Boulogne: enfim, no ápice

O time iniciou a última rodada da Ligue 2 da temporada 2008/09 na quarta colocação. Teria de vencer o Amiens para conseguir um lugar no Campeonato Francês 2009/10 – sem contar a dependência de uma vitória do Montpellier, então em terceiro, sobre o vice-líder Strasbourg.

E tudo aconteceu. Primeiro, a vitória do MHSC por 2 a 1 sobre o Racing. E, acima de tudo, a goleada por 4 a 0, em casa, sobre o Amiens, que colocou o US Boulogne, após 111 anos de história, na Ligue 1, pela primeira vez. Mas como foi, de lá para cá, toda a trajetória do clube que revelou Franck Ribéry?

Um longo tempo no amadorismo

Em 1898, um clube formado por ingleses decidiu focar esforços na criação de uma equipe exclusivamente dedicada à prática do futebol, ainda surgindo na França. Nascia a Union Sportive Boulonnaise, que sediou seus jogos, a princípio, na Place de Capécure. Ali mesmo, o público de Boulogne-sur-Mer começou a acompanhar a equipe rubro-negra, que teria novo estádio para mandar seus jogos a partir de 1901, quando se transferiu para o terreno de Moulin Wibert.

A primeira mostra de desenvolvimento no clube foi vista em 1907, quando Georges Bon, que atuava pela seleção francesa, começou a atuar pelo USB. Outros futuros jogadores que serviriam a Les Bleus atuariam pelo Boulogne, como os irmãos Alexis e Pierre Mony e Maurice Tillette (este, presidente do clube, de 1931 a 1934). E os resultados iam surgindo, notadamente na Copa da França: em 1925, 1928 e 1931, a equipe chegou às oitavas-de-final. E alcançaria as quartas em 1929.

O profissionalismo, o despontar e o silêncio

Finalmente, em 1935, sob o comando do presidente Marcel Lacroix, o USB rende-se ao profissionalismo. E começa atuando na segunda divisão francesa, alcançando como melhor resultado um sétimo lugar. Mesmo assim, é na Copa da França, novamente, que o clube consegue melhor sorte: em 1937, o time alcança as semifinais da competição, após superar o Racing Paris, nas quartas-de-final. O time não foi páreo na partida contra o Sochaux – o primeiro tempo terminou sem gols, o segundo, com goleada sofrida por 6 a 0 -, mas havia a perspectiva de melhora.

Todavia, a perspectiva seria dizimada por um trágico acontecimento. Com o princípio da Segunda Guerra Mundial, em 1939, a disputa da segunda divisão é interrompida, a cidade de Boulogne é atingida por mais de 500 bombardeios e todas as instalações esportivas à disposição do clube são destruídas no confronto. Todo o avanço histórico que o Boulogne tivera até então foi absolutamente arrasado.

Com tamanho trauma, a equipe só voltará a disputar campeonatos em 1944, novamente em caráter amador. Jogando a Divisão Marítima, a equipe retorna, na temporada 1946/47, à Promotion D'Honneur (divisão regional francesa). E, já em 1948, ao terminar em terceiro a “PH”, a equipe sobe para a Division D'Honneur. Mas a alternância entre PH e DH continuaria a partir de 1951, quando a equipe ficou em penúltimo lugar na divisão de honra e voltou para um dos campeonatos regionais da PH.

Para, já no ano seguinte, vencer o torneio regional e retornar à DH, onde ficou de 1952 a 1959. Na Copa da França, as campanhas também não eram dignas de nota.

O retorno ao profissionalismo

1957, porém, marcou o surgimento de novas esperanças para o clube. Com a construção da nova sede, o Stade de La Libération – onde, por sinal, a equipe até hoje manda suas partidas -, crescia a possibilidade do retorno do USB ao regime profissional. E, no mesmo ano, o clube começou a criar o projeto da volta ao profissionalismo, afinal concretizado em 1959, com a criação de um comitê que pudesse manter financeiramente o clube, capitaneado pelo presidente do Boulogne, Pierre Wattez, eleito havia pouco tempo.

E bastaram apenas cinco anos para que a equipe quase realizasse o sonho da chegada à primeira divisão gaulesa: após encerrar em quinto lugar o Championnat Nacional de France (segunda divisão), na temporada 1964/65, o USB termina em quinto e ganha direito para disputar a última vaga disponível à primeira divisão, num quadrangular com Limoges (4º do CNF), mais Rouen e Nîmes, antepenúltimo e penúltimo colocados da Ligue 1. As chances eram boas, ainda mais após vencer o Nîmes em casa, pela primeira partida, mas, goleado nas duas seguintes e com os “Crocodiles” vencendo por 2 a 1 a derradeira, restou a permanência no Championnat Nacional.

Com novo nome, a L1 quase chega – mas o que volta mesmo é a crise

Em 1971, a USB vira USGB (Union Sportive du Grand Boulogne). E a novidade no nome quase rende bons frutos na temporada seguinte: o time encerra a conferência norte da Division 2 de 1972/73 na vice-liderança, empatado em pontos com o campeão Lens, promovido junto do Troyes, campeão sulista. Foi necessário, então, disputar outro play-off pela vaga restante, contra o Monaco, vice-campeão do Sul. O 2 a 2 em casa, na ida, manteve as esperanças, mas elas ruíram mais uma vez, com o Monaco goleando por 8 a 1 na volta.

E, cruelmente, ao invés de um lugar na sonhada primeira divisão, o que veio foi um retorno aos tempos de vacas magras, o que forçou o clube a novamente retirar-se do profissionalismo, em 1978. O clube retornou às competições francesas em 1981, novamente no amadorismo, para disputar a Division D'Honneur. Mais dois anos e, com o título da DH Norte, a equipe é promovida à quarta divisão.

Enfim, a ascensão inexorável

Aí, sim, o Boulogne pôde ter a história livre de interrupções por problemas financeiros, finalmente. Na temporada 1990/91, o primeiro sinal de que dias melhores viriam, com a promoção à Division 3. E, em que pese a grave ameaça de intervenção que o clube sofreu em 1994, só resolvida com o auxílio da prefeitura, o clube manteve-se, fazendo algumas campanhas mais dignas na Copa da França, ao alcançar os 32avos (1991/92) e 16avos-de-final por três temporadas consecutivas (de 1996/97 a 1998/99). Em 1997, nova mudança de nome, para o Union Sportive Boulogne Côte d'Opale pelo qual é conhecida hoje.

Na quarta divisão, haveria ainda mais um trauma, em 1996/97, quando a equipe só não conseguiu o acesso ao Championnat Nacional de France (terceira divisão) por ter menor saldo de gols. Enfim, após muito tentar, o acesso viria em 2000/01. Mas, após fazer bom primeiro turno em 2001/02 (justamente a temporada de estreia de um certo Franck Ribéry no elenco), a equipe cairia de produção e teria de retornar ao Championnat de France Amateur. Até que veio a temporada 2004/05…

O Boulogne viveu, então, um verdadeiro sonho. Não só barbarizou no CFA, acumulando 22 jogos de invencibilidade e conseguindo o retorno ao Championnat Nacional, mas também com a chegada às quartas-de-final da Copa da França, onde parou no Auxerre. E ninguém segurou mais: em 2006/07, o retorno ao profissionalismo e a promoção à Ligue 2, com o vice-campeonato – e com o atacante Grégory Thil marcando 31 gols, a maior marca na história dos artilheiros da segunda divisão.

E, por fim, o 29 de maio de 2009 que representou o ápice da história já centenária do Boulogne. A não ser que a ascensão das últimas temporadas surpreenda a Ligue 1.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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