Chevantón: Nascido para a rede

O adversário era o Brasil. Perdiam por 2 a 0 e temia-se uma goleada. Paradoxalmente, no banco, um dos artilheiros das eliminatórias curtia uma inesperada espera. Assim que entrou, cresceu diante da parelha brasileira; após passe inconveniente de Lúcio, a raquetada de Roque encontrou uma parede uruguaia de nome Ernesto Javier Chevantón. A bola sobrou para Forlán, que iniciou a reação charrúa.

O anteparo para a ´jogada de squash´ acima descrita havia feito quatro gols nos duelos anteriores. Três de falta, e nisso ´Chevangol´ vem se aperfeiçoando. Não só nas cobranças frontais, mas também nas laterais e até nas batidas de escanteio, como a que resultou no gol do zagueiro Bovo, de seu time, o Lecce, contra a Inter, no dia 6 de janeiro. Já está em sua terceira temporada no clube italiano e, embora garanta estar ´´muy cómodo´´, não esconde que almeja ingressar numa equipe de maior porte.

Nas épocas em que o mercado se abre, clubes como Lazio e Milan sondam o presidente Rico Semeraro e o diretor Pantaleo Corvino, que em julho de 2003 pediram US$ 19 milhões, quantia considerada alta pelos interessados. Enquanto aguarda uma transferência, Ernesto Piedelesto (´pé ágil´) – apelido que ganhou na Itália – faz gols e partidas extasiantes, como a da rodada de Natal, em que levou a defesa juventina ao desvario com seu estilo intrépido, incisivo e veloz.

Do leite ao Lecce

Chevantón é muito ligado à família e à cidade de origem, a litorânea Juan Lacaze, onde seu pai, por meio da venda de leite, sustentava o lar. Depois vieram alguns contratempos, até que o senhor Washington Espinosa foi trabalhar numa fábrica têxtil em Montevidéu. Após estabelecer-se no emprego, levou dona Silvia, Ernesto e uma das filhas, Estefanía. A outra, Verónica, já havia casado, e hoje é mãe de Cristian e Matías, os quais são freqüentemente homenageados pelo artilheiro nas comemorações de gol. Cheva, que já principiara sua vida futebolística no Reformers de Juan Lacaze, contava 12 anos quando chegou à capital e desejava prosseguir nas veredas da bola. Logo viriam o Danubio e o amadurecimento. Seus pais tiveram de voltar a Juan Lacaze, mas autorizaram-no a morar no clube que o projetaria.

Em 2000, fez um estupendo campeonato uruguaio, com 33 gols em 30 jogos. Foi fisgado, ainda coadjuvante, pela hollywood do calcio, em cujo gramado da fama expoentes como Ruben Sosa e Recoba, também revelados pelo Danubio, já tinham os pés gravados. A estréia foi de protagonista: aos 2 minutos fuzilou a rede do Parma. Foi o primeiro gol da temporada 2001/2 e por isso recebeu mil garrafas de vinho, pelas quais agradeceu com cautela, dizendo que só bebe água mineral. Seus 11 gols em 27 partidas não impediram a queda do Lecce para a Série B.

Na temporada seguinte, fez 15 gols, e o Lecce voltou à elite. Desses 15, 12 foram de perna direita e três de esquerda. Quase não cabeceia, e isso incomoda alguns torcedores, notadamente as viúvas de Lucarelli, centroavante do tipo tanque que também fora ídolo da torcida salentina. Outros tifosi acusam-no de não passar a bola e de querer driblar em demasia. De fato, Cheva ainda pode lapidar seu jogo, mas isso não fere seu prestígio junto à massa, que confia nele para a luta contra o descenso – como quase sempre ocorre, o Lecce está naquela perigosa região fronteiriça da tabela. A situação se agravou com a derrota para o Bologna, no dia 11 de janeiro, em que Cheva não jogou porque tomara o terceiro cartão contra a Inter. Segundo Rico Semeraro, um ´´amarelo estúpido´´, que poderia ter sido evitado. Esse é outro quesito em que Chevanton precisa evoluir.

Tradição na Celeste

A artilharia das eliminatórias, ao lado do paraguaio Cardozo e do boliviano Botero, não é o começo da história de Chevantón na seleção. Desde a sub-15 tem vestido assiduamente a camisa da Celeste Olímpica. No Sul-americano sub-20 de 1999, fez quatro gols e foi vice-campeão. No mesmo ano, participou do mundial da Nigéria, no qual o Uruguai alcançou o quarto posto, derrotando o Brasil nas quartas de final. Fez mais quatro gols, superando Ronaldinho Gaúcho (três).

Nos dois mencionados certames, foi comandado por Victor Púa, que dois anos depois substituiria Passarella na seleção principal. Apesar disso e de ter participado de três jogos das eliminatórias em 2001, não apareceu nem na lista preliminar para a Copa, composta de 27 nomes. Púa incluiu nesse rol até o veterano Daniel Fonseca, à época no Nacional e distante da seleção havia anos. Cheva, sempre comedido nas declarações, afirmou que torceria pela TV, em Juan Lacaze.

Dias antes, ele e o meia Giacomazzi sofreram com o rebaixamento do Lecce, cujas partidas vez por outra não jogaram justamente por causa da seleção. Série B e uma Copa a menos. Haveria outra? Chevantón, que em meados de 2001 fizera um gol na Copa América e se transferira para a Itália, via sua carreira regredir. Mas, paulatinamente, foi recuperando espaço. Hoje executa bom papel no futebol da ´bota´ e parece ser um dos prediletos do extravagante Carrasco na seleção. ´´O Uruguai é outro, e isso se nota em campo e nos resultados´´, disse Cheva, aprovando o esquema pródigo em atacantes, dentro do qual ele joga mais pela direita, já que Forlán, do Manchester United, é quem ocupa o meio.

Quem tem boca…

Chevantón é muito grato ao Danubio, cujo trabalho de base ele reputa o melhor do país. No uniforme danubiano – similar ao da Ponte Preta – já estampava o número 19, que o acompanha até hoje.

Nos tempos de menino, admirava Romário e principalmente Klinsmann. Do brasileiro, Cheva tem o pique curto, o faro do gol; do alemão, a garra, a entrega. Obviamente, ainda falta muito para atingir tal patamar, mas, se na próxima temporada estiver num time grande, poderá ser catapultado à posição de astro. A Roma é uma possibilidade, se permanecer por lá o técnico Fabio Capello. Com ele, Chevantón trocou elogios antes e depois do jogo Roma 3×1 Lecce, no qual a seqüência ilesa de 773 minutos do arqueiro Pelizzoli foi interrompida por um gol do uruguaio. ´´Adoraria ser treinado por Capello´´, disse na ocasião. Quem torce por ele responderia ´´che va, Cheva´´, em bom italiano.

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