Elías Figueroa: “A grande área é a minha casa, aqui só entra quem eu quero”

Por Tabata Viapiana

Maior jogador da história do futebol chileno, o ex-zagueiro Elías Figueroa não é aclamado apenas em seu país. Ídolo no Peñarol e também no Internacional, ele colecionou títulos por onde passou, além de ter sido eleito melhor zagueiro do mundo e da América do Sul em diversas ocasiões. Se não bastasse isso, 'Don Elías', como ficou conhecido, ainda disputou três Copas do Mundo pelo Chile, em 1966, 1974 e 1982.

As dificuldades superadas na infância e o início da carreira

Nascido em Valparaíso, em 25 de outubro de 1946, Elías Ricardo Figueroa Brander teve que superar inúmeras dificuldades para se tornar jogador de futebol. Antes dos sete anos de idade, enfrentou problemas no coração e asma, sendo proibido de praticar qualquer tipo de atividade física. Com 11 anos, foi diagnosticado com um princípío de poliomelite, doença que o deixou de cama por quase um ano e o obrigou a ter que aprender a andar de novo.

Figueroa foi se fortalecendo a cada obstáculo que enfrentou em sua infância, como ele mesmo afirmou em entrevistas futuras. Logo aos 14 anos, já estava jogando futebol e se destacando pelo Deportivo Liceo, clube da cidade de Quilpué. Na época, ainda atuava como meia-direita, se transformando em zagueiro assim que passou com tranquilidade em um teste no Santiago Wanderers (equipe de sua cidade natal), aos 15 anos.

Pela equipe juvenil do Wanderers, 'Don Figueroa' teve grande oportunidade de brilhar em um amistoso histórico. Ainda com 15 anos, ele participou de um jogo-treino contra a Seleção Brasileira, então campeã do mundo e que se preparava para a Copa de 1962, disputada no Chile. Com boa atuação, o zagueiro chamou atenção dos atletas canarinhos, mas como era muito jovem, não conseguiu espaço no time profissional do Wanderers, já que Raúl Sanchez era o titular da equipe, e foi vendido para o Unión La Calera.

A estreia como profissional e na Seleção do Chile e a primeira Copa do Mundo

O primeiro jogo do zagueiro como atleta profissional de futebol aconteceu em abril de 1964, aos 17 anos. Pouco tempo depois, quando ainda era considerado uma promessa do mundo da bola, ganhou o apelido de 'Don Elías Figueroa', dado por um locutor de rádio da época. A passagem pelo La Calera, no entanto, não durou muito, e o zagueiro voltou para o Santiago Wanderers um ano depois. O ano de 1965 marcou também a estreia do jogador com a camisa da Seleção Chilena.

No ano seguinte, Figueroa disputou sua primeira Copa do Mundo, na Inglaterra. Aos 19 anos, logo se firmou como titular do Chile, mas não evitou que a equipe de seu país fosse eliminada ainda na primeira fase do Mundial de 1966. A competição serviu ainda para que o jogador recebesse mais um apelido em sua carreira, o de “Muralha Vermelha” – em alusão à cor do uniforme da Seleção Chilena.

Passagem pelo futebol uruguaio

A visibilidade alcançada na Copa da Inglaterra rendeu muitas propostas pelo passe de Figueroa. No fim, o jogador acabou indo para o Peñarol, uma das equipes mais fortes do futebol sul-americano na década de 60. Ao chegar ao Uruguai, 'Don Elías' encontrou uma disputa acirrada por uma vaga no time titular, mas aos poucos, o zagueiro se firmou no clube, onde conquistou três importantes títulos: bicampeonato uruguaio, em 1967 e 1968, e também a Supercopa dos Campeões Internacionais de 1969, em final disputada contra o Santos.

Não demorou para que inventassem mais um apelido ao talentoso zagueiro: “Míster Lujo” (“Senhor Luxo”, traduzindo para o português), devido às inúmeras qualidades que apresentava em campo, dentre elas a técnica refinada, a personalidade forte, o poder de liderança (foi capitão em todos os clubes por onde passou) e também a saída de bola e o bom cabeceio.

Figueroa recusa o Real Madrid e inicia sua caminhada no futebol brasileiro

Já conhecido mundialmente como um grande zagueiro, Figueroa recusou uma proposta do Real Madrid, em 1971, e optou por jogar pelo Internacional. Ele justificou sua escolha com a vontade de disputar os torneios brasileiros e enfrentar grandes craques do futebol sul-americano. Sendo assim, desembarcou no Beira-Rio em 14 novembro de 1971, e com a camisa colorada, disputou 336 jogos e marcou 26 gols – ao lado de Índio, é o zagueiro que mais marcou gols pelo time gaúcho.

Figueroa não demorou para cair nas graças da torcida do Internacional e até hoje é considerado um dos maiores jogaderes da centenária história do Colorado. No Rio Grande Sul, acumulou mais inúmeros títulos para sua coleção de conquistas: hexacampeão gaúcho (71/72/73/74/75/76) e bicampeão brasileiro (1975/76). Além disso, dos 17 clássicos “Grenal” que disputou, o chileno perdeu apenas um.

Melhor zagueiro da Copa de 1974

Em grande fase, Figueroa comandou a seleção chilena nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 1974, na Alemanha, mas a vaga só veio na respecagem, contra a União Soviética, que era medalha de bronze na Olimpíada de 1972. O zagueiro foi decisivo no heróico empate em 0 a 0, em Moscou, e como a União Soviética se recusou a viajar até o Chile para fazer a partida de volta (o Chile vivia uma ditadura e o estádio da partida seria o mesmo usado como campo de concentração pelos militares contra os dissidentes), a equipe de 'Don Elías' conseguiu se classificar para o Mundial de 1974.

Mesmo com a seleção chilena não indo longe na Copa da Alemanha, Figueroa foi uma das sensações do torneio, sendo eleito o melhor zagueiro da competição, ao lado do alemão Franz Beckenbauer, que chegou a dizer a seguinte frase sobre o chileno: “Sou o Figueroa da Europa”. O ano de 1974, inclusive, foi muito produtivo para o jogador, que encerrou a temporada com o prêmio de melhor jogador da América (ele venceu esse concurso também em 1975 e em 1976).

Capitão do Colorado, Figueroa conquista o Brasil com “gol iluminado”

Um dos pontos altos da carreira do chileno aconteceu em 1975. Capitão do Internacional e maior ídolo da torcida gaúcha, Figueroa brilhou na final do Campeonato Brasileiro daquele ano, contra o Cruzeiro, e marcou o gol de cabeça que deu o título nacional ao Colorado. Esse gol, marcado na única faixa ensolarada do gramado do estádio, ficou conhecido como “gol iluminado” e rendeu ainda mais fama e adoração ao zagueiro. No ano seguinte, Don Elías foi novamente campeão brasileiro pelo Inter, e depois de cinco temporadas no Brasil, decidiu voltar ao futebol chileno.

A volta para casa

De volta ao seu país de nascimento, Figueroa foi jogar no Palestino, clube pequeno do Chile. Mesmo assim, o zagueiro conseguiu mais dois títulos para sua carreira: a Copa do Chile e o Campeonato Chileno, ambos em 1977. Pelo torneio nacional, Don Elías ajudou o modesto Palestino a alcançar uma invencibilidade de 44 partidas, que não foi superada até hoje. Após três anos, já em 1981, o atleta se lançou no futebol norte-americano e fechou contrato com o Fort Lauderdale Strikers. Mas essa experiência durou apenas um ano, e em 1982, ele se transferiu para o grande Colo-Colo.

Na terceira Copa do Mundo, uma marca história com a camisa chilena

Mais uma vez, Figueroa fez a diferença a favor da seleção chilena e ajudou na classificação da equipe para a Copa do Mundo de 1982. Foi o terceiro mundial de sua carreira e até hoje nenhum outro jogador chileno conseguiu disputar tantas Copas do Mundo.

A aposentadoria dos gramados

O último jogo da carreira de Figueroa foi em 1º de janeiro de 1983, pelo Colo-Colo, quando já estava com 36 anos. O empate em 2 a 2 com a Universidad do Chile significou o adeus de um dos maiores zagueiros da história do futebol mundial. Uma pesquisa, realizada no final do século XX, com a participação de cronistas esportivos de todo o continente, elegeu Figueroa para a seleção dos maiores atletas da história do futebol sul-americano.

A técnica de Don Figueroa impressionava, tanto que ele nunca foi expulso em toda a sua carreira, e foi motivo de elogios até do Rei Pelé: “Figueroa é o melhor jogador de toda a história do Chile e, provavelmente, o melhor zagueiro central da história do futebol da América”. De fato, ali na grande aérea, o chileno deitava e rolava. Não à toa, possuía como lema a seguinte frase: “A grande área é minha casa, aqui só entra quem eu quero”.

Ficha técnica
Nome completo
: Elías Ricardo Figueroa Brander
Data de nascimento: 25 de Outubro de 1946 (65 anos)
Local de nascimento: Valparaíso, Chile
Apelido: Don Elías
Posição em que jogava: zagueiro

Prêmios que acumulou ao longo da carreira:
Quando ainda jogava no Peñarol, Figueroa foi eleito duas vezes o melhor jogador do mundo; quando estava no Internacional, foi eleito duas vezes o melhor zagueiro central do mundo e duas vezes o melhor central da América.

Carreira:

Santiago Wanderes (CHI): 1963
Unión La Calera (CHI): 1964
Santiago Wanderes (CHI): 1965 – 1967
Peñarol: 1967 – 1971
Internacional: 1971 – 1976
Palestino: 1977 – 1980
Fort Lauderdale Strikers (EUA): 1981
Colo-Colo: 1982 – 1983

Títulos:

Peñarol
Campeonato Uruguaio (1967, 1968)

Internacional
Campeonato Gaúcho (1971, 1972, 1973, 1974, 1975, 1976)
Campeonato Brasileiro (1975, 1976)

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