Akinfeev: Cortina de ferro

Sim, ela voltou. Ou alguém não a viu na final da Copa UEFA, entre Sporting e CSKA? Esteve lá, bloqueando o calor da torcida lusitana, a frieza de Liédson e outras intempéries do futebol. Num lance, em especial, sua atuação foi marcante: com o gol vazio, Rogério acertou a trave. Muitos atribuíram o inesperado desenlace da jogada a uma possível sorte. Ledo engano. Atrás de Igor Akinfeev, jovem guardião da baliza russa, erguia-se, rija e invisível, uma cortina de ferro. Antes, o mesmo Rogério ousara rompê-la, privilégio de poucos em 2005 – no início do ano, Akinfeev manteve sua meta ilesa durante 560 longos minutos.

Em 2004, foi considerado o melhor goleiro do campeonato russo, no qual obteve uma ótima média de gols sofridos (0,4 por jogo). ´´Odeio tomar gols´´, afirma. O que poderia ser uma obviedade ganha outros contornos na voz de Akinfeev, dada a sua extrema convicção. Autoconfiança e calma sempre foram traços fortes do prodígio, segundo Vyacheslav Chanov, treinador de goleiros do CSKA. Tais virtudes, somadas à titularidade na seleção russa aos tenros 19 anos, fazem de Akinfeev um dos mais expressivos representantes de uma nova geração de grandes arqueiros do futebol mundial, que inclui o mexicano Guillermo Ochoa e o espanhol José Reina.

O próximo nome da dinastia

Na Rússia, se o bebê agarra firme um chocalho esférico, é logo chamado de novo Yashin. Devido à influência do mítico ‘Aranha Negra’ e de seu nobre sucessor Rinat Dasaev – que chegou a treinar Akinfeev nas divisões de base do CSKA –, o lugar entre os postes tem uma aura especial nos campos do gélido país. Desde a aposentadoria de Dasaev, existe a expectativa de que surja um ícone capaz de assumir o rico legado. Akinfeev pode até ser o eleito, mas é imperioso lembrar que outros candidatos, como Sergei Ovchinnikov e Ruslan Nigmatullin, chegaram a ser apontados como herdeiros das lendas russas e depois voltaram à condição de míseros humanos.

Tanto Ovchinnikov quanto Nigmatullin atualmente jogam em clubes da Rússia, após terem passado por times estrangeiros sem grande êxito. Aliás, o próprio Dasaev, quando deixou o Spartak Moscou para jogar no Sevilla, experimentou o fracasso. Portanto, caso Akinfeev prossiga evoluindo e, no futuro – ele pensa em se transferir aos 25 anos –, vá defender uma equipe inglesa, italiana ou afim, terá de subverter esse tradicional pendor para o insucesso em terras desconhecidas.

Canizares e a Espanha

Corajoso e decidido, Akinfeev não teme o porvir. Tem a exata noção do quão difícil foi atingir o nível de suas exibições treinando desde pequeno num país como a Rússia, de clima severo e gramados hostis ao ofício dos goleiros. Por isso, sonha com regiões mais quentes e platéias ferventes. A Espanha é o destino predileto. Lá está um colega pelo qual nutre acentuada admiração: Santiago Canizares. Na visão de Akinfeev, o goleiro do Valencia é eficiente em todos os fundamentos. Talvez seja um exagero, pois todo guarda-redes que se preze tem um calcanhar-de-Aquiles. Inclusive o próprio Akinfeev.

Nas bolas rasteiras, o camisa 35 do CSKA costuma ser mais seguro que nas saídas de gol pelo alto. Num jogo contra o Chelsea, pela Liga dos Campeões, o primeiro gol da vitória dos londrinos, fruto de uma cabeçada de John Terry, foi facilitado por um vôo cego de Akinfeev. Como ainda é muito jovem, o russo pode aprimorar esse quesito. Quanto à altura, porém, o jeito é esperar. Um garoto de 1,84m que em 2004 cresceu 2 centímetros não pode ser tido como baixo; mas a verdade é que Buffon, Dida, Cech e outros expoentes contemporâneos da mais ingrata das profissões têm mais de 1,90m.

Na seleção, um keeper temporão

Crê-se que o decímetro de diferença em relação à mencionada elite não vai obstruir a trilha de Akinfeev rumo ao reconhecimento mundial, já que ele compensa isso com um posicionamento quase perfeito. O talento precoce conduziu-o à seleção principal da Rússia em 2004. Estreou num amistoso frente à Noruega, realizado no dia 28 de abril, em Oslo. Um mês e meio depois, já estava na Eurocopa. Embora não tenha participado de nenhum embate, pôs no currículo uma proeza – foi o mais jovem atleta convocado para o certame.

Ovchinnikov integrou o onze russo na Euro, e Malafeev foi quem atuou na catastrófica derrota de 7 a 1 para Portugal, pelas eliminatórias, em outubro de 2004. Hoje, Akinfeev já é o dono do posto que pertenceu a Lev Yashin na conquista da primeira Eurocopa, em 1960. O peso da responsabilidade foi um pouco atenuado pela intimidade com as seleções inferiores. Na sub-17, Akinfeev estreou aos 16 anos, durante o torneio classificatório para o campeonato europeu da categoria. Ainda com 16 anos, foi alçado à sub-21 e debutou na equipe titular do CSKA.

O rei da área

Quando soube que o titular Veniamin Mandrykin se contundira, Akinfeev gelou. Ficou a tarde toda trancado no quarto, receoso quanto à maneira como os medalhões do elenco moscovita receberiam a notícia de que uma criança entraria no jogo CSKA x Krylya Sovetov. Fraldas, sim; fraude, não! O rapazote provou sua capacidade na vitória por 2 a 0, em que pegou até pênalti. Daí para a titularidade definitiva foi um pulo. No fim desse ano de 2003, Akinfeev se sagraria campeão russo, glória que o CSKA ainda não havia celebrado na era pós-soviética.

No início da temporada 2004, um baque: a agressão a um adversário acarretou uma suspensão de cinco jogos e um breve regresso ao banco de reservas. O técnico do CSKA, à época, era Artur Jorge, mais um dos muitos elementos portugueses nos caminhos recentes do futebol russo. Quando Artur Jorge caiu, Valeri Gazzaev, que já trabalhara com Akinfeev no próprio CSKA e na seleção, recolocou-o no time. O treinador conhece muito bem o jovem arqueiro e sabe que ele transmite grande segurança à zaga, apesar dos 19 anos. Foi assim na triunfante campanha na Copa UEFA. Poderá ser assim por pelo menos mais uma década na seleção. Basta que Akinfeev e sua cortina de ferro permaneçam reinando na pequena área e na maior área do globo terrestre – a Rússia.

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