Anjos Brancos
Alguns meses antes da Copa de 2006, fui surpreendido ao passar por uma livraria e me deparar com o livro ‘Anjos Brancos’ de John Carlin. O subtítulo mencionava ‘os bastidores do Real Madrid’ e a capa trazia uma foto onde Beckhan e Robinho comemoravam um gol. Comprei-o imediatamente.
Não tinha ouvido falar de tal projeto, trata-se da primeira edição traduzida no Brasil, a qual trás alguns equívocos, tais como Totti sendo colocado como jogador da Juventus na página 21. Ou o fato de algumas esquadras da Itália, como a própria Juventus e Roma, sendo tratadas no masculino. Além da construção de alguns períodos que ficaram um tanto quanto confusos (por exemplo na pág 44: “O argentino não apenas não tinha convencido nos dois anos desde que o Manchester United tinha quebrado o recorde de valor de passe para comprá-lo, como tinha passado um mês contundido e certamente não estava na forma física e mental necesssária para aquela noite.”). Estes detalhes poderiam ser revistos nas próximas edições.
O autor John Carlin é um jornalista que disseca de maneira detalhada os bastidores da ‘era galáctica’ idealizada por Florentino Pérez. Desde depoimentos do técnico Vicente Del Bosque, passando por Jose Angel Sanchez diretor de marketing do clube até Rolf Beisswanger presidente da Siemens. Há sim um certo respeito pela vida e obra de Florentino Pérez até para garantir um caráter do tipo ‘biografia oficial’ ao livro. Mas muito daquilo que a diretoria do Real Madrid realizou naquele período não foi mais do que uma jogada de marketing. Talvez a maior e a mais bem sucedida de toda história do futebol, diga-se de passagem.
A contratação e o processo de transferência de Mr. David Robert Joseph Beckham do Manchester United para o clube merengue é colocada como o epicentro de toda a ‘era galactica’. Ok. Para nós brasileiros principalmente, Beckham às vezes não passa de um galã hollywoodeano travestido de jogador. Ao contrário do que também pensavam os madridistas, Beckham não era um inglês arrogante. São relatadas as suas primeiras coletivas. Numa delas concedida ao próprio autor do livro, Beckham em sua chegada a Madrid, coloca-se em condição de extrema humildade quando questionado sobre o fato de atuar lado a lado de galácticos como Zidane, Figo ou Ronaldo. Sua principal motivação seria provar que era um atleta de fato e não uma mera celebridade.
Desde aquele momento de crise em Old Trafford à chegada a Espanha, Beckham possivelmente estaria se tornando um ícone da cultura pop européia e que rapidamente seria exportado para o resto do mundo vestindo o ‘rótulo’ do Real Madrid. Hype era ir para uma balada em Nova York vestindo a camisa 23 dos ‘blancos’. Nem mesmo Pelé ousou sonhar com status parecido…
E não seria a megalomania que envolve o Real Madrid digna da megalomania das grandes bandas e dos grandes astros do rock? Repentinas passagens do ápice para a decadência, aplausos inesperados seguidos de vaias incompreensíveis? Devoção e histeria propagadas por multidões ensandecidas e estádios lotados. ‘Anjos Brancos’ de John Carlin está para o Real Madrid assim como ‘Mais Pesado que o Céu’ de Cristopher R. Cross está para Kurt Cobain.



