Clubes do Norte do México ficam longe do tráfico e dominam Concacaf

Monterrey e Santos Laguna. Depois, Santos Laguna e Monterrey. O final da temporada 2011-12 do futebol mexicano deixou evidente a força dessas duas equipes. Elas decidiram a Liga dos Campeões da Concacaf e o Torneo Clausura, cada uma ficando com um título. Na primeira metade da temporada, os laguneros já haviam chegado à final do Apertura, quando perderam para os Tigres, rivais locais do Monterrey. Fica nítido como o norte do México vive uma fase de rara hegemonia no cenário nacional e mesmo no continental.

Até 2007, o Norte mexicano tinha apenas sete títulos nacionais: dois com Monterrey, Tigres e Santos Laguna, um com Tampico Madero. Desde então, a região saiu campeã em cinco de nove torneios, incluindo os últimos três Aperturas. Ainda levou o bi da Concachampions. Um sucesso que contradiz o momento histórico: o norte do México vive um período de violência acima da (já alta) média, com forte presença do tráfico de drogas em diversos setores da sociedade.

No futebol, ficou emblemática a cena de jogadores e torcedores de Santos Laguna e Morelia fugindo do gramado por ouvirem tiros disparados do lado de fora do estádio Corona, em Torreón. Mas o esporte tem crescido na região justamente porque, no geral, tem conseguido ficar longe do crime organizado.

Ao contrário do que ocorreu na Colômbia, os principais clubes mexicanos não foram dominados pelo tráfico de drogas. O Monterrey foi comprado pela cervejaria Femsa (dona da Kaiser e sócia minoritária da Heineken), que ajudou a organizar as finanças do clube desde a década passada. O Santos Laguna é controlado pela Corona, também fabricante de cerveja. E os Tigres recebem forte apoio financeiro da Cemex, maior cimenteira do México e que tem como presidente Lorenzo Zambrano, torcedor fanático dos felinos.

O suporte econômico não explica o porquê de essas três equipes estarem mais fortes que os quatro grandes (América, Chivas, Cruz Azul e Pumas), pois dinheiro não falta a elas. Mas o caixa recheado permite às forças nortistas viverem à margem do narcotráfico, evitando recursos suspeitos para reforçar a equipe. Isso ajudou o futebol a servir de válvulas de escape para a população, que abraçaram os times por permitirem a fuga da triste realidade.

O que diferencia o trio do Norte com os quatro grandes é o clima em torno deles. Por serem forças regionais, com torcida concentrada em suas cidades, Santos Laguna, Monterrey e Tigres conseguem atuar com menos pressão, permitindo trabalhar com continuidade de uma temporada para outra. Enquanto isso, as potências do centro do país passam por mudanças constantes, sempre de acordo com o humor instável da mídia e da torcida.

Na fronteira

O cenário positivo não se limita aos dois rivais regiomontanos e aos laguneros. Outra equipe do Norte do México tem aparecido bem, e ensaia brigar pelos títulos nos próximos torneios. Os Xoloitzcuintles (ou Xolos) de Tijuana estrearam na elite na temporada 2011-12 e já são vistos como candidatos à Liguilla (mata-mata) no Apertura 2012.

O clube pertence a Jorge Hank Rhon, ex-prefeito de Tijuana, filho de um ex-prefeito da Cidade do México e proprietário de cassinos e do maior site de apostas do país. Ele investiu na compra de jogadores de projeção internacional, como o argentino José Sand, o uruguaio Arévalo Rios, o mexicano Francisco Arce e o colombiano Dayro Moreno.

Outros fatores ajudam os Xolos. Tijuana é uma das maiores cidades do México, e nunca havia tido um time na primeira divisão. O aparecimento de seu primeiro representante fez a população se mobilizar em torno do time. Além disso, por estar na fronteira com os Estados Unidos, os jogos realizados no estádio Caliente acabam atraindo muitos mexicanos que moram no sul da Califórnia (sobretudo San Diego e Los Angeles) e preferem acompanhar o futebol de seu país que a MLS. Tanto que os ingressos são cobrados em dólares, não em pesos mexicanos.

Se os Xolos seguirem nesse caminho (o próximo passo, para reforçar a marca, é criar um time de beisebol, esporte muito forte no norte do México), podem se tornar uma quarta força do norte, e evitarem as armadilhas que vitimaram os Índios. O time de Ciudad Juárez apareceu jhá algumas temporadas empolgando por colocar a cidade na fronteira texana do México no mapa do futebol. Mas o crime organizado fez pressão para entrar no clube, o dono não resistiu, tirou os investimentos no elenco e, quando o time caiu para a segunda divisão, foi morar nos Estados Unidos.

Esse é o grande perigo para o futebol mexicano, sobretudo para os clubes do norte do país. Mas, enquanto os títulos continuarem aparecendo, há mais argumentos para fugir do crime organizado. E continuar mandando no futebol da Concacaf.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo