Bola na Rede – A Batalha do Bi

Entre as décadas de 1950 e 1960, o futebol brasileiro convivia assiduamente com a presença de cronistas e/ou escritores nas páginas dos principais jornais cariocas. Seja pelo esgotamento do gênero crônica, seja pela proliferação dos manuais de redação entre a mídia impressa nacional, fato é que a figura do cronista foi, pouco a pouco, perdendo espaço para o colunista de esportes – aquele profissional que, na maior parte das vezes, procura ser correto e analítico em seus textos, mas que não possui talento literário nem humor em sua escrita.

Se hoje Nelson Rodrigues aparece como patrono maior da crônica de esportes no Brasil, nunca é tarde para registrar a genialidade de Stanislaw Ponte Preta (pseudônimo do jornalista Sérgio Porto), que foi homenageado em 1993 pela Editora Civilização Brasileira com uma reunião de crônicas a propósito da campanha do Brasil na Copa do Mundo do Chile, em 1962. E nunca é tarde, igualmente, para o leitor perceber como a falta de humor nos textos futebolísticos contraria a tradição dos melhores escritores que se debruçaram a escrever sobre o ´esporte bretão´ nas páginas dos jornais brasileiros. Essa talvez seja a maior virtude ao se ler o livro ´´Bola na Rede – A Batalha do Bi´´, que traz os textos de Stanislaw a respeito dos seis jogos da seleção brasileira no Mundial do Chile. A cada relato, o leitor percebe que o futebol brasileiro era de fato mais alegre, dentro e fora de campo, na época em que a crônica andava de mãos dadas com o esporte.

Nascido em 11 de janeiro de 1923, Porto começou a trabalhar em jornal a partir de 1949, fazendo reportagens policiais e esportivas, cuja experiência certamente ajudou-lhe a aguçar o coloquialismo descontraído e o estilo irreverente que iriam notabilizá-lo como um dos principais homens da imprensa brasileira nos anos 50 e 60. Foi no jornal Última Hora, no Rio de Janeiro, que ganhou notoriedade e consagrou seu talento humorístico, repartido posteriormente em diversos outros jornais e revistas, além de contribuições no rádio e na TV como redator, locutor e apresentador de programas.

O excesso e a diversidade de atividades a que se entregava, aliados a uma saúde debilitada, fulminaram Sérgio Porto com uma seqüência de três enfartes. O último deles, em 29 de setembro de 1968, abreviou, aos 45 anos, a carreira de uma das mais divertidas figuras que o jornalismo brasileiro conheceu e que teria completado, em 2003, seus 80 anos de vida.

O pseudônimo Stanislaw Ponte Preta começou a ser utilizado por Sérgio Porto no Diário Carioca, inspirado no nome de um personagem satírico de Oswald de Andrade – o Serafim Ponte Grande. É de Stanislaw Ponte Preta, por exemplo, a criação dos personagens e textos mais conhecidos de Sérgio Porto: Tia Zulmira e Primo Altamirando, além da célebre seqüência de crônicas do Febeapá (Festival de Besteira que Assola o País), publicadas em dois volumes na década de 1960.

Na obra ´´Bola na Rede – A Batalha do Bi´´, pode-se notar que a escrita de Stanislaw é um grande exercício do olhar, já que ele escreve os textos sentado na tribuna do estádio, ao mesmo tempo em que o jogo acontece. Trata-se de comentários jornalísticos que compõem uma espécie de ´reportagem esportiva´, em que a metalinguagem e o tom ficcional estão sempre presentes, aproximando o texto escrito da linguagem falada, em função da instantaneidade do discurso. Essa espécie de linguagem moleque e travessa acaba por destruir os padrões da norma culta da língua e, junto com o riso, cria uma nova linguagem, de cores e modos bem cariocas. O uso de termos e frases coloquiais quebra aos poucos a austeridade do discurso e dá mostras do que hoje seria chamado de ´politicamente incorreto´, como se vê no trecho em que Stanislaw se refere à seleção da então Tchecoslováquia:

´´Brasil em campo de camisinha amarela. Agora os tcheco-eslovacos… Chi, quando o jogo começar não vai dar tempo de escrever o nome desses caras. É grande demais. Fica combinado o seguinte: daqui por diante os tcheco-eslovacos ficam sendo só tchecos, tá?´´

Ou então quando o cronista, de modo irônico, refere-se ao fato de as torcidas do Corinthians e do Flamengo representarem as camadas mais populares do país – daí o erro proposital na concordância da frase: ´´Deve ter corintiano e rubro-negro à beça aí no Brasil, dizendo que ´nós já é bi!´´´. São tantos os exemplos que o leitor precisa familiarizar-se rapidamente com o mundo do futebol, sob pena de perder as referências contextuais. E isso provoca ainda mais o estreitamento e a cumplicidade entre locutor e interlocutor, instaurando o tom de familiaridade, de ´conversa fiada´, de confidência, que caracteriza a crônica. Em outro momento, diz Stanislaw:

´´A defesa fica olhando Hernandez mandar uma bomba que Deus me livre. Gilmar agarrou Leonor pela saia. Não demorou muito e Garrincha entrou na área, driblou João I, João II, cobriu João III e, quando ia chutar, João IV fez pênalti. Seu Godofredo disse que não. Se o suíço deixasse, o apito apitava sozinho´´ (Para quem não sabe: Leonor é o termo coloquial e familiar atribuído à bola do jogo; João era o nome dado por Garrincha a seus marcadores estrangeiros – não sabendo pronunciar os nomes dos atletas europeus, Mané Garrincha os definia como ´Joões´).

O problema dessa edição da Civilização Brasileira é que não há nenhuma referência ao veículo em que essas crônicas foram publicadas, nem às respectivas datas. Superado esse detalhe, o leitor poderá notar como os textos de Stanislaw Ponte Preta dão prosseguimento a uma tradição literária e humorística própria das narrativas de futebol no Brasil, cujo paradigma foi inaugurado por Nelson Rodrigues e perpetuado por cronistas contemporâneos, casos de José Roberto Torero, Luis Fernando Veríssimo, João Ubaldo Ribeiro e Mario Prata, entre outros. Pena que nenhum desses seja visto com freqüência em nossas páginas esportivas. Enriqueceriam o trabalho da grande imprensa brasileira, por vezes anódina e asséptica em suas coberturas sem imaginação.

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