Alegrense: Alegre na TV

Toda criança adora o mês de julho. É o mês de férias escolares, 30 dias que para uma criança parecem meses de diversão e que ao mesmo tempo se aceleram à medida que se aproxima a volta à rotina das aulas. Pode-se juntar a toda esse euforia inerente as férias uma viagem a uma cidadezinha do interior do Espírito Santo, onde há uma grande família com inúmeros primos da mesma faixa etária, avós, tios, enfim, uma nova realidade a sua espera. Assim eram as férias de um menino de cidade grande, que entre uma brincadeira e outra gostava de observar, e às vezes até se meter, nas discussões dos tios sobre futebol. Mês de julho não era só mês de férias.

Numa época em que ainda não havia campeonato brasileiro por pontos corridos, com turno e returno, os campeonatos estaduais ocupavam alguns bons meses do ano, e nessa época costumavam estar se aproximando as finais. No Espírito Santo não era diferente, e a pequena cidade de Alegre sempre pode contar com o privilégio de ter um time disputando a primeira divisão do estado. No período ao qual me refiro, que vai de 1990 a 1995, o clube que arrebatava os corações de cada um dos 30 mil habitantes ainda não era o Alegrense, e sim o grande Comercial Atlético Clube. O Alegrense já existia, afinal foi fundado em 30 de janeiro de 1971, e conquistou brilhantemente em seus primeiros anos o tri-campeonato da Liga Serrana do Sul (campeonato do sul do estado) em 1971, 1972 e 1973. Mesmo com esse início avassalador, o clube logo se viu envolto em dívidas e foi desativado, sem saber que o futuro lhe reservaria um despertar digno e condizente com sua breve e vitoriosa história.

Futebol, churrasco e cerveja gelada

Mas o momento ainda era do Comercial, e o menino, com um misto de superioridade e arrogância característicos da juventude, presenciava verdadeiras 'mesas-redondas' entre os tios, sempre regadas a cerveja e churrasco. Ouvia nomes de jogadores que poderiam muito bem pertencer a bancários, a pedreiros, a médicos, pois assistia todo domingo aos 'Gols do Fantástico', e conhecia muitos nomes de jogador, alguns até esquisitos, como Bebeto, Zico, Bujica, Cocada, Romerito. Mas nunca viu sequer um gol feito pelos tais nomes citados a todo instante.

O ápice da conversa eram as comparações. Quando um dos tios esbravejava que o 'Mocotó' jogava mais do que o Bebeto, era difícil conter as gargalhadas. As arbitragens eram o segundo assunto preferido. Quando o Comercial perdia, o árbitro era um ladrão. Quando ganhava, não era diferente. “Mesmo com o juiz comprado, ganhamos!”- dizia um dos tios, provocando manifestações exaltadas dos outros. Sem nunca dar o braço a torcer, o menino associava essas reclamações ao enorme fanatismo dos tios. Sabia bem o que era isso, pois quando assistia aos jogos de seu time pela televisão e chamava o juiz de ladrão, o pai dizia que o lance havia sido normal, e que ele era 'doente' (mais tarde aprendeu que 'doente' e fanático eram a mesma coisa).

Havia uma coisa curiosa nisso tudo: o quanto se falava sobre o time da cidade era inversamente proporcional ao momento vivido pelo Botafogo, time da grande maioria da família. Sim, eles tinham dois times do coração, como todo torcedor de cidade do interior. Havia o time da cidade, que era unanimidade, e o time da cidade grande, cuja escolha dependia dos mais diversos fatores. No caso da opção pelo Botafogo, Garrincha foi o grande responsável, pois decidiu encantar o mundo com suas pernas tortas coincidentemente na época da escolha do time de grande parte da família. E justamente a fase atravessada pelo Botafogo era o termômetro da exaltação ao clube local. Nos relatos dos tios, era nítido o crescimento de produção do time do Comercial à medida que o Botafogo perdia os jogos e as chances de disputar os títulos dos campeonatos, e vice-versa. De qualquer forma, por mais que discordasse de quase tudo que ouvia, não podia negar que era divertido.

Domingo sem Maracanã

Num dos muitos domingos de julho que havia passado em Alegre, o menino deixou de assistir ao jogo da TV para, no mesmo horário, ir ao estádio com os primos e tios assistir ao jogo do Comercial. Claro que a escolha não se deu priorizando a qualidade técnica do espetáculo: o que lhe atraiu foi a farra, a oportunidade de fazer algo diferente. O estádio era grande, como os da TV, mas a grama não era tão verde nem muito menos lisinha. Podia contar alguns buracos, concentrados principalmente no meio-campo e na grande área.

Quando os dois times entraram em campo, não havia rostos conhecidos. Além disso, pareciam um pouco mais baixos do que na TV (alguns mais calvos, ou mais barrigudos), mas com o início do jogo tudo isso foi perdendo a importância. Por incrível que pudesse parecer, o jogo era bom, animado, e o time da casa pressionava sem piedade, fazendo com que o goleiro adversário tivesse que se desdobrar para impedir uma goleada. Como no futebol não existe lógica, o primeiro tempo terminou 1 a 1, pois o único ataque do time rival terminara em gol.

Ainda no início da segunda etapa, o bandeira resolve anular um gol legítimo do time da casa, e a torcida, inconformada, começa a atirar objetos em sua direção. Aproveitando a pouca distância entre as arquibancadas e o campo, alguns demonstram sua raiva com cusparadas certeiras no pobre do bandeira, que corre desesperado para o meio do gramado temendo o pior. Foi então que algo único aconteceu. A solução encontrada para recomeçar a partida foi mudar o bandeirinha de lado. Enquanto uma lateral era ocupada pelas arquibancadas, a outra era delimitada apenas por um muro que separava o campo de um rio de águas calmas. E, assim, durante 40 minutos de jogo, os dois bandeiras atuaram na mesma lateral de campo, lado a lado, prontos para pular o muro e atravessar o rio a qualquer sinal de perigo, afastados ao máximo da multidão inconformada, o que evitou que algo de mais grave acontecesse.

No final, a partida terminou empatada em 1 a 1, mas o menino começava a desconfiar que suas certezas não eram tão certas assim. Teve que admitir que, pelo menos dessa vez, os tios tinham um pouco de razão: o time da casa havia sido claramente prejudicado, e o que é pior, realmente jogava bem.

Ascensão, queda e ascensão de novo

Naquele ano, o Comercial terminou o campeonato em terceiro lugar (posição honrosa para um time do interior), mas a partir daí o time foi caindo de produção a cada novo campeonato, até que no ano de 1999 veio o temido rebaixamento para a segunda divisão estadual.

O que poderia ter sido uma ducha de água fria tornou-se a gota d'água que motivou o ressurgimento do grande Alegrense, que após 25 desativado teria sua chance de voltar e reconquistar seu lugar. Afinal, pouco importavam o preto e o branco da camisa do Comercial ou os jogadores que a vestiam. A torcida queria um time que trouxesse de volta o orgulho perdido com o rebaixamento, que fizesse novamente o povo lotar os estádios a cada fim de semana para torcer em prol não apenas de um clube, mas de uma cidade. A começar pelo próprio nome, nada mais justo do que o Alegrense ser seu novo representante. Logo em seu primeiro ano de disputa, o Alegrense foi vice-campeão da segunda divisão estadual, trazendo o nome da cidade de volta à elite no ano seguinte ao rebaixamento do antigo representante.

O combate do século

Em 2001, o Alegrense foi o representante da cidade de Alegre na primeira divisão do campeonato estadual capixaba. O menino, agora um homem, não perdeu a chance de brincar com a repentina mudança no clube do coração de seus tios. Mal sabia ele que o tal Alegrense, meses mais tarde, seria campeão estadual com três rodadas de antecedência, tornando-se o primeiro clube da história de Alegre a conseguir o feito.

Não bastasse o troféu, o clube ainda adquiriu o passaporte para disputar a Copa do Brasil de 2002. É nessas horas que Deus resolve dar o ar de sua graça e, numa espécie de brincadeira, faz com que, dentre as 64 bolinhas contendo o nome dos clubes para sorteio, fossem retiradas para confronto direto as duas bolinhas que continham justamente os nomes de Botafogo e Alegrense. Dentre todas as combinações possíveis, saiu a única e perfeita combinação que permitiria a realização de um jogo onde, para seus tios, não haveria derrota. Um momento mágico para um amante do futebol, um jogo que mesmo antes de começar já lhe assegura não sair derrotado.

Como nada é totalmente perfeito, o primeiro jogo, cujo mandante era o Alegrense, não pôde ser realizado em Alegre devido à pequena capacidade do estádio local (apenas 5 mil lugares). Mas para um time de interior, que precisou passar por cima de arbitragens, de falta de dinheiro e de tradição para chegar onde ninguém esperava, não seria uma simples mudança de local que estragaria a festa. O jogo foi então realizado no Estádio Kleber Andrade, em Cariacica, a 196 quilômetros de Alegre, e uma vitória por dois ou mais gols do Botafogo eliminaria o Alegrense da competição, sem a necessidade de outra partida.

Mas era uma oportunidade de ouro para o time do Alegrense, que além de tudo teria pela primeira vez um jogo televisionado direto, para todo o Brasil, inclusive para a cidadezinha de Alegre. Em sua casa, o rapaz imaginava a emoção de toda uma cidade, podendo ver seus ídolos na mesma telinha onde viram tantos craques consagrados atuarem. Por mais que confiassem no time, no fundo havia o temor da derrota. O time poderia sentir a pressão, se perder em campo e acabar sendo derrotado e humilhado em rede nacional. Mas o que se viu foi um jogo disputado de igual para igual, com o placar final de 2 a 2, e assim o desconhecido Alegrense forçou a segunda partida no Rio de Janeiro.

Se foi uma surpresa para todos que assistiram a partida, inclusive para a própria cidade de Alegre, não deveria ter sido para o time do Botafogo, uma vez que em seu banco de reservas havia um jogador recém-contratado chamado Ademílson. Ademílson, um bom nome para um jogador de futebol, havia sido vice-artilheiro do campeonato capixaba de 2001 pelo Alegrense e sabia muito bem do potencial de sua ex-equipe.

No jogo de volta, em pleno Caio Martins, um novo empate, mas o 0 a 0 dava a classificação ao Botafogo por ter feito gols fora de casa. Mas pouco importava. A festa estava completa. É impossível para alguém nascido e criado em grandes cidades, torcedor de grandes times, saber exatamente o que representou para os 30 mil habitantes da pequena cidade de Alegre o feito de seu time. Apesar da desclassificação, a cidade amanheceu orgulhosa no dia seguinte ao segundo jogo. Os tios botafoguenses tinham motivos de sobra para comemorar, pois o empate era o resultado perfeito, o desfecho ideal para o combate entre suas duas maiores paixões.

No mesmo ano de 2002, o Alegrense repetiu o feito e se tornou bi-campeão estadual, e em 2003 tem amplas possibilidades de conquistar o tri-campeonato (no momento está em segundo na tabela). O Ademílson, aquele mesmo, com nome de jogador, passou de reserva a titular do Botafogo e em seguida foi negociado para o Fluminense, onde é titular até hoje. Os tios continuam em Alegre, agora um pouco mais acostumados ao sucesso do time local e talvez já começando a almejar feitos maiores. Daqui a alguns anos, talvez esta coluna seja reescrita, narrando a incrível trajetória do Alegrense rumo a Tóquio!

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