Bonito espetáculo com futebol feio: Merseyside invade Wembley

Mais de 87 mil pessoas estiveram presentes em Wembley para assistir a definição de qual time de Liverpool estaria na final da Copa da Inglaterra 2012. Competição mais tradicional do futebol britânico, a FA Cup reuniu, em uma de suas semifinais, emoção e rivalidade. Bom futebol, no entanto, foi pouco.

No Liverpool, Kenny Dalglish tinha alguns problemas para resolver. O goleiro titular Reina e o reserva imediato Doni estavam suspensos. Começou o inexperiente Brad Jones, ironicamente o dono da camisa número um. Com Lucas e Adam ainda no estaleiro, Spearing fez companhia para Gerrard. A formação escolhida foi o 4-4-2. O treinador optou por improvisar Agger na lateral, reconduzindo Carragher ao time e sacando José Enrique.

Do outro lado, David Moyes optou por manter a estrutura da temporada, no 4-4-1-1. Rodwell, fora da temporada por lesão muscular, e Pienaar, inelegível por ter atuado no torneio pelo Tottenham, ficaram de fora.  Gibson ganhou oportunidade e o jovem Gueye uma posição de titular.

O dois times foram a campo com esquemas parecidos, mas estratégias diferentes. Ambos com meias-extremos mais agudos de um lado (Downing/Osman) e mais defensivos de outro (Henderson/Gueye). Gerrard e Fellaini desempenhando quase a mesma função, saindo da posição de volante para chegar nas proximidades da área adversária (conhecido na Inglaterra como “box-to-box”, o que devemos traduzir como “de área a área”).

Enquanto o Liverpool encarou o jogo de maneira mais técnica, buscando avançar com troca de passes e movimentação, o Everton optou por abordar a partida de forma mais direta, buscando ligar o ataque com bolas altas.

A estratégia de Dalglish dependia muito da movimentação de Suárez, caindo por todos os lados, como um típico segundo atacante, e de Gerrard, sempre perto da bola dando opção de passe curto. Henderson, que não tem velocidade, fechava para o meio, abrindo corredor para a passagem de Glen Johnson.

Moyes configurou o Everton para jogar de forma pragmática. Linha defensiva alta, para recuperar a bola com mais rapidez e ligação direta para Jelavic e Cahill. Ao contrário de Suárez, o australiano Cahill jogou fixo centralizado, entre as linhas, posicionado para ganhar as bolas altas e municiar Jelavic.

Jogo foi marcado por grandes falhas defensivas

Com as duas equipes marcando forte e por zona, os espaços foram escassos. Isso se refletiu em um primeiro tempo com poucas finalizações no gol. O primeiro chute que acertou o arco foi aos 14 minutos, quando Skrtel subiu para uma bola parada e aproveitou escorada de Carroll. A pressão alta atrapalhava a saída do Liverpool, ao tempo em que Distin, Fellaini e Cahill ganhavam a ampla maioria das disputas por cima. Vale destacar a atuação individual de Fellaini. O belga de 1,94m e cabelo “Black Power” é um jogador inteligente, frio e com bom passe. Domina a função de volante, sempre bem posicionado e sabendo usar o porte para compensar a falta de velocidade.

O primeiro gol do jogo saiu em uma bola longa do Everton e uma falha clamorosa da defesa do Liverpool. O goleiro Howard deu um chutão para o campo adversário e Jelavic venceu a disputa aérea com Skrtel. Carragher ficou com a sobra mas, atrapalhado por Agger, chutou em cima da marcação de Cahill. A bola sorriu para Jelavic, livre demais (quase impedido), abrir o placar. Foi uma lambança.

A mudança no placar esquentou o jogo e tornou os vermelhos mais agressivos, principalmente na marcação. Com a linha defensiva mais adiantada, o Liverpool conseguiu igualar mais o jogo. O Everton passou a tentar saídas rápidas de contra-ataque, mas esbarrou na incapacidade de Osman e Gueye, que são esforçados mas limitados tecnicamente.

Ao final do primeiro tempo, a proposta de jogo do Everton, não somente pelo gol, foi a melhor sucedida.

Downing encontra seu espaço

Os mesmos 22 jogadores voltaram para o segundo tempo, mas “King Kenny” mudou o Liverpool para melhor. Os meias-extremos trocaram de posição, passando a atuar com “pé invertido”. Pela direita, o canhoto Downing passou a combinar com Johnson e gerar perigo. Logo aos dois minutos, Carroll perdeu gol feito ao cabecear para fora cruzamento de Downing.

Sem aguentar o ritmo, Gueye começou a comprometer, deixando Baines sempre contra dois marcadores. Aos 15 minutos, Downing e Johnson encontraram espaço novamente e foi a vez de Henderson perder o gol. A imagem abaixo mostra o momento do cruzamento. Henderson e Suárez atacam o primeiro poste, enquanto Caroll busca o segundo.

Neste momento, Moyes chamou Seamus Coleman no banco e começou a preparar uma substituição. Não deu tempo. Carroll escorou de cabeça para Suárez entre Baines (fora de posição pela preocupação com Downing) e Distin. O zagueiro francês ganhou a frente da jogada, mas acabou entregando a bola para Suárez em tentativa de recuo. O uruguaio invadiu a área livre e empatou.

A imagem acima evidencia como o mau posicionamento de Baines permitiu o espaço para Suárez. Mas o erro de Distin, ou retribuição do favor, foi determinante para o gol.

Everton apela nos chutões

Logo após sofrer o empate, o treinador David Moyes completou a troca que queria. Coleman, lateral convertido em meia, entrou na vaga de Gueye. Três consequências imediatas puderam ser notadas. Coleman passou a jogar rente à linha lateral, no lado direito. Veloz, o garoto passou a agredir o lado defendido por Agger. Osman mudou de lado e passou a acompanhar mais de perto as subidas de Johnson. Fellaini e Cahill trocaram de posição.

Moyes usa essa alternativa com frequência nos jogos em Goodison Park. Fellaini se torna referência na meia lua da área e passa a ser um “pivô aéreo”. Ou escora para trás, para o chute de Cahill, ou tenta casquinha para a corrida de Jelavic. Foi assim a melhor chance do Everton no segundo tempo, quando o belga ganhou por cima e criou oportunidade para o centroavante, que chutou na rede pelo lado de fora.

Com jogo mais equilibrado e o Everton mais encorpado, Dalglish tentou a última cartada (Maxi Rodríguez havia entrado no lugar de Henderson) e foi feliz. Percebendo que Baines sentiu desconforto, o técnico do Liverpool mandou a campo o velocista Bellamy na vaga de Downing. O galês entrou com gás e estrela.

Na primeira jogada, passou fácil por Baines e cavou escanteio na disputa com Osman. Na sequência da cobrança, Gerrard sofreu falta do lado da área, pela esquerda. Bellamy cobrou e Carroll, de nuca e talvez sem querer, virou o jogo.

Faltando dois minutos para o final do tempo regulamentar, o Everton foi pro tudo ou nada. Baines deu lugar a mais um grandalhão, Anichebe. Agora, era chutão de onde quer que fosse, na direção da área do Liverpool. Entretanto, o time não se reorganizou para cobrir a lateral-esquerda e Suárez passou a jogar livre por ali. O uruguaio em uma jogada criou uma chance clara para Maxi, salva por Howard. E nas outras, segurou a bola até acabar o jogo.

Um clássico geralmente é uma partida com mais transpiração que inspiração, mas o dérbi de Merseyside foi um exagero. Dois gols saíram em falhas grotescas e outro em bola parada. Ficam algumas perguntas sem resposta. Por que Dalglish optou por Agger ao invés do natural José Enrique na lateral-esquerda? Por que Royston Drenthe não consegue emplacar em nenhum clube? Por que alguém aceitaria pagar 35 milhões de libras por Andy Carroll?

A certeza é que Wembley receberá um grande espetáculo no dia 5 de maio, quando Chelsea e Liverpool disputarem a final de mais uma FA Cup.

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Equipe Trivela

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