Direito de resposta

Caso vivêssemos em um mundo ideal, a informação a seguir não teria lá muita importância: Balotelli está perto de se tornar o segundo negro a ocupar o posto de artilheiro de uma edição da Euro, unindo-se ao holandês Kluivert, um dos goleadores do torneio disputado em 2000. Como incrivelmente ainda temos de lidar com algo tão baixo quanto o preconceito racial, o fato ganha importante significado. Ainda mais porque o jogador em questão foi perseguido por cantos racistas durante algumas das partidas envolvendo a Itália na competição. Algo que não foi punido à altura. Prova disso é que a Croácia foi multada em € 80 mil pelas manifestações discriminatórias de seus torcedores, € 20 mil a menos do que o dinamarquês Bendtner pagou por mostrar a marca de um site de apostas em sua cueca.

A simples forma como a Uefa anunciou a multa já é insatisfatória. O ocorrido foi definido como sendo uma “conduta inadequada”, quando “inaceitável” seria um adjetivo bem mais apropriado, entre os publicáveis. Como se sabe, o uso desta prática por algumas torcidas europeias não é nenhuma novidade. Acontece com mais frequência no leste, o que não significa que não respingue nos centros mais tradicionais. O racismo sempre é repreendido de forma discreta pelas federações, mesmo que profissionais do futebol levantem o tom de voz sempre que surge a oportunidade. Fazer os capitães das seleções discursarem a favor das diferenças depois da execução dos hinos pode até ser bonito, mas bem menos eficaz do que fazer os preconceituosos, ou aqueles que lhe tratam com conivência, pagarem pelos seus erros.

No caso de Balotelli, até o fogo amigo foi sentido durante a Euro. Às vésperas do jogo da Azzurra contra a Inglaterra, a renomada Gazzetta dello Sport cometeu uma grande mancada ao publicar uma charge no mínimo infeliz, que retratava o atacante no corpo de King Kong, rebatendo bolas enquanto se abraçava ao Big Ben. O contexto só piora a situação, pois antes do torneio começar, foi dado o alerta de que crimes raciais poderiam ser uma constante na Polônia e na Ucrânia, fazendo com que muitos jogadores negros tenham orientado seus familiares a não viajarem às sedes para torcer por eles. Balotelli, reconhecidamente intempestivo, reagiu a seu modo: “Se alguém jogar uma banana em mim, eu vou para a cadeia, mas vou matar esta pessoa”.

Felizmente, não chegou a tanto, embora sua indignação com o que ouvia das arquibancadas fosse flagrante. A imagem do companheiro Bonucci tapando a sua boca em um momento de fúria é cômica, mas retrata bem o sentimento do jogador. Só que a melhor das respostas que Balotelli poderia dar era a de ontem: no campo, marcando gols decisivos para a sua equipe. Além de colocar a Itália na final, os tentos podem ter marcado uma nova fase na carreira do atleta, onde ele não fique apenas marcado pelas suas confusões, mas também pela capacidade de fazer a diferença em um jogo de futebol. Difícil é acreditar que ele vá se livrar por completo da displicência demonstrada nas outras partidas do torneio.Vale lembrar que falamos de um jogador que já deu as costas à barra para tentar marcar um gol de calcanhar.

Não que nós queiramos que ele vire um cordeirinho. Balotelli é uma figura essencial, porque quebra a rotina de um futebol cada vez mais politicamente correto. Até mesmo os que fogem disso, o fazem naquela tríade manjada: balada, adultério e briga de bar. As peripécias do Super Mario também envolvem estas atividades, mas vão muito além disso, que o diga seu banheiro incendiado por fogos de artifício. Imprevisível dentro e fora de campo, ainda tem se revelado um grande frasista. Quando Milner comentou que ele tem um lado bom e outro ruim, ele respondeu: “Sorte dele, que conhece dois Balotellis”. Na primeira vez que foi às redes contra a Alemanha, contrariou seu costume de não comemorar gols. “Estou fazendo meu trabalho, um carteiro não comemora quando entrega uma carta”, justificou. Questionado sobre o amarelo gratuito tomado ao tirar a camisa após marcar mais um, afirmou que seus companheiros não ficaram com raiva, mas sim com inveja de sua forma física.

Capaz de divertir e decidir, demonstrou uma nova faceta ontem, quando conseguiu emocionar muita gente, ao ser registrado em um momento familiar. Nesse sentido, só sabíamos que ele tinha contado com a ajuda do irmão para invadir uma penitenciária feminina e que sua irmã havia dado uns pegas em uma ex do Ronaldinho Gaúcho (e você aí dando audiência às Kardashians). A cativante imagem do jogador abraçado à sua mãe adotiva nos faz lembrar de que ele não é um personagem de ficção, apesar da sua vida parecer escrita por uma vasta equipe de inspirados (e insanos) roteiristas. Temos a sorte de conhecer não dois, mas vários Balotellis. Com tanto a se dizer sobre Mario, concentrar-se em sua cor de pele não é apenas uma demonstração de insensatez, intolerância e burrice, mas também um enorme despedício.

Por que sempre ele? Mas não só ele

Balotelli foi o grande destaque da vitória italiana sobre a Alemanha, mas não o único. A começar pela segurança de Buffon e De Rossi, que fazem uma Euro acima de qualquer suspeita. Vale mencionar também a brilhante jogada de Cassano no primeiro gol italiano. O ótimo zagueiro Hummels sofreu bastante e está procurando o atacante do Milan até agora. Montolivo, que brilhou no longo lançamento para a consagração de Balotelli, fez sua melhor exibição como “falso trequartista” (posso patentear?). Isso sem contar, óbvio, Andrea Pirlo, que não se cansa de dar espetáculos na competição. Levando em consideração a temporada que fez pela Juventus, já se credencia ao top de 3 de melhores jogadores do mundo, ocupando aquela vaga beneficente destinada a quem não nasceu Messi ou Cristiano Ronaldo.

Entre os técnicos, um grande contraste. Prandelli, o desafiante, mostrou mais uma vez por que, independente do que acontecer na final, é o grande vencedor desta Euro. A Azzurra tomou alguns sustos no início, mas quando controlou o jogo, deu a impressão até de que conseguiria golear. Não o fez, mais uma vez, pela falta de pontaria de seus jogadores. Já o desafiado Joachim Löw fez algo que não é do seu feitio e pagou por isso: inventou legal. A equipe já estava azeitada e a única dúvida que cabia era se manter Reus e Schürrle, que vinham voando, ou apostar na segurança dos velhos conhecidos Thomas Müller e Podolski, que faziam uma péssima Euro.

Além de manter Podolski entre os titulares, o treinador ainda desmontou o ataque alemão, ao escalar Kroos para tentar (e não conseguir) dificultar a vida de Pirlo. Após terem sua meta vazada, os tedescos se renderam à afobação, como prova o espaço dado de bandeja no lance do segundo gol. Reus pouco pôde fazer quando acionado e Götze nem teve o direito de descer para o playground. O trabalho de Löw é excelente, mas ele precisa se mirar em seu próprio método de dois anos atrás: deve jogar quem estiver melhor. Aumentando a freguesia de nunca ter batido a Itália em um grande torneio, o Nationalelf agora tem também de se curar de uma das piores sarnas que alguém pode pegar no futebol, a do “quase”.

Mais paciência que Fúria

Portugal deve se orgulhar: durante os quatro anos de dominação espanhola, ninguém complicou mais a vida da atual campeã da Europa e do mundo. Nem mesmo a Suíça, que venceu a Espanha na estreia da Copa de 2010. Se Cristiano Ronaldo não tivesse desperdiçado as poucas chances que teve de chegar às redes (registre-se: mais uma vez ele não se omitiu das suas responsabilidades), os lusitanos poderiam ter conquistado a vaga na final. E não seria sem merecimento. Paulo Bento, João Moutinho, Pepe e o já citado craque da equipe merecem pastéis de belém à vontade na volta para casa, como prêmio a um serviço muito bem feito. Os demais, se não chegaram a brilhar, merecem um bolinho de bacalhau caprichado pela luta e disciplina tática apresentadas.

Com menos tiki e ainda menos taka do que de costume, a Espanha fez valer da tranquilidade de quem está por cima da carne seca. Ou do jamón serrano, que seja. Del Bosque surpreendeu, mas negativamente. Mais uma vez ignorou Llorente e escalou Negredo como centroavante, logo ele que nem deveria estar no grupo, pois sua vaga merecia ser de Soldado. Depois, fez as substituições esperadas: Fàbregas de falso nove e, ironicamente, Navas de ponta, quando já não teria mais para quem cruzar a bola. Muitos cornetaram a entrada de Pedro, mas ele foi o único que fez algo de diferente, embora sem efeito. A Fúria tenta agora ser a primeira a conquistar duas Euros seguidas, com o bônus de ter levado uma Copa do Mundo no recheio do sanduíche. É favorita. Mas foi tão enfadonha durante o torneio, que não é mais a queridinha da vez. Até por não ter Balotelli.

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