Áustria: Nausch, o herói perdido

Uma das sedes da Eurocopa-08, a Áustria vive a expectativa de disputar o torneio de seleções mais importante da Europa. Só que o que poderia ser animador se transformou em aflição. O futebol do país vive um dos piores momentos de sua história, fato comprovado pela seqüência de nove derrotas, que só interrompida após a vitória diante da Costa do Marfim, em outubro do ano passado.

O decepcionante futebol apresentado principalmente nos dois últimos anos e a vergonhosa 101ª colocação no ranking da FIFA levaram um grande número de torcedores a sugerir até mesmo que a seleção desistisse da disputa do torneio. Nem sempre, no entanto, a história do “Das Team” foi assim melancólica. Entre os anos 20 e 30, quando o esporte era mais amador do que profissional, a Áustria deu as cartas no futebol continental.

Comandados pelo técnico Hugo Meisl, influenciado pelo amigo e também treinador, o escocês Jimmy Hogan, foi o responsável pela montagem de uma seleção de futebol diferenciado. A alcunha “Wünderteam”, ou, “time maravilhoso” descrevia bem a maneira de jogar daquela seleção.

Foi a partir de uma vitória contra a Escócia por 5 a 0, em 1931, que a equipe começou a encantar, chegando a uma marca de 15 jogos sem perder. Um ano depois, a seleção já havia definitivamente estabelecido o sistema “Total Football” que valorizava a troca de passes curtos. Mais tarde, apesar de ter conquistado apenas a quarta colocação, a participação na Copa do Mundo em 1934, consagrou este time e o maior jogador de futebol da história do país, Matthias Sindelar.(http://www.trivela.com/Conteudo.aspx?secao=31&id=9381)

Porém, há 70 anos, a repressão do regime nazista e anexação da Áustria à Alemanha, o “Anschlüss” decretaram o fim do Wünderteam e a debandada de muitos jogadores austríacos, principalmente os judeus. Entre aqueles que se recusaram a defender a seleção alemã estava Walter Nausch, jogador versátil, cuja posição de volante não raras vezes foi substituída pela de zagueiro ou até mesmo de atacante.

Nausch não aparecia entre as grandes estrelas daquela equipe, mas foi o que mais relutou em, naquele momento, encerrar sua trajetória pela seleção de seu país. O jogador acompanhou a invasão da Áustria pelas tropas alemãs, assistiu à morte de seu companheiro Sindelar – um episódio envolto em mistério – mas não desistiu. Identificação e envolvimento tão raros nos dias de hoje.

Essencial ao meio-campo do Áustria Viena ao lado de Sindelar levou o time à final da Copa Mitropa, competição precursora da Liga dos Campeões, contra a Internazionale de Milão e a vitória por 3 a 1 no estádio San Siro assegurou o primeiro título continental da história do clube. Feito repetido por eles em 1936 e que nunca mais foi alcançado.Além desta conquista, equipe da capital ainda comemoraria um título nacional e algumas copas.

Porém, pouco mais tarde, assim como a seleção, o Áustria Viena também foi fortemente reprimida durante a ocupação nazista. Com o grande número de judeus em seu elenco e em sua diretoria, e pela maneira “não alemã” de jogar futebol, praticamente todos foram obrigados a deixar o time. Na época, Nausch deixou bem claro sua posição contrária ao regime nacional socialista e talvez tenha sido apenas sua popularidade que o fizera escapar da morte.

Sem muita alternativa; Walter Nausch, que era casado com uma judia, assim como outros companheiros de seleção, fugiu para a vizinha Suíça. Mas nem o período de instabilidade o fez abandonar o futebol. Ainda durante a Segunda Guerra Mundial, entre 1940 e 1948 assumiu o comando do Young Fellows Zurich.

O tempo daria outra oportunidade à Nausch. Em 1954, com o ressurgimento da seleção de seu país, ele foi convidado a dirigir a seleção austríaca na Copa de 1954 e levou-a ao terceiro lugar, o melhor desempenho da seleção na história das Copas do Mundo.

Walter Nausch faleceu em 1957, de infarto no Café Prückel, logo após assistir uma derrota de uma Áustria que já não era o “Wünderteam”. A Viena do “Wundetream”, de Sindelar, Nausch e dos cafés já não existe. E é com elas que sonham os austríacos.

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Equipe Trivela

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