Do 2-3-5 ao 4-3-2-1: resenha de Inverting the Pyramid

Por Renato Müller

Qual o impacto que o massacre imposto pela Hungria sobre a Inglaterra (6×3) em Wembley em 1953 teve sobre o futebol britânico? Como o pensamento tático mudou no Brasil depois da Tragédia do Sarriá? Como surgiu o futebol total consagrado pela Holanda e, de certa forma, visto hoje no Barcelona de Guardiola?

Para quem gosta de discussões sobre futebol que vão muito além do que é visto nas mesas redondas de domingo à noite, uma excelente opção é o livro “Inverting the Pyramid”, do jornalista inglês Jonathan Wilson. O subtítulo do livro (“the history of football tactics”) faz uma promessa ousada, mas o autor trata de cumpri-la: começando com as origens do futebol, Wilson mostra o surgimento do primeiro esquema tático (o 2-3-5, conhecido como “pirâmide”) e a partir daí revela como, nos quatro cantos do mundo, diversos ingredientes foram sendo misturados para criar diferentes formas de ver e jogar o futebol. Sempre procurando um equilíbrio defensivo maior, às vezes até deixando o ataque em segundo plano, técnicos, jogadores, times e seleções foram, ao longo do tempo, desenvolvendo esquemas táticos mais elaborados, gradualmente “invertendo a pirâmide” e colocando mais jogadores na defesa.

As origens do W-M; o catenaccio italiano; o impacto que o Brasil da Copa de 58 causou no futebol mundial; o “carrossel holandês”, tudo é analisado meticulosamente, com suas motivações, origens e conseqüências traçadas de forma clara. Se a história é feita de pessoas, “Inverting the Pyramid” não perde uma oportunidade de lembrar o leitor a respeito: de Vittorio Pozzo a Arrigo Sacchi, passando por José Mourinho, Béla Guttman, Rinus Michels, Valeryi Lobanovskiy, Zagallo, Feola, Cesar Luiz Menotti, Helenio Herrera e muitos outros, mai de 100 anos de futebol são revisitados sob uma ótica bem diferente.

Para os brasileiros, é muito interessante rever o Maracanazzo da Copa de 50 do ponto de vista tático (o 1-3-3-3 uruguaio eliminou os espaços no meio de campo e ainda permitiu que Ghiggia encontrasse espaço nas costas do lateral esquerdo Bigode), ou ainda rememorar o bicampeonato de 58 e 62 em ter Pelé e Garrincha como protagonistas (taticamente, segundo o autor, Didi e Zagallo foram muito mais relevantes). Ou ainda, celebrar o tri em 70 vendo como foi possível montar um time com cinco “camisas 10”.

Ao mostrar o desenvolvimento do futebol em várias partes do mundo, de uma forma equilibrada, o livro revela as influências de um país sobre outro, seja pela forma de pensar o futebol, seja por questões políticas, econômicas e sociais. O papel dos húngaros no desenvolvimento do futebol argentino, uruguaio e brasileiro; o papel britânico em muitas vezes limitar o surgimento de novas idéias; o pragmatismo italiano e alemão; e o papel definitivo que russos e holandeses tiveram sobre o futebol moderno são alguns exemplos que trazem uma nova luz sobre o entendimento do esporte mais popular do mundo.

Da terceira divisão do futebol inglês ao Santos de Pelé, está tudo aí. Depois de ler “Inverting the Pyramid”, os debates das noites de domingo nunca mais serão os mesmos. Felizmente.

FICHA TÉCNICA

Inverting the Pyramid – the history of football tactics

Autor: Jonathan Wilson
Editora: Orion Books, Inglaterra, 2008
Páginas: 374
Disponível na Amazon ou via encomenda em livrarias brasileiras
Sem tradução para o português

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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