Bangladesh: Por um lugar ao sol

Existem muitos países pequenos que, apesar de independentes, parecem sofrer para desenvolver uma identidade própria longe das raízes coloniais. Assim é o Bangladesh, uma república parlamentarista cercada em suas fronteiras pela Índia e que ainda não conseguiu deixar de ser apenas isso: um território ao lado da Índia.

Por muito tempo sob o controle do Império Britânico, a região transformou-se no leste do Paquistão, após a partição do território indiano, em 1947. Apesar de terem os mesmos costumes e religião, os povos do oeste e do leste continuavam divididos por uma faixa de terra da Índia que atravessava o território. Negligenciados, os bengalis do leste declararam sua independência em 1971 – é um país ainda jovem, portanto.

Com uma política instável, altos níveis de pobreza e economia basicamente agrícola, ainda que com uma indústria têxtil emergente, Bangladesh é muito populoso e tem uma das maiores densidades demográficas do planeta: 1.045 pessoas por quilômetro quadrado. Para ter uma idéia melhor, basta imaginar toda a população dos 11 estados mais habitados do Brasil – São Paulo, Minas, Rio, Bahia, Rio Grande do Sul, Paraná, Pernambuco, Ceará, Pará, Maranhão e Santa Catarina – colocada dentro do Ceará.

O esporte nacional é o Kabaddi (‘canto’, em hindu), herança indiana no mínimo curiosa. No Kabaddi, duas equipes de sete jogadores se enfrentam em uma quadra no que mais parece uma brincadeira infantil: um competidor avança para capturar um adversário em sua quadra e forçá-lo para fora da risca, o que vale um ponto. Entretanto, o ‘explorador’ não pode respirar durante a caça, e deve demonstrar isso cantando ininterruptamente – daí o nome do esporte. Enquanto isso, o time defensor se junta dando as mãos, como em uma corrente, para impedir que o oponente retorne a sua metade da quadra antes de voltar a respirar. Se ele parar de cantar, está fora, e os defensores marcam um ponto.

O críquete também é muito popular em Bangladesh, e a seleção nacional é considerada força média no esporte. Curioso perceber, portanto, que a influência inglesa na cultura do país – presente na região desde a época da Companhia Britânica das Índias Orientais – transformou o críquete em um esporte bastante difundido, ao passo que o futebol bengali ainda engatinha.

Futebol amador

Não demorou muito, após a criação do novo país, para ser fundada a federação de futebol local. Foi em 1972 que a BFF, como é conhecida, foi criada e, dois anos depois, afiliada à Fifa. Apesar de totalmente amadora à época, a seleção local conquistou resultados razoáveis nos primeiros anos, classificando-se, inclusive, para sua única participação em uma fase final de Copa da Ásia, em 1980, no Kuwait.

Foi nessa época que jogou Kazi Salahuddin, considerado o maior nome do futebol bengali. O atacante, que por pouco não se transformou em um jogador de críquete, é considerado herói nacional por ter defendido o Swadhin Bangla Football Dal, um time que disputou partidas na Índia em 1971, levantando fundos para a guerra de independência de Bangladesh. Contratado pelo Caroline Hill, de Hong Kong, permanece como o único futebolista bengali a ter atuado como profissional.

Tal constatação parece absurda no futebol atual, que movimenta milhões todos os anos nos grandes centros. Entretanto, a realidade da maioria dos países é muito mais próxima da vivida em Bangladesh do que da apresentada em sua antiga metrópole, a Inglaterra, que possui uma das ligas mais prestigiadas. De fato, até 2004, não existia em Bangladesh um campeonato verdadeiramente nacional. A Dhaka League, o mais próximo disso, era disputada apenas pelos clubes da capital.

Foi só em 2007 que uma liga nacional surgiu – a B League, que conta com 11 equipes (nove da capital e duas de Chittagong, segunda maior cidade). O campeão foi o Abahani, segundo maior clube do país, que ficou à frente do Mohammedan Sporting Club, principal rival e maior vencedor da extinta Dhaka League. Curiosamente, Kazi Salahuddin defendeu ambos os times, embora tenha passado a maior parte de sua carreira no Abahani.

A B League foi fruto de investimentos tanto da Fifa, com o projeto Goal, quando da Confederação Asiática, com o Vision Asia. A federação local recebeu dinheiro para a construção de campos de treinamento e verbas para o desenvolvimento de trabalhos nas categorias de base. Como contrapartida, viu-se obrigada pelas duas entidades a criar uma liga um pouco mais séria.

Os anos dourados

Por seu perfil amador, o futebol bengali sofre em competições internacionais. Os jogadores não têm experiência fora do país, atuando apenas em clubes locais. Isso resultou em campanhas sem nenhum brilho nas sete eliminatórias para a Copa do Mundo que disputou. Apesar de vitórias surpreendentes sobre Indonésia e Tailândia logo na primeira participação, no qualificatório para a Copa de 1986, Bangladesh jamais causou qualquer impacto nas preliminares.

O máximo que conseguiu foi deixar a lanterna para a Mongólia, na primeira fase das eliminatórias para a Copa de 2002, marcando cinco pontos em seis jogos. Foi exatamente nessa época que a seleção bengali viveu sua melhor fase até hoje: após consecutivas derrotas para Índia, Bangladesh conseguiu, em 1999, o ouro no futebol dos Jogos Sul-Asiáticos, competição que acontece a cada dois anos na região – e que, entre outras modalidades, promove também o Kabaddi. O país organiza, inclusive, a edição 2008 do evento.

Em 2003, Bangladesh alcançou seu maior feito: a conquista da Copa das Federações Sul-Asiáticas, promovida a cada dois anos com o aval da AFC. O fato de que Bangladesh foi o país-sede e de a final ter sido jogada contra as Ilhas Maldivas, histórica freguesa, pouco interessa. Empurrada por cerca de 50 mil torcedores que lotaram o Estádio Nacional Bangabandhu – recorde de público de todos os tempos em uma partida de futebol no país –, a equipe derrotou na semifinal a poderosa (ao menos na região) Índia, por 2 a 1. Rokonuzzaman Kanchan e Motiur Munna, autores dos gols, foram carregados nos ombros pelos torcedores ao final da partida.

Contudo, as campanhas nas eliminatórias para as Copas de 2006 e 2010 foram desanimadoras: em ambas, eliminações ainda na fase preliminar, frente ao Tadjiquistão. Em outubro de 2007, uma derrota por 5 a 0 enterrou o sonho bengali de ir mais longe. Após a derrota, o técnico indiano Syed Nayeemuddin foi demitido. Talvez esse seja um passo a mais para que o futebol do país saia da eterna sombra do vizinho.

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Equipe Trivela

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