Ajax Barcelon Cruyff

Muito freqüentemente, a idéia que se vem à cabeça quando pensamos em Johann Cruyff é a de um playboy arisco, similar a alguns pilotos de Fórmula 1 da década de 70, e ancestral de um Eric Cantona ou de um Maradona. Como esses dois, Cruyff passou sua carreira em polêmicas com jornalistas e técnicos, dando declarações espinhosas e com um certo ar ´blasé´, do tipo ´se você morrer, não estou nem aí´.

De perto, não se passa a ter uma idéia simpática de Cruyff. Mas ´´Ajax Barcelona Cruyff´´ facilita a compreensão de um dos maiores jogadores da história do esporte e, provavelmente, o mais cerebral de todos eles. O maestro da ´Laranja Mecânica´ de Rinus Mitchels não era somente um playboy, mas um contestador firme em seus propósitos.

O livro é uma compilação de entrevistas feitas por dois jornalistas holandeses que participaram de um grupo restrito de pessoas próximas ao atleta durante sua carreira. Isso não significa que Barend e Van Dorp façam uma biografia camarada. Há contundência em algumas perguntas, mas nunca atrás de sensacionalismo. Provavelmente é essa a razão pela qual o jogador permitiu a proximidade de ambos.

O livro é um complemento ao excelente ´´Brilliant Orange´´, de David Winner, que explica o futebol holandês, com suas raízes culturais. Aliás, é o próprio Winner que fez a versão em inglês de ´´Ajax Barcelona Cruyff´´. E a identidade entre as duas obras se percebe, sem que haja a exploração do mesmo assunto de forma enfadonha.

As entrevistas com o genial meia holandês vão de 1974 a meados da década de 90. Ou seja, cobrem o período no qual Cruyff já era um ícone do futebol mundial, tricampeão europeu, até sua passagem como treinador do Barcelona, onde recriou a mentalidade do time holandês em solo catalão.

Fica claro ao longo do livro que Cruyff está longe de ser uma pessoa simpática, meiga ou fácil de se lidar. Contudo, é possível entender um pouco o porquê das atitudes irascíveis do holandês ao longo de sua carreira, que não raro lhe valeram a efígie de arrogante, insuportável e excêntrico, para dizer o mínimo.

Entre os episódios abordados estão a eleição dele como melhor jogador holandês da história (1996), sua saída do Ajax em 1974, rumo a Barcelona e as brigas com outros treinadores holandeses acerca da seleção nacional no meio da década de 80, além de seu próprio receituário filosófico.

Uma das passagens mais significativas da mentalidade ´cruyffiana´ é ´´Você tem de morrer por suas idéias´´, uma defesa de seu gerenciamento do time do Barcelona, em 1987. O tenaz Johann explica com fervor a razão pela qual se batia tão fanaticamente por seus preceitos futebolísticos. Outro trecho curioso é antes da final da Recopa européia, quando o Ajax bateu o Lokomotiv Moscou. ´´Se você não vencer, eu destruo você´´, ameaçou Cruyff, falando com o então promissor atacante Marco van Basten.

´´Ajax Barcelona Cruyff´´ não mostra somente um popstar escroto escamando todos que vê a sua volta. O meia holandês não deve ser um grande companheiro de botequim, mas prova que tem bases sólidas em seus princípios e, mais elogiável ainda, não se dispõe a abandoná-los em troca das modas de plantão. Isso, por si só, num mundo como o de hoje, onde opinião divergente é quase um crime, já vale um aplauso extra, além daquele pelo que o craque fez no campo.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]
Botão Voltar ao topo