Estrelinha de bom comportamento

Ao contratar Emerson Leão, o São Paulo cometeu um erro. Acontece que, às vezes, os erros podem dar certo por algum tempo, antes de cobrarem a dívida inevitável. Desapontado com as apostas no refinado Ricardo Gomes, no caxias Sérgio Baresi e nos inventivos (pra não recorrer àquele apelido batido que ambos ganharam) Carpegiani e Adílson Batista, o clube resolveu dar nova chance ao tradicionalismo tacanho de Leão, que estava desempregado há quase um ano e deixara o clube de forma irresponsável em 2005, ano que, ainda assim, se tornaria de feliz recordação para o torcedor tricolor.

Com um time cheio de moleques e marmanjos acomodados, aplicou-se o clichê do choque de gestão. Muitos torcedores aplaudiram a iniciativa, sob a tese de que, se Leão não desse jeito no time, pelo menos os almofadinhas penariam na mão de um carrasco notório. A mesma lógica rasa que levou Ricardo Teixeira a recorrer a Dunga para o cargo de técnico da seleção, depois do desleixo dos medalhões na Copa de 2006. Um erro que deu certo até o segundo tempo de um jogo de quartas-de-final de Copa do Mundo, mas que cobra seu preço até hoje, já que Mano Menezes herdou e vem mantendo uma seleção que não apresenta qualquer traço característico do futebol brasileiro.

Ainda é cedo pra dizer se Leão é um erro que pode dar certo. No Brasileirão, a equipe não melhorou em sua gestão, seu contrato foi renovado muito mais pela postura e discurso afinados com o da direção. No Paulista, bem ou mal, o time vem fazendo uma campanha tranquila, marcada por maior vocação ofensiva e muitas falhas defensivas. Dois dos três grandes problemas desse grupo são-paulino passaram a incomodar menos: a covardia e, principalmente, a indolência. Falta ainda resolver a questão da individualidade excessiva dos homens de frente, polêmica que moveu o noticiário nas últimas semanas.

Para a alegria dos inúmeros inimigos que arrebanhou na imprensa durante sua carreira, Leão se mostra cada vez mais ultrapassado taticamente. Para a tristeza dos mesmos, o treinador tem mostrado maturidade surpreendente no extracampo. Não que ele ande fugindo de conflitos, mas achou um modo mais leve de lidar com suas respostas e provocações: o deboche. Se Luís Fabiano entra na sala cantando que “o Fabuloso voltou”, Leão diz que ainda não viu. Se Casemiro comemora boas assistências, ele manda um perfeito “foram cinco assistências positivas e 27 sustos no treinador, então ele está me devendo 22 assistências”.

Ferraris dão dor de cabeça. Pergunte ao Fernando. Mas não ao Felipe, que é quem dá dor de cabeça a Ferraris.

A última tirada do veterano brigão foi para Wagner Ribeiro, empresário de Lucas, que comparou o seu protegido a uma Ferrari e acusou Leão de não saber guiá-la. A resposta veio em campo, mas também na coletiva, com um simples “Fiz autoescola durante a semana”. Tá certo que com Lucas, o treinador tem se portado mais ao seu estilo. Fez dura crítica ao seu egoísmo num jogo e, quando o rapaz deu uma de mimado e se negou a fazer jogadas individuais no jogo seguinte, pegou pesado novamente. O ideal seria fazer isso nos bastidores, sem envolver a imprensa, sedenta por polêmicas. Mas quem sabe se a reclamação pública não foi um último recurso de uma longa batalha?

Coincidência ou não, vimos um Lucas diferente contra o Santos. O menino conseguiu unir suas melhores qualidades, as arrancadas e os dribles, a um estilo combativo e até solidário. Como no lance que definiu a partida, quando normalmente teria tentado resolver tudo sozinho, mas preferiu cruzar para Cortez, que estava melhor posicionado. E não é que a bola bateu na trave e, caprichosamente, voltou para os pés do menino fominha? Tudo naquela vibe politicamente correta de “faça coisas boas que coisas boas virão até você”. Até a sua posição irregular no lance foi convenientemente perdoada.

Diante de tanto estardalhaço, cabe o adendo, por mais óbvio que ele seja: Lucas não é melhor do que Neymar. Aliás, Lucas não chega nem perto de Neymar. O santista ainda tem o que provar ao mundo, mas nada deve dentro das Américas. Lucas ainda nem entrou para a história do clube que defende. Muitos já devem ter esquecido do “Estamos criando um monstro” de Renê Simões, cujos desdobramentos na mídia certamente colaboraram para que o santista colocasse a cabeça no lugar e se consolidasse como grande nome do futebol nacional. Da mesma forma, caso Lucas supere a fase de promessa e construa uma grande carreira, poucos lembrarão do legado deixado pelo Tio Leão na trajetória do rapaz.

É improvável que esse São Paulo, cheio de falhas, consiga conquistar títulos em 2012, superando um talentoso Santos, um sólido Corinthians, um azeitado Palmeiras e, mais para a frente, times com mais recursos, como Fluminense e Internacional. Mas não é exagero dizer que Leão pode deixar ao seu sucessor o legado de uma equipe mais vibrante e consciente. Parece pouco, mas é muito para um clube que passou três anos afundado em crise existencial. E para um técnico que talvez nem esperasse ter o seu, mesmo que modesto, canto do cisne.

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Equipe Trivela

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