Digplay e a desgraça anunciada

A primeira vez que vi Diguinho me lembro que os comentários que o cercavam eram de estranheza. Um jogador louro, com pinta de surfista de banheira, tatuagens e tietes com menos de 16 anos. Isso tudo sem nunca ter feito um jogo oficial pelo Botafogo. Típico caso de playsson stronda.

O ano era 2005. Na mesma época Guilherme era o grande nome do Botafogo, Túlio já se destacava pelo bom futebol e a confiança da diretoria e Zé Roberto chegava ao clube sem ser reconhecido pela imprensa. Salvo engano, no mesmo dia em que reparei pela primeira vez em Diguinho, o técnico do Botafogo era Péricles Chamusca e a seleção brasileira de basquete treinava no diminuto ginásio de General Severiano ao lado do campo de treinamento do time de futebol.

O que mais me impressionava, novamente, era como um jogador que tinha vindo com pouco cartaz do Mogi Mirim e que nem entre os reservas era relacionado conseguia ser o único a ter que prestar contas para tietes no final do treino. Ao meu lado estava Alex Garcia, então jogador do finado New Orleans Hornets. O cara era musculoso, já tinha dado um toco no Tim Duncan (não foi um toco estilo “night”, foi um toco estilo “jogo de basquete”) e, o mais importante para as tietes, já devia ter um contrato anual de algumas centenas de milhares de dólares. Ou seja, muito mais tietável.

O tempo passou e Diguinho não ganhava chance. Quando ganhava, não correspondia à altura. Em 2007, no entanto, a coisa mudou. Foi mais utilizado e correspondeu. No ano passado, começou mal o ano. Deu volta de moto no engenhão – típica atitude playson wanna be. Mas se recuperou com bom futebol, roubadas de bola e garra. Um cabeça de área moderno, como querem alguns. Nunca foi tão habilidoso quando Hernandes. Nunca foi tão veloz quanto Ramires. Nunca foi tão eficiente quanto Íbson. Nunca teve bom chute, porte físico e não serve para a distribução de jogadas. Ainda assim, Diguinho sempre foi guerreiro.

Exímio ladrão de bolas, tomou as rédeas do meio-campo nos espaços deixado por Túlio, já não mais na flor da idade. No Botafogo, Diguinho sobrou. Justiça seja feita, ele seria titular de qualquer time do Brasil – não da seleção como queriam alguns alvinegros fanáticos.

No final de 2008, quando já se sabia que o destino de Diguinho seria bem longe de General Severiano – afinal, todo jogador que vai bem no Botafogo não fica para a próxima temporada -, o jogador passou a ser perseguido por parte da torcida. Os motivos são óbvios, excesso de nights na Baronetti, problemas com a polícia (ainda que não sejam problemas causados por Diguinho) e as amizades stronda com o goleiro ex-Botafogo Júlio César, a.k.a. Júlio Chester; Thiago Marin, a.k.a. Thiago Mariuzin (por minha conta, inventei agora) e Eduardo, um promissor faz-tudo que parece mais preocupado em strondar. O pior de tudo, é claro, foi segurar os bagos e direcioná-los à torcida alvinegra no Engenhão. É verdade que os pipoqueiros da Oeste não merecem trato melhor, mas tal gesto é o mesmo que pedir para ser perseguido.

Diguinho foi. Ficou na cidade, no entanto. Está agora no Fluminense. Falou uma besteira ainda maior do que aquela que tinha falado no Arena Sportv, quando disse que o Botafogo era um trampolim para os jogadores. Dessa vez descobriu a grandeza do Fluminense. Surpreendeu-se. Tantos anos de Rio parecem que não foram o suficiente para abrir os olhos de Diguinho para nada além das roubadas de bola e do desenrole nas gatinhas da Baranguetti.

De qualquer forma, foi muito útil para o Botafogo.

Agora só nos resta cantar e rir a desgraça anunciada. Como bem sabe Dodô, “praga de botaguense” é foda.

“Chora, não vou ligar

Chegou a hora
Vai me pagar
Pode chorar pode chorar (mais chora!)
É, o teu castigo
Brigou comigo
Sem ter porquê
Eu vou festejar, vou festejar
O teu sofrer, o teu penar
Você pagou com traição
A quem sempre lhe deu a mão
La laia, la laia
La la la”

(Vou Festejar, de João Bosco, Dida e Neoci)

PS. Verdade seja dita: acho que ele vai bem nas Laranjeiras.

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Equipe Trivela

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