Copa da FrançaLigue 1Sem categoria

Dois clubes da terceirona fazem história e duelarão na semifinal da Copa da França

A Copa da França será um mero acessório no final da temporada do Paris Saint-Germain. Obviamente, os parisienses desejam conquistar tudo o que disputam, mas não morrem de amores pelo torneio centenário. E nem devem encontrar tantas dificuldades assim para chegar à final, depois que o Lyon saiu de seu caminho, eliminado pelo Caen – o próximo adversário dos milionários. Entretanto, se uma semifinal significa migalhas, na outra chave dois clubes jogarão a sua história. Irão se enfrentar para ver quem será mais lembrado por escrever um dos melhores capítulos já vividos da Copa da França. Les Herbiers e Chambly são dois clubes desconhecidos do grande público. Dois figurantes na terceira divisão, que duelarão por um lugar na decisão mais prestigiosa do futebol francês. Por, quem sabe, encarar o PSG em pleno Stade de France. Oportunidade que vale aos nanicos para sempre.

Um dos torneios mais plurais do mundo, a Copa da França reúne clubes de diferentes cantos do globo. Afinal, até mesmo os territórios ultramarinos entram nas etapas iniciais do certame. E, mais do que isso, existe uma significativa dose de surpresas nas últimas décadas da competição. Desde 1995/96, são 11 times da terceira ou da quarta divisão que conseguiram alcançar ao menos as semifinais. Além disso, o vencedor do confronto desta temporada será o quinto finalista de níveis abaixo da segundona.

Em 1996, o Nîmes foi o pioneiro, caindo para o Auxerre na decisão. Quatro anos depois, o Calais RUFC se tornou o primeiro (e ainda hoje, o único) time da quarta divisão a disputar a final, vendendo caro a derrota para o Nantes. Em 2001, o Amiens caiu apenas nos pênaltis para o Strasbourg de José Luis Chilavert. Já o último a registrar a façanha foi o Quevilly, em 2012. Os aurirrubros são uma espécie de lenda no torneio e possuem três semifinais quando militavam da terceirona para baixo. Há seis anos, perderam pelo placar mínimo diante do Lyon em Saint-Denis.

Desta vez, Chambly e Les Herbiers nunca passaram nem perto de tal notabilidade. Os dois clubes nunca haviam superado os 16-avos de final na Copa da França, assim como nunca disputaram uma divisão acima da terceira. E precisam abrir o olho na atual campanha da liga, já que ambos estão ameaçados pelo rebaixamento na National – como é chamada a terceirona francesa. Risco que se torna menos relevante, quando se pensa nas duas epopeias protagonizadas nesta Copa da França.

Les Herbiers é o clube mais tradicional. Fundado em 1919, em uma cidade de 16 mil habitantes no noroeste francês, passou a maior parte de sua história em divisões regionais. Apenas neste século é que ascendeu ao nível nacional, com a quinta divisão. Desde então, cresce passo a passo. E em 2015 comemorou o inédito acesso à terceira divisão. Sem nunca se aproximar da Ligue 2, nesta Copa da França os rubro-negros superaram dois adversários tradicionais da segundona em seu caminho até as semifinais.

O primeiro derrotado foi o Auxerre, com um triunfo inapelável por 3 a 0 na casa dos alviazuis. Já nas quartas de final, mais emoção contra o Lens. Após 120 minutos de placar zerado, Les Herbiers se impôs nos pênaltis. Herói na classificação, com dois pênaltis defendidos, o goleiro Matthieu Pichot confessou que, antes da disputa, viu um vídeo de Gianluigi Buffon para se motivar rumo aos 11 metros. Deu certo.

Do outro lado, o Chambly é um novato em ascensão. Sua criação aconteceu em 1989 e, desde então, experimenta uma evolução meteórica. São 11 acessos nestas três décadas, sem um rebaixamento sequer. A equipe chegou à terceira divisão pela primeira vez em 2014 e, desde então, flertou até com as vagas na Ligue 2, terminando as três temporadas anteriores na parte de cima da tabela. E quando o risco de descenso se torna iminente, eis que vem o milagre na Copa da França. Os “nerazzurri”, que têm seus símbolos inspirados na Internazionale, conquistaram sua maior vitória na campanha durante as quartas de final. Derrotaram o Strasbourg, da Ligue 1, com o gol decisivo no triunfo por 1 a 0 anotado já nos minutos finais do segundo tempo.

As horas seguintes à classificação, porém, não foram tão felizes e contam um pouco sobre a história do Chambly. Situado na cidade homônima de 10 mil habitantes, no norte da França, o clube surgiu a partir do projeto pessoal de dois irmãos, Fulvio e Bruno Luzi, ex-jogadores de carreiras modestas. Fulvio era o treinador até 2001 e passou a presidente naquele ano, quando Bruno assumiu o comando técnico. Apoiando ambos, estava Walter Luzi, o patriarca da família e também vital na fundação. Minutos depois da vitória sobre o Strasbourg, Walter faleceu aos 77 anos, após oito dias hospitalizado com uma pneumonia.

Os jogadores souberam da perda ainda no vestiário, durante a comemoração pela classificação histórica. Segundo depoimentos, Walter seguia presente no dia a dia do clube e era visto como um pai por todos os funcionários. “Ele representa o Chambly, simplesmente isso. Sem ele, o clube não teria existido. Era uma pessoa muito feliz, que ia nos ver depois dos jogos. Francamente, vamos sentir falta disso. Estamos de todo coração com a família Luzi”, declarou Lassana Doucouré, autor do gol da classificação, em entrevista à revista SoFoot.

Agora, o Chambly tem uma motivação a mais para buscar a classificação à final e honrar a memória de Walter Luzi. O confronto com Les Herbiers poderia ser um mero embate para evitar o rebaixamento à quarta divisão francesa, entre o 15° e o 14° na tabela. Agora, representa o sonho de tantos clubes pequenos. Palco da semifinal, o Stade de la Beaujoire, em Nantes, tem capacidade para 38 mil espectadores – o suficiente para abrigar a população das duas cidades juntas. O próximo 18 de abril será singular ao futebol francês. O devaneio de tantos se materializará a um, rumo ao Stade de France.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.
Botão Voltar ao topo