De 2.500 (metros) não passarás
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No dia 14 de junho, Bolívia e Chile se enfrentarão, em jogo válido pela quinta rodada das eliminatórias da América do Sul. A tabela indica o Estádio Hernando Siles, em La Paz, como local onde a partida será realizada. É o que os bolivianos desejam, e os chilenos não objetam. A Fifa, porém, decretou, de forma definitiva, que jogos em lugares a mais de 3000 metros do nível do mar requerem um período de aclimatação de duas semanas. Trata-se de um “veto camuflado”, como disse o vice-presidente da Federação Boliviana, já que as seleções nacionais não dispõem de todo esse tempo.
Para alturas entre 2750 e 3000 metros (é o caso de Quito, por exemplo), a Fifa exige uma semana de adaptação. Em cidades que, como Bogotá, ficam entre 2500 e 2750 metros, a entidade recomenda três dias. Como se vê, a medida afeta, principalmente, Colômbia, Equador e Bolívia, mas todos os países sul-americanos manifestaram apoio à causa dos três vizinhos. Inclusive o Brasil, que, há pouco tempo, chegou a estar do outro lado.
Em fevereiro de 2007, o Flamengo empatou com o Real Potosí, a quase 4000 metros de altura. O meia Renato Augusto teve um mal-estar, fato que incitou o clube carioca a travar uma guerra contra a altitude. A Conmebol descartou qualquer possibilidade de veto, fazendo os protestos mudarem de direção – com o suporte de Ricardo Teixeira, o Flamengo recorreu à Fifa. Na mesma época, o então técnico da seleção peruana, Julio César Uribe, declarou que sua equipe pretendia encarar as grandes forças do continente (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai) nos 3400 metros de Cuzco, e não em Lima, tradicional casa do Peru nos compromissos de eliminatórias.
Tomada como uma ameaça, a idéia de jogar em Cuzco só se revelaria vantajosa para a seleção peruana se a equipe alinhasse vários jogadores do Cienciano. Os atletas do Alianza, do Universitário, do Sporting Cristal e dos outros times de cidades próximas do nível do mar, bem como os jogadores que atuam no exterior, sentiriam, tanto quanto os adversários, os efeitos da altitude. De qualquer modo, houve quem enxergasse na estratégia peruana um precedente para seleções de outros países escolherem a dedo sedes geograficamente perturbadoras para seus oponentes. Essa questão e a petição do Flamengo, da qual constou um dossiê elaborado por seus médicos, foram levadas ao 57o Congresso da Fifa, no último mês de maio.
Depois das discussões de cúpula, veio a norma: “Por razões médicas e pelo interesse na saúde dos jogadores, o comitê executivo decidiu que, no futuro, nenhum jogo internacional deverá ocorrer em uma altitude maior que 2500 metros acima do nível do mar”. Os países atingidos sentiram-se duplamente avacalhados: primeiro, porque consideraram a decisão um gesto preconceituoso, incompatível com valores como a universalidade do esporte, tão apregoada pela própria Fifa; segundo, porque esperavam que o polêmico assunto fosse discutido de forma mais aberta.
A bombástica deliberação da Fifa acabou sendo reformulada dois meses depois. A proibição valeria apenas para altitudes superiores a 3000 metros. Isso ainda excluiria La Paz. Após uma conversa com Evo Morales, no entanto, Joseph Blatter aventou a possibilidade de abrir uma exceção para a cidade boliviana. Mais cinco meses e nova reviravolta: em dezembro, no Japão, Blatter anunciou as regras que, neste mês de março, foram ratificadas. “Não estamos dizendo que é proibido disputar jogos acima de 2750 metros, mas que deve haver tempo adequado para a aclimatação”, disse ele, na ocasião. É o tal “veto camuflado”.
Em 2007, Evo Morales bateu uma pelada a 6000 metros de altura, em protesto contra os que julgam ser prejudicial à saúde a prática de futebol em tais condições. Aprovado por muitos e criticado por outros tantos dentro de seu país, Morales só conseguiu maioria – melhor que isso: unanimidade – entre os parlamentares quando a questão envolveu a briga pelo direito de mandar jogos em La Paz. Atentos ao desenrolar dessa trama política, outros estadistas sul-americanos já expressaram seu apoio à Bolivia.
Na última segunda-feira, Evo Morales voltou a campo, desta vez acompanhado por Maradona, em La Paz. Com o discurso de esquerda que lhe é peculiar, o argentino desancou a Fifa, caracterizando como “ridícula” a sua decisão. A entidade já fora alvo, em janeiro, do ex-goleiro Chilavert, cujas acusações respingaram sobre o Brasil, por conta dos problemas de 2007. Hoje, oficialmente, para evitar conflitos, o Brasil é, no que diz respeito à altitude, um aliado boliviano. Mas não resta dúvida de que sua posição é bastante dúbia, e não apenas devido às convicções rubro-negras.
Há algum tempo, a atitude que o Flamengo tomou vinha sendo ensaiada no futebol brasileiro. Quando o Brasil perdeu para o Equador em Quito, pelas eliminatórias da Copa de 2006, foi enorme a repercussão de um mal-estar sentido por Ronaldo no vestiário. Sua má atuação nessa partida foi atribuída à altitude. A desculpa também serviu para a fraca performance do resto do time. Embora a Argentina, que ficou sem vencer a Bolívia em solo pacenho entre 1973 e 2005, também tenha um histórico de reclamações nessa linha, é inegável que o Brasil, principalmente nos últimos tempos, foi o grande arauto do veto à altitude.
O posicionamento da Fifa também está longe de ser firme. A flagrante indecisão de Blatter no ano passado e os olhos fechados para os jogos da Libertadores – bancados pela Conmebol – e dos campeonatos nacionais de Peru, Equador, Bolívia e México mostram que a entidade não está tão preocupada assim com a saúde dos atletas, que, afinal de contas, não estaria em risco só nas partidas válidas pelas eliminatórias. O que a Fifa realmente quer é livrar-se de responsabilidades. Enquanto ninguém se dirigia à entidade diretamente, uma eventual morte em jogos internacionais realizados na altitude não ia parecer assunto de sua alçada. Os episódios do ano passado inviabilizaram essa cômoda e cínica postura.
E poderiam realmente levar à morte, os jogos na altitude? Até hoje, o ar rarefeito provocou tonturas e outros desagradáveis efeitos momentâneos em alguns jogadores. Os terríveis casos de falecimento em pleno gramado, nos últimos tempos, se deram em localidades mais próximas do nível do mar, o que não significa que isso não possa vir a acontecer na altitude, não necessariamente por causa dela. A opinião do leigo, em matéria médica, pouco vale. Ainda menos quando nem os especialistas se entendem. Fica a impressão de que, se o objetivo é condenar os malefícios e riscos da altitude, haverá médicos capazes de fazê-lo de forma convincente, assim como pode haver a defesa de que o prejuízo à saúde não é tão grande, com argumentos igualmente fortes.
E Bolívia x Chile, onde será? Melhor esperar, sem tentar dar uma de Nostradamus. Por falar no profeta francês, que tremenda volta ele deu em toda a humanidade! Todo mundo achava que aquela história de “de 2000 não passarás” era uma antevisão do apocalipse…