Donos da Terra: a história do primeiro título mundial do Santos

 

Por Ricardo Gomes

1962, o ano em que o mundo redescobriu o Brasil. E Pelé. “Donos da Terra: a história do primeiro título mundial do Santos”, do jornalista Odir Cunha, registra, e repassa, todos as particularidades que levaram o Santos ao seu mais cobiçado título até então, o inédito- para o clube da Baixada e também para o futebol brasileiro- troféu intercontinental.

Eram tempos de afirmação. O futebol, já consolidado como agente mobilizador das massas, cumpria muito bem o seu papel neste processo. Os títulos mundiais da Seleção Brasileira em 1958 e 1962 fortaleceram uma identidade nacional, configuraram uma nova nação.

Foi exatamente neste estágio que o Santos Futebol Clube fulgurou. Com Pelé, que ganhava rápida e assustadoramente a envergadura de um dos maiores do mundo, Pepe, Coutinho, Mengálvio, Zito e generosa companhia, o clube alvinegro representava o estilo ofensivo, inebriante, encantador.

Desta forma, arrebanhou troféu atrás de troféu, a ponto de romper o cenário nacional para ganhar a América e o mundo, feitos ainda sem precedentes no Brasil. Em oito temporadas (1958 – 1966), foram duas Libertadores, dois Mundiais Interclubes, cinco brasileiros e seis paulistas.

O livro revisita a primeira passagem dessa ode: a final do Intercontinental de 1962, diante do Benfica.

Também em busca de seu primeiro triunfo de expressão internacional, os portugueses assistiam à sua mais rica safra. Tanto é verdade que cinco de seus jogadores (Costa Pereira, Coluna, José Augusto, Eusébio e Simões) constituiam a espinha-dorsal da Seleção Portuguesa.

Assim como o rival brasileiro, o Benfica era notadamente reconhecido pelo jogo envolvente, de posse de bola e grande poderio ofensivo. Padrão que se sustentou também nos anos conseguintes, com mais duas finais européias.

A obra destaca a mescla de raças nas fileiras do Benfica, algo nem tão prosaico nos principais times europeus àquela época. Eram três titulares negros, um deles respondia pelo nome de Eusébio, simplesmente um dos mais talentosos jogadores de todos os tempos. Moçambicano de berço, o “Pantera Negra”, com apenas 20 anos, assombrou o Velho Continente ao marcar por duas vezes frente o poderoso Real Madrid na final do Europeu de 62.

Odir faz questão de pontuar a importância dos negros nos êxitos dos dois principais times daquele período. “Apesar de representarem continentes tão diversos, ambos, Santos e Benfica, eram os produtos mais bem acabados da mesma fórmula, que miscigenava a alegria e a habilidade do negro com a gravidade e a disciplina do europeu. Acima de todas as teorias, já provavam, no futebol, que para a raça humana a mistura é sempre uma opção mais rica, criativa e eficiente do que a pureza (…)”.

Detalhes dos bastidores que envolveram a grande decisão também enriquecem a leitura. Como na segunda partida da série, disputada no Estádio da Luz, em Lisboa, quando o programa de rádio “A Voz do Brasil”, transmissão oficial e obrigatória do governo brasileiro, alterou o seu horário para que todo o País pudesse acompanhar o duelo, que se iniciaria às 20h45 em Lisboa, 18h45 pelo horário de Brasília.

Tão pitoresco quanto a tietagem dos lusos à Pelé. Guarda de aeroporto, imprensa lusa, atletas e dirigentes benfiquistas… Todos, absolutamente todos, queriam tirar uma casquinha do Rei.

Voltando ao famoso quadrilátero, a supremacia foi santista. Na primeira partida da decisão, no Maracanã, o campeão brasileiro havia vencido por 3 a 2, com Pepe e Coutinho, e não Pelé, em evidência. Na volta, em Lisboa, nova vitória dos meninos de Lula. Desta vez, por um sonoro 5 a 2, com Pelé a assinalar um hat-trick. Pepe e Coutinho completaram o marcador.

Duas vitórias incontestáveis e um time para saborear com os olhos. “Donos da Terra: a história do primeiro título mundial do Santos” é um livro universal, feito sob medida para o amante de uma história bem contada.

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