Castro: O craque platino

Futebol. Do inglês football: pé (foot) na bola (ball).

O esporte bretão que celebra a entrada da bola na meta (goal ou gol, em uma adaptação do termo original) sempre premiou atletas de grande habilidade com os pés, como Pelé, Puskas e Cruyff, deuses com lugar cativo no imaginário coletivo dos fãs pelo mundo. Mesmo Garrincha, ‘o anjo das pernas tortas’ mostrou ao público sua intimidade com a bola e foi um grande craque.

Vários jogadores, sem tanta qualidade no chute, usaram a cabeça para fazer história no esporte ludopédico. Por meio da precisão nos arremates de seus cabeceios, a escola inglesa, campeã mundial de 1966, até recentemente era conhecida pelos seus insistentes chuveirinhos.

Outros ídolos do soccer, ruins da cabeça e doentes do pé, tiveram uma mãozinha para escrever seu nome no livro de ouro dos jogadores inesquecíveis da história. Os goleiros (goalkeepers), guardiões da meta, utilizam pernas, cabeça, mãos e braços para evitar a passagem da pelota sob o travessão. A incrível capacidade de impedir o gol com seus ‘mil braços’ e seu uniforme preto fizeram a fama mundial do russo Lev Yashin, rendendo-lhe a alcunha de ‘Aranha Negra’. Mesmo Maradona, ‘El Pibe de Oro’, indiscutível artista com os pés, teve seu momento de jogador de handebol ao fazer seu famoso gol com a ajuda de ‘La mano de Dios’, quando usou sua mão no segundo gol contra a Inglaterra, consagrando a Argentina campeã mundial de 1986.

Craque sul-americano, herói do esporte em seu país, Héctor Castro não contou com uma mão do Todo Poderoso, como Dieguito, para se consagrar um grande craque do futebol uruguaio. Castro era maneta.

Eneacampeão uruguaio

Nascido em 29 de novembro de 1904, em Montevidéu, Héctor perdeu a mão direita aos 13 anos, em um acidente de trabalho, ao utilizar uma serra elétrica. O incidente não o impediu de iniciar uma vitoriosa carreira de atleta.

Estreou em 1921 como um atacante no time do C.A. Lito e se transferiu dois anos depois para o Nacional. O defeito em sua mão lhe rendeu o apelido de ‘O Manco’ ou ‘O Manco Divino’. Héctor usava sua condição para vencer disputas de bola contra seus marcadores.

Ganharia seus primeiros títulos, logo após um ano de sua estréia no Nacional. Foi campeão uruguaio por seu time e medalha de ouro nas Olimpíadas de Paris, vencendo a Suíça na final. Naquela época, o Uruguai era uma seleção imbatível. Quatro anos após o triunfo na França, recebeu novamente a medalha de ouro, nas Olimpíadas de Amsterdã, batendo a rival Argentina.

Foi ainda bicampeão nacional (1933 e 1934), campeão da Copa América em duas ocasiões (1926 e 1935) e outras cinco vezes campeão uruguaio como técnico do Nacional, time que o revelou, no tetracampeonato de 1940-1943 e em 1952 (em 1939, foi campeão como assistente técnico do time).

Nove campeonatos nacionais, dois sul-americanos e duas Olimpíadas, porém, não foram mais importantes que o maior de seus títulos: o ano em que o Manco ganhou o mundo.

1930: El Manco ganha o mundo

Era 1929, quando o então presidente da Fifa, Jules Rimet, decidiu promover o primeiro campeonato mundial entre seleções, “o meio mais seguro de fazer diplomacia, a maneira mais eficiente de trazer a paz a todos os povos”. O país escolhido para receber a Copa do Mundo foi o Uruguai, bicampeão olímpico, a um ano do centenário da proclamação de sua independência. Héctor Castro foi personagem fundamental na festa da comemoração do Centenário.

O 1º Campeonato Mundial de Futebol teve início no dia 13 de julho de 1930, com o jogo França 4×1 México. EUA, Bélgica, Iugoslávia e Brasil já haviam estreado quando o Uruguai foi a campo no dia 18 de julho, dia da comemoração do centenário da independência contra a seleção do Peru, em jogo realizado no recém-construído Estádio Centenário, em Montevidéu. O jogo foi 1 a 0 para a equipe local, com gol de Héctor ‘El Manco’ Castro, comemorado por 70 mil espectadores, o maior público de uma partida de futebol nas Américas, até então.

Após passar facilmente por Romênia (4×0) nas quartas-de-final e Iugoslávia (6×1) nas semis, o Uruguai teria como concorrente ao título a Argentina, a quem derrotara nas Olimpíadas de 1928. Esse ano, porém, a Argentina tinha em Stábile um grande artilheiro.

Oitenta e uma mil pessoas foram testemunhar a grande decisão. O jogo estava disputadíssimo, a rivalidade, imensa, o Uruguai vencia a partida por 3 a 2, mas o placar ainda não estava definido quando, a 1 minuto do final, Dorado cruzou a bola para o cabeceio certeiro de Castro, selando a vitória por 4 a 2.

O Uruguai era o primeiro campeão mundial de seleções, mas os uruguaios comemoraram como tricampeões, pois consideravam os dois títulos olímpicos anteriores como os campeonatos mundiais de então.

O ‘Manco Divino’ não era o maior craque do time, que teve o meia Scarone, o atacante Cea e o zagueiro e capitão Nasazzi como ídolos da torcida e integrantes da seleção dos melhores da Copa. Mas foi ele quem fez o primeiro e o último gol da Alviceleste, para delírio de uma nação fanática, orgulhosa em ser a melhor do mundo.

Falecido em 15 de setembro de 1960, Héctor Castro vive até hoje na memória da nação uruguaia. Realizou 53 jogos pela seleção e fez 31 gols. Curiosamente, seu último tento na Copa, o mais importante, não foi feito com os pés, mas foi digno e heróico, diferente da ‘mãozinha de Deus’ de seu famoso vizinho platino.

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