Comores: Um novato africano

No dia 17 de novembro de 2007, a pequena população de Comores estava em polvorosa: pela primeira vez a seleção nacional do país jogaria em solo comoriano. O jogo, válido pelas Eliminatórias da Copa do Mundo e da Copa Africana de 2010, era contra a vizinha seleção de Madagascar. Um mês antes as duas seleções se enfrentaram no jogo de ida e os malgaxes levaram a melhor, ganhando por 6×2. No entanto, o resultado era o que menos importava para os torcedores locais. Só o fato de ver sua seleção tão perto e participando das Eliminatórias de uma Copa Mundial e Continental já foi uma experiência que jamais será esquecida. A partida foi jogada em Moroni, capital de Comores, e terminou em 4×0 para Madagascar.

Apesar de ter sido fundada em 1979, a Federação Comoriana de Futebol é a “caçula” da CAF, já que se filiou ao organismo máximo do futebol africano em 2003. Anteriormente à sua filiação, a seleção disputava apenas uma competição válida pelos Jogos das Ilhas do Oceano Índico, que são uma espécie de Jogos Pan-Americanos das ilhas que fazem parte da região. E foi nessa competição que o futebol comoriano atingiu sua melhor colocação num torneio internacional: ficou em terceiro lugar nas edições de 1979 e 1985.

Já em 2005, a Federação Comoriana foi a 206ª a se filiar à FIFA, o que lhe conferiu o direito de participar do programa “Win in Africa, with Africa” (Vença na África com a África), que visa fomentar o desenvolvimento do futebol africano. Com a implantação do programa, a esperança dos comorianos é construir um estádio com capacidade para receber jogos internacionais. Atualmente a seleção de Comores recebe seus jogos no Stade de Beaumer, que é um estádio que abriga futebol, turfe e atletismo.

Numa segunda etapa, estão previstos investimentos em melhorias da infra-estrutura e nas categorias de base do futebol comoriano. Percebendo o crescimento do futebol em Comores, alguns jogadores franceses com cidadania comoriana já defendem a seleção: é o caso de Salim M´ramboini (defende o Martigues, da 3ª divisão da França) e Djamar Mohamed (que joga no Marseille Endoume, time da 4ª divisão francesa).
Conhecendo Comores

As Comores são formadas por três ilhas: Ngazidja (ou Grande Comore), Mwali e Nzwani. Estão localizadas no Oeste da África, entre a costa de Moçambique e a ilha de Madagascar. O primeiro contato com o Ocidente ocorreu em 1505, quando uma esquadra portuguesa passou por Ngazidja. Desde então, Comores passou a servir como porto de apoio para escalas de navios que iam à costa da Península Arábica. Vislumbrando um potencial portuário para as ilhas, os franceses, que já colonizavam Madagascar, passaram a colonizar também Comores.

O país obteve a independência da França em 1975 e se tornou uma República Islâmica até o ano de 2002, quando mudou seu nome oficial e passou a ser chamada União das Comores. No entanto, as ilhas de Mwali e Nzwani são palco de freqüentes manifestações pela volta do domínio francês. Em 1997, elas chegaram a declarar a independência de Comores, associando-se unilateralmente à França. Com a recusa do apoio dos franceses, a população das duas ilhas passou a sofrer com os enfrentamentos entre as tropas do governo e os separatistas.

De maioria muçulmana, a população de Comores fala, além do francês, o árabe e o comoriano, que é uma língua que mistura árabe com suaíli (língua falada no oeste da África). Assim, a origem do nome do país vem do árabe qamar, que significa “lua”.

Devido à colonização francesa e o fluxo constante de pessoas que passam por Comores, a população local tem boas porções de indianos, africanos, europeus e chineses. A grande biodiversidade marinha também é uma marca das ilhas. Entre outras espécies, por ali habita um peixe especial chamado celacanto. Esse peixe pode chegar a 1 metro e meio de comprimento, tem dentes muito fortes, se alimenta de outros peixes e suas nadadeiras são semelhantes a patas. Não por acaso, o apelido da seleção nacional de futebol de Comores é “Os Celacantos”.

Melhores das ilhas

De 1979 até 2003 o campeonato de Comores era jogado no sistema de liga, tal qual conhecemos no Brasil: os times jogando entre si em sistema de turno e returno. A ilha de Ngazidja dominou o futebol local nesse período: os times que mais se destacaram foram o Coin Nord, o Etoile du Sud e o US Zilimadjou.

A partir de 2004, os dirigentes da Federação Comoriana passaram a organizar o campeonato local em função das ilhas que compõem o país. Assim, cada ilha disputa uma liga interna. Os campeões de cada ilha se enfrentam e o campeão nacional é conhecido. De lá pra cá, o Coin Nord permanece como um dos melhores do país, mas agora tem a companhia do AJSM (Association Jeunesse Sportive de Mutsamudu), da cidade de Mutsamudu, que fica na ilha de Nzwani, ameaçando assim o domínio de Ngazidja no futebol comoriano.

No último dia 2 de março, as Comores foram testemunhas de outro jogo histórico: o atual campeão nacional, o Coin Nord, recebeu o Curepipe Starlight, das Ilhas Maurício. Foi a primeira vez que as Ilhas receberam um jogo válido por um torneio internacional de clubes. O jogo, válido pela fase preliminar da Copa dos Campeões da África, acabou com uma vitória dos campeões comorianos por 1 a 0. No entanto, como o Curepipe venceu o primeiro jogo por 2 a 0, o Coin Nord foi eliminado logo na primeira fase.

Embora novato no futebol e pequeno na geografia, Comores tem condições para evoluir e, quem sabe, sonhar com colocações melhores no futebol africano. Como se trata de uma federação com pouco tempo de filiação aos órgãos internacionais, é possível elaborar um planejamento em longo prazo e aplicar os recursos enviados pela FIFA da melhor maneira possível, ajudando a seleção e os clubes.

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