David Platt: a estrela da Inglaterra na Copa de 1990

Os 34 mil torcedores que encheram o Estádio Renato Dall`Ara, em Bolonha, naquela tarde abafada de junho de 1990, aguardavam os pênaltis. Faltavam segundos para a partida terminar. No campo, as exaustas Inglaterra e Bélgica lutavam por uma vaga nas quartas-de-final da Copa.

Uma falta de longe a favor do time da terra da Rainha seria o último lance. Quatorze minutos do segundo tempo da prorrogação. A bola viaja até o bico da pequena área. O goleiro não sai. David Platt, um meia destro de reconhecida habilidade, acerta um voleio em cheio, uma bomba no canto direito.

O gol e a vaga entre as oito melhores seleções do planeta transformaram a vida de Platt. Os britânicos, que antes o ignoravam, passaram a reverenciá-lo. A Itália foi mais além e lhe abriu as portas. Chutado do Manchester United, transformou-se em ídolo de Bari, Juventus e Sampdoria. De quebra, calou Ron Atkinson, seu desafeto máximo.

Portas fechadas em Old Trafford

David Platt, durante a juventude, era apaixonado pelo Manchester United. Sabia tudo sobre o mundo dos diabos vermelhos. Ainda criança prometeu ser jogador do time do coração. O plano quase deu certo. Bateu na porta de Old Trafford em 1982, aos 16 anos.

Os treinadores das categorias de base o aprovaram e ele foi se instalando. Inclusive, começou a limpar as chuteiras e o vestiário do time principal. O sonho parecia muito perto. Em 1984, assinou o primeiro contrato profissional. Ou seja, a partir de então, estava à disposição do técnico Ron Atkinson.

Mas o chefe não gostou do que viu. Disse que Platt era fraco e dono de poucos recursos técnicos. Uma injustiça na opinião dos funcionários dos times B e C. Atkinson foi mais além. Determinou a imediata saída do meia.

A notícia correu e chegou aos dirigentes do nanico Crewe Alexandra, hoje na quarta divisão. Fizeram uma proposta. No outro dia, Platt chegou. E fez, em três anos, tudo aquilo que queria ter feito em Old Trafford. Gols, assistências e uma história.

O clube ficou pequeno demais para um jogador daquele porte, já cotado para a seleção. O Aston Villa abriu o olho e a mão. Ofereceu mais do que o Liverpool e fechou negócio. Na prática, um golaço. Afundado na segundona, voltou à elite já na primeira temporada do novo ídolo. E às custas dele, alcançou o vice-campeonato em 1989/1990.

Para Ron Atkinson ver e se arrepender

Os dois anos no Aston Villa o credenciaram para o “English Team” na Copa de 1990. Depois do dramático gol da classificação sobre a Bélgica, voltou a ser decisivo nas quartas. Abriu o placar nos 3×2 em cima de Camarões. Na semi, teve pela frente a campeã Alemanha: 1×1 nos 90 minutos e derrota por 4×3 nos pênaltis. Platt fez o dele.

Para coroar a trajetória pessoal no torneio, ainda marcou mais um na decisão do 3º lugar, jogo perdido para a anfitriã Itália por 2×1. Estava mais do que provado que Ron Atkinson havia cometido um grave erro.

Perguntado se desejava retornar ao Manchester, Platt respondeu que não. Sairia do Villa apenas para o exterior. Na janela do verão de 1991, se mandou para o Bari. Uma temporada apenas e a Juventus o chamava. Defender um clube desse tamanho outra vez era a volta por cima, quase a redenção.

Antes dos primeiros chutes no Delle Alpi, a viagem à Suécia, para a Eurocopa 1992. O bom desempenho de dois anos antes não retornou. A campanha foi um desastre. A Inglaterra sequer passou da fase de grupos. A situação piorou depois que a seleção repetiu os erros e não se classificou para a Copa do Mundo. Mesmo com Platt em boa fase. Na Juventus, ele estourou de vez e levantou o primeiro troféu: a Copa da Uefa 1993.

O gol e o título da vingança mortal

Em meio as comemorações, Sven-Göran Eriksson o convidou para a Sampdoria. Alegou que estava montando um super time e que precisava de um meia cerebral. Platt aceitou o desafio. E em menos de um ano vestiu mais uma faixa. A de campeão da Copa da Itália.

Apesar dos títulos e da fama, não estava feliz. Faltava brilhar dentro da Inglaterra. Mas por um clube grande. Pediu a empresários que sondassem Arsenal e Liverpool. Somente os dois. O Manchester United ficou de fora da consulta.

Enquanto o Liverpool ficou de pensar, o Arsenal deu sinal verde e anunciou a contratação em 1995. Nas três temporadas seguintes, Platt jogou como nunca. Tornou-se um símbolo em Highbury. Raça, talento, gols e taças. Ganhou a FA CUP e a Premier League.

Aquele Campeonato Inglês foi decidido no primeiro turno. O Arsenal recebeu o Manchester em novembro. E a criatura se rebelou contra o criador. Platt fez o gol da vitória de 3×2 aos 38 do segundo tempo. Na tabela final, o United ficou um ponto atrás do campeão. Coisas do futebol.

Jogador e técnico ao mesmo tempo. Não deu certo

David Platt resolveu sair do Arsenal no ápice. Era hora de ser treinador. Antes, ainda havia jogado – e se destacado – na Euro 96. De novo, não amarelou nas decisões. Na quartas e na semi, nos pênaltis contra Espanha e Alemanha, respectivamente, bateu e converteu. Mas mesmo assim, a Inglaterra voltou a decepcionar. Os alemães levaram a melhor no confronto e foram campeões.

Com 32 anos, se sentia pronto para o cargo de “professor”. Rescindiu com o Arsenal e apresentou um projeto à Sampdoria. Seria jogador e comandante ao mesmo tempo. Os cartolas abraçaram a ideia. Mas não deu certo.

O time despencava rapidamente para a Série B. Platt saiu para fazer o mesmo no Nottingham Forest, da segunda divisão. Outro fracasso. Os resultados não apareceram. Decidiu, então, seguir só como treinador.

Por reconhecimento e agradecimento, a Associação de Futebol da Inglaterra ofereceu o posto de técnico da seleção sub-21. Permaneceu por três anos, até 2004. Não conquistou títulos. Hoje, aproveita o prestígio como comentarista e colunista.

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Equipe Trivela

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