Bozsik: O motor da Seleção de Ouro

Quando fazemos alguma menção à seleção de futebol da Hungria, é impossível não nos lembrarmos de Kocsis, Czibor, Hidegkuti e principalmente de Puskas. Afinal de contas, eles formavam a linha de ataque da seleção magiar, apelidada de “Seleção de Ouro” pela beleza do futebol que praticava e que encantou todo o mundo na década de 50.

No entanto, para que a linha de ataque funcionasse com toda a força e para que a defesa não tomasse tantos gols, era necessário que o meio-campo também tivesse solidez e qualidade tanto para iniciar as jogadas de ataque quanto para destruir o poderio ofensivo dos adversários. E ninguém na Hungria foi mais eficiente nesse aspecto do que József Bozsik.

Nascido no mesmo bairro de Budapeste que Puskas, Kispest. “Cucu”, o apelido de infância de Bozsik, começou a jogar com ele e outros garotos num campinho chamado Lipták Grund. Apesar de dois anos mais velho que o atacante, tanto Bozsik quanto Puskas já eram selecionados pelos garotos mais velhos para jogar contra eles nos treinos do time juvenil.

Certo dia, um olheiro do Kispest AC, clube do bairro, viu Boszik em ação e resolveu convidá-lo a jogar no time. Treinado pelo pai de Puskas, o Kispest era conhecido pela rigidez de seus treinamentos, obrigando os atletas a treinar até dez horas por dia. Assim, esses métodos fizeram com que o meio-campista desenvolvesse força física e massa muscular suficientes para ingressar no time principal e começar a disputar os campeonatos nacionais. E então com 18 anos o jovem Bozsik estreou no time principal contra o Vasas.

Rápida ascensão e natural lembrete para a seleção

O Kispest começou a formar um time de respeito, embora o pai de Puskas tenha saído para dar lugar ao técnico Bela Guttman, então um técnico promissor, que já tinha ganho dois títulos húngaros. Com o passar do tempo, ser convocado para a seleção húngara era uma questão de tempo. E isso aconteceu em 1947, num jogo contra a Bulgária. Era a primeira de uma série de 101 convocações, o que faz de Bozsik o maior jogador a vestir a camisa da Hungria em todos os tempos.

Em 1950, Bozsik ajuda o Kispest, que no mesmo ano tornaria a chamar-se Honved (exército, em húngaro) devido às intervenções do governo comunista, a conquistar seu primeiro título nacional. Ao lado de Puskas, Kocsis, Czibor e o goleiro Grosics formaram um timaço, que seria temido por toda a Europa durante a década de 50. Como o clube era pertencente ao exército, todos os jogadores recebem patentes militares para poder receber pelos serviços prestados ao Honved, já que na Hungria o profissionalismo foi banido. No caso de Bozsik, ele recebeu a patente de capitão.

De acordo com o governo o sucesso do Honved, que era treinado por Gusztav Sebes, deveria ser replicado para a seleção. Como o governo já havia nomeado Sebes para a comissão selecionadora nacional, que era uma espécie de comitê que determinava quais jogadores deveriam defender a seleção húngara, o técnico decidiu fazer do Honved a base da seleção húngara e assim tentar reproduzir para o mundo o sucesso que o time do exército já conquistara no país.

Estava assim formada a estrutura principal da “Seleção de Ouro”. Bozsik então acompanha fielmente a seleção e o Honved, que conquista a hegemonia doméstica nos próximos anos. O primeiro título de respeito creditado à Seleção de Ouro foi a vitória do torneio de futebol dos Jogos Olímpicos de 1952, onde a medalha de ouro foi conquistada de forma invicta. A Seleção de Ouro começava assim a escrever seu nome na História.

Da consagração à frustração com a Seleção de Ouro

Um ano depois da conquista da medalha olímpica, surgiu um convite para enfrentar a Inglaterra em Wembley. Os ingleses estavam invictos há nove anos e propuseram um encontro dos “pais do futebol” contra a “seleção sensação da Europa”. Os húngaros não perdiam um jogo desde 1950. A expectativa para o jogo era tanta que toda a imprensa inglesa chamou o jogo de “Jogo do Século”.

Bozsik não só fez parte do time que entrou em campo como ajudou a Seleção de Ouro a humilhar a Inglaterra na vitória por 6 a 3, fazendo um gol no começo do segundo tempo, calando fundo o templo maior do futebol inglês. Seis meses depois, já no início de 1954, foi marcada uma revanche em Budapeste e a Seleção de Ouro ganhou novamente, e por um placar ainda maior: 7 a 1. É, até hoje, a pior derrota da seleção inglesa em todos os tempos.

Com isso, a Hungria era a franca favorita para a conquista da Copa do Mundo, a ser realizada na Suíça no meio do ano. Com sua invencibilidade mantida, poucas pessoas na Europa e no mundo acreditavam que os magiares perderiam o título. Paralelamente, Bozsik era considerado o melhor meio-campista do mundo, dotado de extrema técnica, estilo e criatividade.

Iniciada a Copa, a Hungria confirmou o que todos esperavam: boas vitórias e futebol envolvente. No jogo contra o Brasil, válido pelas quartas-de-final, Bozsik foi expulso de campo juntamente com o lateral Nilton Santos por agressão mútua. Esse jogo ficaria conhecido como “A Batalha de Berna”, pois terminada a partida (com vitória húngara por 4 a 2) uma confusão generalizada deu lugar aos cumprimentos dos jogadores dos dois times. Como na época o regulamento não previa suspensão por expulsão, Bozsik participou normalmente da semi-final contra o então campeão mundial Uruguai. Assim, ajudou a Hungria a vencer novamente por 4 a 2, o que deixava a Seleção de Ouro a um jogo para a consagração definitiva do time que praticava o mais belo futebol do planeta.

Entretanto, a consagração dá lugar à frustração. Depois de quase cinco anos sem perder, a Hungria é derrotada na final da Copa pela Alemanha por 3 a 2, fica com o vice-campeonato e Bozsik, como todos os outros jogadores, saem de campo chorando e lamentando a grande oportunidade perdida.

Revolução, dissoluções e morte prematura

Após a Copa, Bozsik permaneceu no Honved e conquistou mais dois campeonatos húngaros, em 1954 e 1955. No ano seguinte, o time húngaro encontrava-se na Espanha realizando um tour por algumas cidades realizando amistosos. Foi quando veio a notícia de que a revolução húngara foi derrotada pelos soviéticos e com isso, tempos ainda mais difíceis os aguardavam no país.

Foi a chance que jogadores como Puskas, Kocsis e Czibor tiveram para não voltar para a Hungria e se estabelecer no exterior, onde ganhavam mais e podiam gozar de mais popularidade e conforto em relação ao país natal. Ao contrário deles, Bozsik voltou para o país normalmente e continuou jogando no Honved, Mas o time do exército já não era mais o mitológico esquadrão que encantava a todos os húngaros. Com a saída dos principais atacantes, o time não ganhou mais nenhum campeonato e amargou um jejum que somente seria quebrado em 1980.

Bozsik ainda foi convocado para a Copa de 1958, mas, como o Honved, o time húngaro também já não tinha o mesmo encanto que mostrara quatro anos antes e acabou eliminado na primeira fase pelo País de Gales. Bozsik jogou até os 37 anos, quando fez sua última partida pela Hungria contra o Uruguai.

Logo após sua aposentadoria dos gramados, Bozsik ainda era bastante querido pelo povo húngaro, pela torcida do Honved e pelo regime comunista que governava o país. Prova disso foi o convite feito pela direção do Honved para que se tornasse um membro da direção do clube. Dois anos após sua nomeação, Bozsik passou a ser o técnico do time e ficou no comando por um ano. Resultados ruins fizeram com que Bozsik voltasse para a diretoria.

Logo após a Copa de 1974, onde a Hungria não conseguiu classificar-se, Bozsik foi convidado pela federação húngara para comandar a seleção. Só comandou o time nacional em um jogo, sendo aconselhado pelos médicos a parar de trabalhar com o futebol, pois seu coração já dava sinais de fraqueza. Assim, Bozsik foi convidado para fazer parte da comissão técnica que tentaria classificar a Hungria para as finais da Eurocopa de 1976 e para a Copa do Mundo de 1978. O primeiro objetivo não foi alcançado, mas o segundo foi e a Hungria, depois de doze anos, estava classificada para a Copa.

Infelizmente, Bozsik não chegou a ver a estréia da seleção na Copa. Três dias antes do jogo contra a Argentina, ele sofre um ataque do coração e falece aos 52 anos. Puskas, muito sentido com a perda do grande amigo, não vai à Hungria, temendo ser preso pelo governo ou hostilizado pela população. Milhares de pessoas vão às ruas em seu funeral demonstrando respeito e carinho pelo ex-jogador que se tornou um símbolo do Honved e da Hungria. Como prova de respeito e gratidão, em 1986 o estádio do Honved foi batizado com o nome de Bozsik, eternizando assim seu nome na história do futebol húngaro.

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Equipe Trivela

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