Cuidado, eles são perigosos

Brasil com 100% de aproveitamento, Neymar começando a fazer seus truques, Oscar à vontade no comando do meio-campo e os principais adversários jogados nas cordas, sendo que o maior deles já foi até eliminado. “É agora, ninguém tira do futebol brasileiro o inédito ouro olímpico! Agora vai!”. Não é bem assim. Ainda não é, pelo menos. É fato que a seleção assumiu de vez o favoritismo à conquista do torneio de futebol de Londres 2012, mas o cenário favorável pode se revelar uma ardilosa armadilha. Primeiro, porque a equipe de Mano Menezes tem alguns defeitos quase impossíveis de serem corrigidos a tempo. Mas principalmente porque as zebras estão de orelhas bem em pé na competição.

Uma das maiores preocupações que se deve ter é com a velha e (nada) boa soberba. Nossas principais estrelas estão acostumadas a serem paparicadas e o capitão Thiago Silva, notoriamente um atleta com os pés bem fincados no chão, terá de exercer nos bastidores a mesma a liderança que já exerce em campo. Também é o primeiro desafio de Mano Menezes nesse sentido, já que na outra competição oficial em que comandou a seleção, não havia exatamente uma euforia no vestiário para controlar, pois o time não demonstrou soberba, mas sim uma incompetência do tamanho do mundo. Ou pelo menos da América, já que se tratava de uma copa continental.

Não se trata de cair naquela velha lorota de que “o Brasil só perde para si mesmo”. A questão é que o excesso de confiança pode levar o elenco a minimizar as suas falhas, cada vez mais gritantes, e menosprezar o que os adversários têm a seu favor, mesmo que não seja muita coisa. Tirando o Uruguai, caso ainda se classifique, e o Reino Unido, que apostaria no mando de campo, todos os demais participantes têm em comum o fator surpresa. Com a eliminação da Espanha, todos os olhos se voltam para o Brasil. Mas pelo menos os olhos do Brasil deveriam se voltar para os possíveis oponentes na fase de mata-mata, para a qual já carimbamos nosso passaporte.

Tem para todos os gostos

É provável que o próximo país a cruzar o caminho brasileiro seja Honduras, a opção mais fraca dentre as ainda disponíveis. Mas há o risco de que o Marrocos se classifique. Um oponente africano, tal qual a Nigéria de 1996 e o Camarões de 2000. Um time que reflete muito bem o estado atual do futebol africano, praticando um futebol bem menos atraente, mas um tanto mais pragmático. Mais para frente, podemos ter um embate com Senegal, a seleção mais forte do torneio. Fisicamente, que fique claro. Contra o Uruguai, os jogadores mais jovens da Celeste pareciam mirrados juniores enfrentando parrudos profissionais. O que não é exatamente uma novidade em termos das seleções “sub-fictícias” que costumam representar a África.

Ao contrário do que se esperava, Suárez e Cavani não estão conseguindo carregar o time nas costas. A presença do também experiente Arévalos Rios não tem sido suficiente para dar segurança à defesa uruguaia, que sofreu bastante com o atacante Moussa Konate, autor dos dois gols senegaleses, ambos marcados de cabeça. Tão favoritos ao pódio quanto a eliminada Espanha, os uruguaios agora precisam vencer os britânicos. Talvez seja um desafio muito mais duro na teoria do que na prática, já que o combinado de anfitriões tem passado ainda menos confiança. O desfalque de atletas machucados ou que jogaram a Euro não permitiu que fosse um montado um time que vá além do esforçado. O Reino Unido foi capaz de vencer os Emirados Árabes, que deverão perder de todos na chave, mas não de jogar melhor contra Senegal, quando saíram no lucro com o empate.

Jogando o grupo menos interessante do torneio olímpico, os mexicanos tem despertado pouca atenção, o que pode lhes ser útil nas próximas fases. Com tradição recente nas categorias de base e uma equipe que joga junto há um bom tempo (vale lembrar que o time sub-23 representou a seleção principal na Copa América), o México está longe de ser brilhante, mas é sério candidato a uma medalha. Eu concordo com o que você deve estar pensando: é complicado botar fé em um time onde Giovani dos Santos é a principal estrela. Mais difícil ainda é acreditar que seu técnico o tenha relegado ao banco nas primeiras rodadas. Quando acionado, garantiu a vitória sobre o Gabão, que depende excessivamente do arisco Aubameyang, cujo penteado agora é (ainda) mais duvidoso que o de Neymar.

Há também o Japão, que não é mais só correria, como afirmam aqueles que pararam nos anos 90. Os nipônicos dominaram os espanhóis e, contando com a ajudinha dada pela expulsão de Iñigo Martínez, tinham a chance até de golear a versão sub-23 da campeã do mundo e da Europa. Com a vitória segura sobre Marrocos, evitaram um confronto prematuro com o Brasil nas oitavas e entrarão como favoritos, seja quem for seu adversário: Egito, Belarus ou, no que seria uma grande zebra, Nova Zelândia. Todos os listados, em condições normais, não assustam o futebol brasileiro, convenhamos. Mas com um pouco de capricho, podem aproveitar os graves deslizes que estamos cometendo defensivamente.

Avenida(s) Brasil

Não sei se como ato promocional do famoso PAC da presidente Dilma, mas o Brasil abre duas avenidas por jogo: uma nas costas de cada lateral. A que tem mais faixas e onde o trânsito flui com mais liberdade é a que se estende atrás de Marcelo, um lateral que gosta de chegar ao ataque e que, por mais que tenha aprendido com José Mourinho, ainda dá muitos espaços na defesa. E se a avenida pela direita é um pouco mais acanhada, isso se deve ao ótimo trabalho de cobertura do incansável Thiago Silva. Já que do outro lado, Juan só aumenta o problema, sendo mais inseguro do que costuma ser passear displicentemente pelas ruas de Sarajevo durante a Guerra da Bósnia.

Como cometeu o erro de manter Hulk na equipe e não convocar outro zagueiro acima dos 23 anos, Mano Menezes não tem como solucionar o problema da zaga. Bruno Uvini também não passa confiança e tem ainda menos experiência do que o beque da Internazionale. Os reservas para as laterais também não conseguiriam mudar muita coisa. O que o treinador brasileiro pode fazer é investir em Danilo como volante, já que Sandro e Rômulo não têm sido dos mais criativos na saída de bola. Ajudaria no ataque, mas talvez até pioraria as coisas na defesa. Mano deveria também esquecer que levou Ganso e sua preguiça contagiante às Olimpíadas. Não há sentido para que ele entre em campo todos os jogos, quando Lucas poderia trazer movimentação e velocidade contra adversários já mais desgastados.

Com Neymar e Oscar crescendo na competição, basta uma maior participação do centroavante, seja ele Pato ou Damião, e um Hulk mais inspirado para garantir que o Brasil acabe marcando os gols que precisa para colocar a tão sonhada medalha dourada no peito. Pelo que foi visto até aqui no torneio, acredito que tal vontade está em vias de ser saciada.  Mas bastará um momento de distração para armar um nó difícil de ser desatado, como a Espanha percebeu em não uma, mas duas oportunidades durante as Olimpíadas. Se a reação egípcia foi positiva para acender o sinal de alerta, o placar mais folgado contra os bielorrussos não pode ser visto como prova de tranquilidade, já que brotou a partir de lampejos isolados de Neymar.

Esqueça da derrota para uma muito superior seleção argentina (com Messi e tudo), em Pequim 2008. Nosso grande problema no torneio olímpico geralmente vem do lado para o qual não estamos olhando. Não é só o Kanu que é perigoso. E dessa vez nem teremos o esparro de Galvão Bueno para alertar quando o perigo for iminente. Para não dizer inevitável.

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Equipe Trivela

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