Animal de raça

Em 30 de outubro de 1994 (não, a minha memória não melhorou, fiz uma pesquisinha básica) eu estava escalado para cobrir o clássico São Paulo x Palmeiras, no Morumbi. Trabalhava na Gazeta Esportiva, que tinha sede no prédio da Folha, na Barão de Limeira.
Estava em Aguaí, visitando minha mãe. Peguei o ônibus pela manhã e fui diretamente para o jornal, onde pegaria o carro para ir ao Morumbi. No caminho obrigatório, passei pelo Lord Hotel, na rua das Palmeiras, em Santa Cecília, onde o Palmeiras se concentrava. Percebi que estava atrasado ao ver os jogadores se dirigindo para o ônibus.
Havia torcedores que gritavam, pedindo autógrafos. Protegidos por seguranças, os jogadores nem olhavam para o lado. Menos um. Edmundo, uma simpatia. Pegava crianças no colo, dava beijos, conversava com todos. Uma simpatia.
Na hora do jogo, um animal. Primeiramente, no sentido inventado por Osmar Santos. Um monstro em campo, autor de dois gols. E um animal mesmo, violento, dando um tapa em Juninho Paulista e causando uma briga imensa no campo.
Edmundo sempre foi assim. Um sujeito sem meio termo. Gentil ao extremo com jornalistas, agradecendo por dar entrevista, posando para fotos, mas capas de atos irracionais como jogar seu carro em cima do repórter Reinado Cabrera, da Globo. O velho Cabrera, câmera dos bons, deu um salto enorme para não ser atropelado.
Foi um dos grandes atacantes que vi. Sempre se podia esperar algo de Edmundo. Eu acho, por exemplo, que ele poderia ter sido expulso da final da Copa de 98, se sua escalação não fosse abortada pela volta de Ronaldo Fenômeno, que estava no hospital. Edmundo não perderia calado,não perderia de cabeça baixa. Alguma, ele aprontaria.
Edmundo foi o maior jogador do mundo em 1997. Tenho certeza disso. Ninguém jogou o que ele jogou naquele ano pelo Vasco. Um possesso em campo, fazendo gols com uma facilidade irritante. Rápido, forte, sem medo de zagueiros, era um cara nitidamente em busca de aceitação. Quando Eurico ficou ao lado de Romário, no Vasco, era evidente sua decepção. Edmundo, um chorão. No fim de carreira, no Figueirense, desabou emocionalmente ao final de uma partida contra o Palmeiras.
Talvez naquele momento, Edmundo estivesse se lembrando de uma das frases que mais se fala sobre ele. “Se tivesse cabeça, Edmundo teria ido muito mais longe”, dizem. Sempre discordei deles. Edmundo foi o que foi (o Palmeiras lhe deve uma despedida como essa que o Vasco fez) por causa de tudo o que sofeu na infância e por tudo o que moldou o caráter explosivo que tem.
Edmundo foi craque. Se tivesse cabeça, se aceitasse um processo de domesticação, seria o Euller. Veja o que Edmundo aprontou no clássico:



