Alessandria: Mais um na boca do fosso

Na região do Piemonte, situada a meio caminho entre Genova, Milão e Turim, fica a simpática cidade de Alessandria, pequena província de 93 mil habitantes e não distante da fronteira com a França. Na cidade, um dos orgulhos é o time de futebol, o US Alessandria Calcio, que com seus 90 anos (oficiais) de fundação permeia praticamente toda a história do esporte no país. E com a onda destrutiva que passeia pelo futebol europeu, o tradicional clube 'grigio' (cinzento, uma alusão às cores de sua camisa) corre risco concreto de sumir.

O surgimento do clube data de 1912, como sempre numa associação entre moradores locais. O Alessandria, no entanto, foi criado como um setor de um clube de ginástica, o Forza e Coraggio. A observação em relação à data é pertinente porque relatos dão conta de que atividades futebolísticas constantes já eram comuns desde as últimas décadas do século anterior. E, para não deixar de marcar a presença inglesa, o segundo treinador, já no ano de 1913, foi um britânico, George 'Giorgio' Smith.

O primeiro campeonato da Série A veio somente em 1929, mas o Alessandria não teria lá muitas atuações na divisão máxima do futebol peninsular. De 1912 até hoje foram somente 13 edições do torneio que contaram com a camisa cinza do time piemontês. Dada sua pequena estrutura, o clube sempre viveu de recursos de sua região e quase sempre com jogadores nativos.

Os anos de glória

No final da década de 50, o Alessandria viveu seu auge. No final do campeonato de 1957, Brescia e Alessandria disputaram uma partida no estádio San Siro, em Milão, para ver quem ficava na Série A. E venceu o time do Piemonte, marcando uma seqüência de três temporadas consecutivas entre os grandes do futebol italiano.

Em 1959, um garoto estreou com apenas 15 anos na Série A (um recorde só batido por um jogador chamado Amadei e por uma questão de cinco dias!). Se tratava de Gianni Rivera, jogador nascido em Alessandria e que viria a ser um dos maiores meias italianos de todos os tempos. Rivera jogou duas temporadas no clube, onde transformou a torcida alessandrina numa comemoração só. Aos 17 anos, foi contratado pelo Milan, onde jogaria por 19 temporadas, fazendo mais de 500 partidas de campeonato antes de se aposentar. Foi campeão europeu, venceu vários 'scudettos' e foi considerado o melhor jogador europeu em 1968.

Não foi só Rivera que jogou pela 'Azzurra' saindo do pequeno clube. Ao todo, foram 15 os atletas que defenderam o time nacional (entre seleções principal e 'B'), com 48 participações e oito gols. Rivera, sozinho, atuou 60 vezes, mas a maioria de suas participações no time nacional foi com as cores do rubro-negro de Milão.

O Alessandria também tomou parte num curioso episódio que teve influência em todo o desenrolar do esporte. Logo depois de terminada a Segunda Guerra Mundial, estava marcada uma partida envolvendo Venezia e Alessandria. Pouco antes da bola rolar, o árbitro responsável chamou os capitães dos dois times e disse que uma das equipes precisaria trocar de camisa, pois elas eram muito parecidas. Os capitães acharam que ele estava brincando, já que a camisa do Venezia é negra e a do Alessandria, cinza. Irredutível. O árbitro fez-se valer. Após o jogo, a federação italiana recomendou ao árbitro que fizesse um exame oftalmológico preciso, onde se constatou o daltonismo do juiz. Depois disso, o exame oftalmológico para esse desvio passou a ser obrigatório para a profissão.

Na década de 60, um momento de muito orgulho para a torcida do Alessandria: por ocasião da comemoração dos 800 anos de fundação da cidade, o Santos de Pelé foi convidado a fazer uma partida amistosa com o time local. Pelé, antes da partida, se confraternizou com o urso-símbolo do time e deixou o campo vestindo a camisa 10 do Alessandria, sob os aplausos de um estádio delirante.

O perigo da crise

Os últimos anos foram duros para o Alessandria, que está atualmente na Série C2A. O clube do Piemonte passa por duríssima crise financeira e corre o risco de sumir do mapa. Como o Alessandria está cheio de débitos, a federação italiana não permitiu que o clube contratasse novos jogadores. A situação é tão séria que o presidente já entregou ao prefeito da cidade uma carta onde diz que permite que o político encontre alguém que tenha condição financeira para tirar o clube da beira do abismo.

Por fim, outro ponto pitoresco a se anotar sobre o Alessandria é o modo como o estádio Giuseppe Moccagatta recebe seus torcedores. Para aqueles torcedores que não têm com quem deixar os filhos pequenos, o estádio oferece gratuitamente uma creche, a Casa degli Orsachiotti, com todos os cuidados que são necessários. Se compararmos com o Brasil, onde o perigo é de uma bomba explodir embaixo de seu pimpolho ou de um gentil PM arrancar sua cabeça com um cassetete, temos de olhar com preocupação o risco que corre o Alessandria. Ficam nossos votos de restabelecimento.

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