ajuda e afins. É uma pena. Em 99 anos, o Exeter City nunca precisou tanto de uma mãozinha do sobrenatural.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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