Cercle Brugge: O pequeno que se acha grande

Cercle Brugge. Este clube belga de nome complicado ostenta em seu currículo cinco títulos nacionais. Tem um atacante que vale mais de 7 mihões de euros e, muito provavelmente, passeará pela Europa na próxima temporada. Se a Jupiler League – primeira divisão da Bélgica – terminasse hoje, os torcedores, chamados de “verde-pretos”, em alusão as cores do uniforme, comemorariam a vaga na Copa da Uefa.

Com mais um pouco de esforço, talvez seja possível a classificação à Liga dos Campeões. O Cercle está distante quatro pontos do vice-líder (posição que basta para ir ao mais luxoso dos campeonatos), restando onze partidas para o fim do campeonato. Pelas ruas de Brugge, a vontade de enfrentar os gigantes da primeira linha, como Milan, Real Madrid e Barcelona, por exemplo, é enorme. Mesmo sabendo que os representantes belgas só chegam na fase de grupos se passarem pelas eliminatórias.

É fácil imaginar o alvoroço que se instalaria no município, conhecido como “Veneza do Norte”, em razão dos canais de água que o cercam e o atravessam. O clube encheria os cofres e ganharia em marketing. Por outro lado, tem o receio de dar um passo maior do que as próprias pernas.

Apesar dos títulos, o Cercle não tem capacidade de, pelo menos agora, enfrentar os ricos e poderosos. A história mostra isso. Boa parte dos 108 anos foram vividos nas divisões inferiores. Depois de cada troféu erguido, os planos de ir mais longe, fracassaram. Misturados à guerras, tornaram-se desastrosos.

Quando tudo ia bem na década de 1910, veio a Guerra Mundial. Dois atletas do Cercle perderam suas vidas. A Segunda Grande Guerra foi igualmente cruel. Depois dela, o clube viveu um inferno. Só levantou nos anos 70, antes de despencar de novo. Nesse tempo, mudou de nome quatro vezes.

Sucesso antes da guerra

Quando estudantes do Saint Francis Institute, uma rede de ensino católica, se reuniram no noroeste da Bélgica, em abril de 1899, para fundar uma agremiação esportiva, a idéia era privilegiar o lazer e a diversão. Foram, então, instaladas áreas para as práticas de atletismo, ciclismo, tênis, críquete e futebol.

Das cinco modalidades oferecidas no Cercle Sportif Brugeois, a última foi a única a realmente chamar a atenção dos moradores de Brugge. O fato resultou no ingresso do clube na Royal Belgian Football Association, em 1900. Foi a 12ª instituição a se filiar na organização que administra o futebol naquele país.

A entrada no seleto grupo era a senha para um sucesso. Pequeno, mas de certa forma representativo. O time rodou a Bélgica e parte da Europa disputando torneios amistosos. Os constantes títulos encorajaram o Brugeois a participar da liga profissional belga, no fim da década.

Um campeonato de emoções fortes e triunfal. Na temporada 1910/11, o clube terminou apenas um ponto a frente do outro time da cidade, o Club Brugge, sagrando–se campeão. Nascia, portanto, uma rivalidade, que desapareceu por um período. A Guerra Mundial (1914-1918) paralisou o futebol local. O Cercle que o diga. Perdeu dois jogadores em combate.

No retorno do campeonato, em 1919, apenas um atleta do time campeão permaneceu. O que gerou um processo de reformulação, culminando na época dourada. Pela primeira vez, o nome da agremiação foi alterado. O ano de 1924 marcou a estréia do Royal Cercle Sportif Brugeois. A troca trouxe sorte. Três anos depois, o museu do clube recebeu duas novas taças: a de campeão nacional e da Copa da Belgica. Em 1930, fechando um ciclo, o tricampeonato belga. Ao invés de mais êxitos, começou entretanto, um período de erros em sequência.

O primeiro foi decidir não renovar o elenco. Imaginava-se que assim, naturalmente, outros títulos viriam. Aconteceu o oposto, acarretando no rebaixamento para a segunda divisão em 1936.

Os tempos difíceis
O esforço para subir foi grande. Afinal, a grandeza do clube ia na contramão dos adversários. O Brugeois voltou para a elite em 1938 (campeão da 2ª divisão). Não contava, porém, com a Segunda Guerra (1939-1945). Na retomada das diputas, cinco anos mais tarde – em 1943 o campeonato foi jogado -, o time não estava preparado, e sequer conseguia apresentar um futebol razoável. Resultado: mais uma vez, visitou a séie B. Antes, seus torcedores deram uma prova do quanto eram fanáticos. E malucos.

Numa partida frente ao Anderlecht, a arbitragem invalidou dois gols do Brugeois e não viu um impedimento em um do adversário. Dois homens, ligados ao conselho administrador do clube, propuseram ao juíz um passeio por Brugge, para mostrarem que não havia rancor entre as partes. No meio do caminho, a dupla pôs o verdadeiro plano em prática. Pararam o veículo e deixaram o árbitro em um lugar abandonado. Os “verde-pretos” estavam vingados.

De nada adiantou a ação. O time caiu de novo, em 1945. Só voltaria depois de 16 anos, em 1971. Nesse período, foi parar até na terceira divisão. Para lá, não desceu dentro de campo, mas no tapetão. Um dirigente tentou subornar um jogador adversário. A Associação de Futebol não perdoou, e despachou o Brugeois para a terceirona.

Para voltar, ficou resolvido que precisaria haver mudanças. A primeira foi no nome: o impronunciável Koninklijke Sportvereninging Cercle Brugge ganhou corpo. A outra, no comando da equipe. O Cercle Brugge apostou em contratos longos com os treinadores. Entre 1967 e 1977, apenas dois técnicos passaram pelo bairro Sint-Andries – onde ainda é a sede – . Finalmente, voltaram os bons tempos.

A reestréia na Jupiler League (Jupiler é uma cerveja belga da InBev, companhia de bebidas que patrocina o campeonato) sucedeu o título da série B na temporada 1970/71. Permaneceu na liga até 1997, com exceção do período 1978/79, quando disputou, e venceu, a segundona.

Como nos anos 20, o novo momento resultou em medalhas de ouro. E de prata, também. Brugge dominou a Copa da Bélgica, chamada de FA Cup, em 1985, com o Cercle e 1986, com o Club Brugge. O Cercle derrotou nos pênaltis o Beveren, e no ano seguinte foi vice do maior rival. O Club Brugge dava, então, o troco, engasgado desde 1911. Foi além, e virou essa disputa particular. Dez anos se passaram, e os dois, se enfrentaram novamente na final da mesma competição. Replay de 1986.

Combate com o rival

O segundo vice consecutivo para os vizinhos expôs uma crise forte. O que parecia improvável aconteceu. O Cercle tinha um bom time, considerado um dos melhores do país. Mas desabou. O destino reservou mais uma passagem, outra reciclagem, pela segunda divisão, de onde saiu em 2003, com o tetra da série B. Houve uma série de tentativas frustradas de antecipar a volta. Uma delas foi a inversão do nome. Cercle Brugge Koninklijke Sportvereninging. Por enquanto, continua sendo chamado assim.

Com tantos acessos e descensos, o Cercle, parece, enfim, ter amadurecido. Hoje, joga a quarta edição seguida da Jupiler League. Nas três primeiras, alcançou posições intermediárias, sem almejar nada grandioso. O time rodou um pouco, perdeu jogadores, outros chegaram, e ganhou experiência. Caso não haja um tragédia futebolística – e azar é com o Cercle mesmo -, o time vai para a Copa da Uefa ainda em 2008. Quem sabe para a Liga dos Campeões. Tem o ataque mais positivo do campeonato com 52 gols, o melhor saldo, e está invicto há oito jogos.

Não pode e não deve acreditar que é grande. Não é. É um clube pequeno. No ranking de janeiro da Federação de História e Estatísticas do Futebol (IFFHS), figurou na insignificante posição 281. Na melhor das estimativas, é o quarto em preferência na Bélgica, atrás de Anderlecht, Standard de Liège e do rival Club Brugge, um legítimo co-irmão e multicampeão.

É o maior vencedor da FA Cup, com 10 canecos, e tem mais 13 da Jupiler League. São grandes as possibilidades de ter 14. Lidera o campeonato, dois pontos à frente do vice. Divide com o Cercle a torcida da cidade e até o estádio. Os dois mandam os jogos no Jan Breydel, onde não cabem mais de 30 mil pessoas e ficou em evidência em 2000, na Eurocopa organizada por Bélgica e Holanda. Sediou quatro partidas do torneio.

Na atual temporada, o Cercle surpreendeu também na Copa. Não vai à final por um vacilo. Na semi, atropelou o Standard Liège por 4 a 1, em casa, na ida. Na volta, tudo ia bem até os seis do segundo tempo, quando ainda havia empate sem gols. Num apagão, o Liège marcou quatro vezes e se classificou.
Apesar do fiasco, os torcedores estão contentes. O mais importante em 2007/08 foi eliminar o rival dessa mesma competição. Em jogo único, venceu pelo placar mínimo.

Um século e só três ídolos

Em quase 110 anos de história, o Cercle nunca fez o que os grandes europeus fazem. Vender atletas a peso de ouro é novidade no lado verde e preto do Jan Breydel. Pode deixar de ser. O atacante Tom de Sutter, 22 anos, marcou um quinto dos gols do time na Jupiler League. Fez o que eliminou o Club Brugge da Copa, e outros quatro num só jogo, contra o Mechelen, pela mesma FA Cup.

Dentro da lei na qual o maior come o menor, o artilheiro, titular da seleção olímpica da Bélgica, chamou a atenção do Anderlecht e do suíço Trabzonspor. O menos conhecido, mas cheio da grana Zenit Saint Petersburg, da Rússia quer levá-lo por 7,5 milhões de euros. O Cercle se apressou e renovou o contrato com seu atacante até 2012, mesmo não podendo contar com ele pelos próximos seis meses. No início de fevereiro, rompeu os ligamentos do joelho direito, um dia antes de estrear pela seleção profissional.

A promessa de craque é a aposta do Cercle, carente de ídolos. Sutter, jogando pelo menos mais duas temporadas em Brugge, com o time seguindo em alto nível, entrará para a magra lista de celebridades do clube. Estão lá Josip Weber, atacante croata, autor de 136 gols com a camisa verde e preta e artilheiro da Jupiler League de 1994 a 1997; e Robert Braet, goleiro que jogou por 20 anos, entre 1928 e 1948. O Cercle foi seu único time.

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Equipe Trivela

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