Blanc: zagueiro do gol de ouro

Ele levantou a Copa do Mundo de 1998. E dois anos depois botou no peito a medalha dourada de campeão da Eurocopa. Fez parte da melhor França de todos os tempos. Era titular daquele time com Barthez, Thuram, Desailly, Deschamps e Zidane.

Diferente dos antigos companheiros, o ex-zagueiro Laurent Blanc não viveu seu momento mágico nos 3 a 0 sobre o Brasil ou na virada sobre a Itália, em 2000. E sim num jogo, teoricamente, menos importante.

Oitavas de final da Copa. Estádio Felix Bollaert, em Lens. No campo, a favorita e até então não badalada França penava para derrubar o valente Paraguai de Chilavert, Gamarra e Carpeggiani. Até Blanc resolver se atirar para a frente.

Aos 8 minutos do segundo tempo da prorrogação, o meia Pires entrou na área e cruzou para Trezeguet na marca do pênalti. Marcado por dois, escorou da cabeça para o lado. Por ali entrava Blanc. Um chute poderoso e violento. Uma bomba que fez todo o território francês explodir. Foi o primeiro – e único – gol de ouro em uma Copa.

A missão de Blanc no torneio estava cumprida. Só que não precisava ter levado isso tão a sério. Tomou o segundo cartão amarelo na semi-final contra a Croácia e ficou de fora contra o Brasil. Assistiu do banco o chocolate de Zidane.

Aparentemente, gostou do lugar. Tanto que após encerrar a carreira, em 2003, decidiu tentar a sorte como treinador. E começou com o mesmo brilho da amada “geração de 98”.

Amado e odiado pelo mesmo time

Laurent Blanc carrega no currículo a mística de salvador. A curiosidade vem antes do gol de ouro de 1998. No início da carreira, no Montpellier, onde assinou o primeiro contrato profissional, em 1983, jogava como meia-atacante. Próximo do gol adversário, foi peça chave para o acesso à primeira divisão quatro anos depois.

Entre os grandes, descobriu-se que a defesa vazava pelo alto. A solução estava em casa, no 1 metro e 92 de altura de Blanc. Convencido a atuar como zagueiro, estancou as bolas aéreas dos inimigos e o time se estabilizou. O ápice veio com a conquista da Copa da França, em 1990.

O título abriu os olhos de outros clubes e Blanc desembarcou no Nápoli. Embora titular, não gostou da Itália e resolveu voltar para casa. Entretanto, o Montpellier, insatisfeito e revoltado com sua saída na temporada anterior, não o quis.

Tudo bem. Na França, o zagueiro não tinha dificuldades em arrumar um emprego. Aceitou a proposta do pequeno Nimes, hoje na segunda divisão. Encarou como um recomeço, e em menos de um ano já estava no Saint Etienne.

E de novo, tornou-se a estrela no meio de um time tecnicamente fraco. A consequência foi a quase queda para a segunda divisão, que só não aconteceu, coincidentemente, por causa do Montpellier. O primeiro clube de Blanc vivia um inferno astral. Naufragava em dívidas e não tinha autorização da Federação Francesa para jogar a primeira divisão enquanto não resolvesse a crise nas finanças. Em 1994/1995, o Saint Etienne agradeceu.

Medo de não ir à Copa

Apavorado com a situação e temendo um revés na carreira, Blanc autorizou seus empresários a procurarem um outro time. Pensou em ir para o exterior outra vez. Mas a melhor proposta foi a do Auxerre.

Uma temporada apenas, titular absoluto e duas taças. Copa da França e campeão nacional. Os títulos abriram as portas para a Espanha. O Barcelona o desejava para formar um time dos sonhos. E lá foi ele, no maior desafio, até então, da carreira.

A estada na Catalunha seria o impulso final para o técnico Aimé Jacquet convocá-lo para a Copa 1998. Mas não foi. O zagueiro resolveu topar a aventura no Camp Nou porque tinha o respaldo de Johan Cruyff, na época treinador do Barça.

Para azar de Blanc, mal tinha chegado à nova casa e Cruyff foi demitido. Para piorar, se lesionou e ficou meses de fora. Mesmo assim, foi campeão da Supercopa Espanha e da Copa dos Campeões das Copas, antigo torneio organizado pela Uefa que reunia os campeões das copas nacionais.

Blanc sequer participou da fase final da competição devido às dores no joelho. Temendo desvalorização, rescindiu o contrato. E começou tudo de novo no Olympique de Marseille. A última chance de ir à Copa.

O presidente de Marseille

Em Marseille ganhou o apelido de “presidente”. Liderou a defesa na campanha do quarto lugar na primeira divisão e carimbou, definitivamente, o passaporte para a Copa.

Depois do título mundial, o assédio sobre Blanc foi grande. Inter de Milão, Milan e Manchester United. Todos queriam a classe do zagueirão. O Olympique bateu pé e conseguiu segurar seu líder. Resultado: vice-campeão nacional e vice da Copa da Uefa.

A Inter aumentou a pressão e levou, finalmente, Blanc para Milão. Os dois anos na Itália foram suficientes para a torcida idolatrar o defensor e o eleger como o melhor jogador do clube em 2000, quando também se aposentou da seleção, depois de 97 jogos.

Foi aí que Alex Ferguson entrou em ação. Viajou à Itália prometendo só voltar a Manchester com o zagueiro. Era o nome ideal para substituir Jaap Stam, de saída para a Lazio.

Blanc, que nunca foi de fincar raízes por muito tempo por onde passou, decidiu ir. Acertou. Fez história ao vencer a Premier League em 2002/2003. Antes, porém, enfrentou a fúria dos diabos vermelhos que o vaiavam em Old Trafford. Fergusson peitou os fanáticos e manteve o zagueiro. O resultado compensou.

A arrancada do técnico

A Premier League significou o ponto final para Blanc. Afinal, melhor sair em alta e pela porta da frente do que tentar enfrentar a idade de 35 anos e o cansaço. A gana por mais títulos continuou. No banco de reservas.

Dois mil e sete marcou o início do novo Lauren Blanc, o técnico. O Bordeaux apostou e ofereceu-lhe um contrato de dois anos para substituir Ricardo Gomes. A primeira temporada foi um sucesso com o vice da primeira divisão, atrás do até então imbatível Lyon.

E a segunda foi dourada. Bordeaux campeão depois de 10 anos. De quebra, o trofeu da Copa da França e contrato renovado por mais dois anos. Uma forma de agradecimento ao homem que devolveu a alegria ao Estádio Chaban-Delmas.

Laurent Blanc, o primeiro da “geração de 98” a ganhar um grande título como treinador, quer mais. O sonho é a Liga dos Campeões.O Bordeaux está no Grupo A e estreou segurando a Juventus em Turim. Por que não?

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Equipe Trivela

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