Estoril: Canarinho lusitano

´´E em louvor hei de espalhar meu canto/ E rir meu riso e derramar meu pranto´´. Esse poderia ser um grito de guerra da ´´Linha amarela´´ ou da ´´Gruppo´´, torcidas do GD Estoril-Praia, mas na verdade é um trecho do famoso ´´Soneto de Fidelidade´´, escrito em 1939 por Vinícius de Moraes (à época diplomata), em Estoril. No mesmo ano e no mesmo lugar, surgia o mencionado clube, que na temporada 2004/05 volta à primeira divisão de Portugal após dez anos nos escalões inferiores. O regresso dos ´´canarinhos´´ – a cor do uniforme explica o apelido – à SuperLiga pode ser tido como meteórico, já que se trata da segunda ascensão seguida (em 2002/03 o time fora campeão da II divisão B e subira para a Liga de Honra). A campanha na última Copa Nacional também merece elogios: avançou até as quartas-de-final.

Recentemente, o estádio Antônio Coimbra da Mota, ou simplesmente o campo da Amoreira, tem recebido públicos que há muito não se viam. A boa fase se deve, em grande parte, à gestão da SAD (Sociedade Anônima Desportiva) estorilista, cujas ações pertencem majoritariamente a José Veiga, agente de vários jogadores portugueses e dono da empresa Superfute. No entanto, Veiga está bem distante da unanimidade dentro do Estoril-Praia. A ala conservadora – da qual faz parte o novo presidente, Miguel Pisco, eleito em junho de 2004 – alardeia que o empresário e seus asseclas nada dizem às tradições da instituição, multiplicam dívidas e desejam transformar o clube numa filial do Benfica, para o qual rumou o melhor jogador da ´´equipa´´ na última temporada, o jovem atacante Carlitos.

Fora de campo, o glamour

Vinícius não era a única personalidade estrangeira a habitar essa região litorânea em 1939. Cerca de 20 mil exilados e refugiados da II Guerra (entre os quais havia reis, duquesas, cineastas, pintores e anônimos) passaram por lá entre esse ano e 1946, em busca de paz e do fácil acesso ao Oceano Atlântico. Estoril era o destino predileto dos ´´turistas forçados´´, por contar com hotéis de luxo, clima agradabilíssimo, o maior cassino da Europa, praias lindas e charme, muito charme. O padrão de vida do local até hoje supera o de outras cidades portuguesas e é fruto da visão empreendedora de Fausto de Figueiredo, que, no início do século XX, formulou um projeto urbanístico para Estoril e fundou a Estoril-Plage, empresa do ramo turístico que deu origem ao Estoril-Praia.

A ebulição da cidade fez bem ao recém-fundado clube canarinho, cuja década mais próspera foi a de 40. Em 1944, alcançou o vice da Taça de Portugal. Uma proeza, sem dúvida, embora na final o Benfica o tenha esmagado por 8×0. Ainda nessa época, atingiu o quarto posto na temporada 1947/48, o melhor de sua história, e a quinta colocação em 1946/47 e 1948/49. Depois, com a autonomia adquirida após desligar-se da Estoril-Plage, o clube nunca mais foi o mesmo em termos de resultados futebolísticos. Passou longos períodos longe da elite (de 1953/54 a 1974/75, por exemplo) e somente quando teve o apoio de um mecenas ou outro conseguiu sobressair. Figura em 17o lugar no ranking da primeira divisão portuguesa, com 542 jogos (163 vitórias) em dezenove participações (já houve 70 edições).

Automobilismo, tênis e… futebol!!

Indagada sobre qual seria a relação entre Estoril e o esporte, qualquer pessoa citaria o Grande Prêmio de Fórmula 1 e o Estoril Open. Alguém se lembraria do iatismo ou do golfe. Mas a ´´claque´´ canarinha aludiria, sem titubear, ao futebol do Estoril-Praia, que, devido ao progresso recente, sonha até com a disputa de uma Copa Européia, algo que seria inédito para o clube. Animada com a dupla promoção em dois anos, a SAD estorilista criou um concurso para escolher um logotipo a ser usado na SuperLiga, talvez estampado na ´´camisola´´ da equipe. A idéia desagradou a alguns torcedores antigos, que preferem o velho escudo e desdenham do moderno lay-out vencedor, comparando-o a placas de aviários ou parquinhos.

Ativo no basquete e com história no badminton, o clube tem uma bonita sede, que já abrigou os treinos da seleção sueca com vistas à Eurocopa 2004 e palestras de árbitros para a garotada do infantil. Por falar em Eurocopa e em garotada, o lateral Paulo Ferreira, da seleção portuguesa, iniciou sua carreira na Amoreira. Na temporada 99/00, ainda que muito ausente em função do serviço militar, integrou o elenco canarinho na II divisão B. O ´´avançado´´ Pauleta não surgiu no Estoril, mas ainda bem jovem defendeu-o na Liga de Honra de 1995/96. Rebobinando a fita estorilista, apertemos ´pause´ na imagem do ´´Bom Gigante´´ José Torres, companheiro de Coluna e Eusébio no grande Benfica dos anos 60. Já veterano, Torres foi contratado após a subida para a primeira divisão em 1975. De 1975/76 a 1979/80, fez ainda alguns ´´golos´´ (13 em 113 partidas) e chegou a ser simultaneamente jogador e treinador, despontando para o ofício que o levaria à Copa de 1986.

Voa, canarinho, voa

O clube em que o técnico Carlos Queiroz (ex-Real Madrid) foi auxiliar em 83/84 tem hoje no banco Ulisses Morais, na Amoreira desde novembro de 2001. Pela primeira vez Ulisses trabalhará na liga principal, assim como os remanescentes da Liga de Honra, dentre os quais se destacam o meia Fellahi e o zagueiro Dorival. Com os estrangeiros que reforçarão o clube na SuperLiga (casos do brasileiro Felipe, de 18 anos, ex-Corinthians de Alagoas, do francês Franco, ex-Toulouse, do sérvio-montenegrino Ognjanovic, ex-Partizan, e de outros) a feição cosmopolita da cidade estará presente nos gramados, como já esteve outrora. Na década de 40, por exemplo, o argentino Anselmo Pisa, que também foi da Lazio e da Ambrosiana-Inter, vestiu canarinho.

Preocupado com o ´´balcão de negócios´´ de José Veiga, com quem vive às turras, o novo presidente Miguel Pisco quer ´´clarificar as relações com a administração da SAD´´ e resgatar a força das categorias de base (dos jogadores portugueses campeões mundiais sub-20 em 1989, dois eram estorilistas). A torcida aguarda, apreensiva, a estréia na temporada 2004/05, contra o Rio-Ave, no dia 29/08. Grande parte dos 3932 associados do clube decerto estará na Amoreira nesse dia, ao lado de vários outros aficionados. Todos eles torcem para que a volta ao convívio com os grandes não afunde nas águas calmas da Costa do Estoril, tampouco no jogo contra o Marítimo, o último do certame, em 22/05. De qualquer forma, não é tão importante que esse retorno à tona ´´seja imortal´´, ´´mas que seja infinito enquanto dure´´, como no poema de 1939, escrito por Vinícius, que no ato da criação talvez estivesse fitando as ondas de Estoril ou, de esguelha, a fachada do clube que nascia.

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