Bem ou mal, poloneses

Independente do resultado que a Polônia conquistar na sua estreia pela Euro 2012, podemos esperar determinadas reações por parte dos mais simplistas. Caso os anfitriões vençam os gregos, o resultado poderá ser tratado com certo desdém, atrelado a críticas por contarem com “estrangeiros cooptados para defender outra seleção”. Em caso de resultado negativo em Varsóvia, seja uma derrota ou um nada desastroso empate, com deboche, os mesmos dirão que não adiantou usar de artimanhas para reforçar uma seleção para lá de mediana. De uma forma ou de outra, estarão cometendo uma injustiça.

Em parte, por razões técnicas: nenhum dos “novos poloneses” está com essa bola toda para mudar o nível de uma equipe. Os principais destaques da seleção local são Piszczek, Blaszczykowski (chame-o de Kuba, ele prefere assim e você também) e Lewandowski, trio titular no bicampeão alemão Borussia Dortmund. Por mais que Ludovic Obraniak seja visto como um dos principais articuladores do time, não é pelos pés dele que passa a esperança do país, embora ele tenha muito a contribuir, tendo atingido relativo sucesso nos amistosos de preparação para a competição. A mão-de-obra “importada” é qualificada sim, muito mais por ser composta por jogadores que atuam em centros maiores do que pelo talento que possuem.

Mas a razão principal para não cair no erro de dar importância exagerada ao caso é que a Polônia não é o Qatar, que saiu por aí tentando contratar jogadores que não tinham relação alguma com o país árabe. Goste-se ou não, os “novos poloneses” chegaram todos respaldados pelas suas origens. Polanski, Boenisch e Matuszczyk nasceram por ali e, ainda crianças, seguiram com seus pais para a Alemanha, onde construíram suas vidas. Os dois primeiros têm as situações mais criticadas, por terem passado por seleções de base germânicas, onde até chegaram a ser apontados como capitães.

O regulamento da Fifa permite que alguém defenda outra seleção no profissional, justamente para evitar arrependimentos em decisões tomadas por jovens imaturos. Acaba servindo também para dar uma segunda chance àqueles que não vingaram na seleção daquele país, abrindo uma nova porta para que joguem grandes competições entre seleções. Há algum tempo, Klose, Podolski, e Trochowski, todos nascidos na Polônia, optaram por defender a Alemanha, sem que isso tivesse gerado a mesma polêmica, ao menos internacionalmente. Por que uma decisão seria aceitável e a outra não?

No caso de Perquis e Obraniak, franceses de nascimento, temos de recorrer à árvore genealógica para confirmar sua ligação com a Polônia. E refletir se tê-los abraçando as origens de seus antepassados, mesmo que motivados por segundas intenções, não é algo a se comemorar, mais do que criticar. Afinal, a preservação de culturas está muito mais na manutenção de hábitos, costumes e outros bens imateriais (como uma seleção esportiva, por que não?) do que nos limites políticos e geográficos.

Identificação com uma pátria não é algo fácil de mensurar

O mundo está cheio de descendentes de pessoas que se refugiaram em outras nações para fugir de guerras ou buscar melhores condições de vida. Como nem toda sociedade está preparada para lidar com a chegada do diferente, é bastante comum que aqueles que migram em massa acabem vivendo em uma espécie de gueto, declarado ou não, gerando pesada tensão social, como vimos recentemente em bairros da periferia de Paris e de Londres. Mesmo em países onde a situação parece mais controlada, isso continua acontecendo. Um exemplo ligado ao futebol: muitos descendentes de turcos nasceram e moram na Alemanha, mas na prática o fazem como se vivessem na Turquia. E para cada Mesut Özil, que escolheu defender a pátria onde nasceu, existe um Nuri Sahin, que preferiu vestir a camisa da nação de seus antepassados.

É certo que muitas destas decisões são tomadas por razões profissionais. Um jogador que tem presença regular na base de uma seleção pode deixar sua consciência em segundo plano na hora de optar por uma delas. O que não impede que possam também ser tomadas com base na identidade daquele jovem cidadão. A forma como o novo país acolheu ou negligenciou aquela pessoa deve ser fundamental na tomada desta decisão, tanto quanto o modo com que a família soube injetar aquelas origens em sua formação. Você deve conhecer alguém que se mudou de outro estado para o seu, trazendo hábitos alimentares e um jeito diferente de falar ou mesmo de se socializar. Nem por isso, eles deixaram de se adaptar, podendo inclusive terem desenvolvido uma espécie de cultura mista, unindo os novos costumes aos antigos.

Se há algo feio nessa história toda, é o timing. A Polônia só correu atrás desses jogadores depois que fez péssima campanha na Euro passada. Para evitar um vexame dentro de casa, entenderam que teriam de reforçar o plantel. E era mesmo mais rápido procurar por jogadores prontos que tivessem ascendência polonesa do que forjar uma nova geração de atletas em apenas quatro anos. Mas antes de apedrejar a Federação Polonesa, o técnico Franciszek Smuda, um dos principais articuladores do expediente escolhido, ou mesmo os jogadores, cabe questioná-los sobre que relação eles mantêm com a Polônia de seus ancestrais. E mesmo que você não confie nos ensaiados discursos que nascerão disto, de repente eles têm um pai, um avô, ou um primo distante polonês que lhe dirão, com os olhos cheios d’água, o quanto é bom vê-los vestindo aquela camisa vermelha.

Obraniak tem sido muito criticado por ainda não dominar o idioma polonês, ou por falá-lo com grande sotaque francês. Talvez o meia nem pensasse na sua origem polaca quando assinava o seu sobrenome em um contrato. Mesmo que ele fosse assim, algo que não podemos afirmar ou negar, é positivo saber que a oportunidade de jogar pela Polônia o tenha feito redescobrir as suas raízes. Isso não o tornará menos francês, mas poderá torná-lo mais polonês. Feito de forma criteriosa e sem nacionalismos exacerbados, só ajudará a preservar e passar adiante a cultura de sua família. Por linhas tortas, acaba sendo um grande negócio para Ludovic. Tanto no pessoal, quanto no profissional, já diria um certo apresentador.

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo