AGOVV: agora vai adiante?

Na semana passada, foi anunciado o novo clube do goleiro holandês Stefan Postma, dispensado do De Graafschap – mas que ficou famoso mesmo quando um vídeo, contendo suas relações sexuais com a esposa, “vazou” mundo afora, em 2006. Mas como o importante nesta seção, mesmo, é o clube, vamos ao que interessa.

Postma, junto do zagueiro René Bot (outro dispensado do De Graafschap), foram contratados por uma agremiação de história tão curiosa quanto a que Postma viveu, há alguns anos. É o AGOVV Apeldoorn, que voltou a ter seu departamento de futebol profissional há apenas seis anos. Mas o pitoresco, sem dúvida, é saber que a história quase centenária dos “Blauwen” (Azuis) começou com… uma associação de abstêmios!

Evitando um vício e começando uma história

A parte histórica do site do AGOVV Apeldoorn diz: foi “o abuso ininterrupto de bebidas, e o impacto que isso tem após os jogos esportivos dominicais” que despertou a ideia da fundação de um clube de futebol, entre alguns membros de uma associação de defesa dos abstêmios, sediada na cidade de Apeldoorn.

Foi um pulo, para que, em 25 de fevereiro de 1913, fosse fundado o AGOSV – sigla para Apeldoornse GeheelOnthoudersvoetbalvereniging “Steeds Voorwaarts”, que por sua vez, em tradução livre, significa “Abstêmios de Apeldoorn Futebol Clube, Sempre Adiante”. Mas um caso, que forçou a mudança de nome do clube, já mostrava a história de estranhezas que sempre estaria atrelada ao AGOSV.

Os sucessos em campeonatos amadores levaram o clube a ser aceito pela associação de futebol da Guéldria, província da Holanda onde fica a cidade de Apeldoorn. Nela, já havia uma equipe com o nome de “Steeds Voorwaarts”. Sim, era o “SV” do AGOSV, o “Sempre Adiante” da tradução. Para diferenciar-se, só restou ao mais novo membro da entidade dar letras maiúsculas ao “VV” de “Voetbalvereniging” (Futebol Clube), transformando o que era AGOSV em AGOVV.

E a ascensão foi tão surpreendente quanto a história do clube. O time logo ganhou o título da primeira divisão da associação da Guéldria, que lhe rendeu a promoção à terceira divisão do futebol holandês. Uma temporada depois, e o AGOVV já estava promovido à segunda divisão nacional. Os desdobramentos da Primeira Guerra Mundial atrapalharam o futebol holandês, interrompendo os campeonatos no país.

Porém, na temporada 1921/22, não só o clube conseguiu o seu estádio definitivo, o Sport-Park Berg en Bos, em agosto de 1921, como também venceu a segunda divisão. Perderia a decisão pela promoção à elite, para o Enschedese Boys, mas não esperaria muitos anos para chegar ao topo. Na temporada 1925/26, os Azuis venceram a Segunda Divisão, novamente, e superaram facilmente o Rigtersbleek e o Hengelo, rivais no torneio de acesso, chegando enfim à Primeira Divisão – de um país ainda amador no futebol, sempre bom lembrar.

Mudança de filosofia – e boas campanhas

Ainda antes de subir, em 1921, vendo que o clube crescia e precisava atrair não só os membros da comunidade abstêmia de Apeldoorn, o significado da sigla foi mudado. AGOVV, agora, virava a união das iniciais de “Alleen Gezamenlijk Oefenen Voert Verder”, isto é, “Só a prática unida nos leva à frente”. Diga-se de passagem, realmente o time de Apeldoorn estava indo cada vez mais à frente, no futebol holandês.

Em sua primeira temporada na divisão de elite, o time quase conseguiu o título, somente perdendo as chances com uma derrota para o ZAC, da cidade de Zwolle, na última rodada. Em 1927/28, jogando na divisão de elite do leste holandês, o time ficou na terceira posição. Como “prêmio”, a seleção da Holanda teve seu primeiro jogador que atuava pelo AGOVV: Jo Kluin, que esteve num amistoso contra a Bélgica, em 1º de abril de 1928.

Mesmo que os resultados não tenham mantido o fulgor da virada para a década de 1930, seria nela que o AGOVV conseguiria um de seus maiores feitos. Em 1937, o clube alcançaria a final da KNVB Beker, a Copa da Holanda. Na semifinal, com uma das melhores atuações da história do clube, goleada por 7 a 0 sobre o Helmondia. Porém, o sonho do título seria trucidado com outro placar elástico: 4 a 1 para o VSV Velsen, na final, disputada em Utrecht.

No início da década de 1940, a despeito da Segunda Guerra Mundial, o AGOVV conseguiu seus melhores resultados no campeonato nacional, ainda amador. Se, na temporada 1940/41, o time esteve à beira do rebaixamento (só não caiu por causa da interrupção provocada pela guerra), a temporada seguinte deu ao time o título da Região Leste holandesa, ganho pelo saldo de gols, após empate em 1 a 1 contra o Nijmeegse Quick. A vitória levou à decisão contra o vencedor do Oeste, então ainda ADO (hoje, ADO Den Haag) – que venceu, por 5 a 2, em Haia, sua cidade.

Entretanto, o time continuava mantendo-se entre os principais da Holanda. Nas duas temporadas seguintes, seria vice-campeão do Leste. E, em 1948/49, mesmo após péssimo começo na conferência (somente dois pontos ganhos, nos quatro primeiros jogos), o time voltou a ser campeão de sua região. Só que, novamente, caiu na final contra o vencedor do Oeste: o SVV, de Schiedam, venceu por 1 a 0 a decisão, no De Kuip, em Roterdã.

O acesso que não veio e a queda

Na metade da década de 1950 – precisamente, em 1954 -, a Holanda finalmente aceitou a entrada do profissionalismo em seu futebol, com a criação da Hoofdklasse, que dali a dois anos viraria Eredivisie. Porém, ela manteve-se inacessível ao AGOVV, que, apenas com o 12º lugar em 1954/55, ficou na Eerste Divisie (segunda divisão). De 1956 até 1962, mesmo conseguindo por duas vezes o 3º lugar da Eerste Divisie, o AGOVV permaneceu sem o acesso.

E a situação piorou em 1961/62, com a criação anunciada da Tweede Divisie, a nova Segunda Divisão holandesa. Naquela temporada, seria necessário um lugar entre os sete primeiros da ainda Eerste Divisie para alcançar a Eredivisie. O AGOVV terminou em oitavo. E acabou se contentando mesmo com a Tweede Divisie. A despeito de conseguir por duas vezes o terceiro lugar (1962/63 e 1964/65), os Blauwen mergulharam em grave crise, tornando-se ocupantes frequentes das últimas posições.

Resultado: na temporada 1970/71, os problemas financeiros profundos levaram o time a fechar o departamento de futebol profissional, mesmo com os protestos que tomaram conta de Apeldoorn. Pior: como o profissionalismo tomara toda a atenção da diretoria, o departamento amador perdera vários jogadores. A muito custo, o time foi reformado e pôde recomeçar, na terceira divisão, onde só estavam os clubes amadores.

Pior ainda: na temporada 1975/76, o clube caiu para a quarta divisão, com a volta só ocorrendo em 1985. Até que, em 1997, após a renúncia de boa parte da diretoria, os novos comandantes assumiram o clube, prometendo um plano para recolocar o AGOVV no profissionalismo, em reunião extraordinária no dia 25 de fevereiro de 1998 – exatamente quando o clube completava 85 anos.

O retorno ao profissionalismo

Na temporada 2000/01, com uma equipe reestruturada, o time começa bem a Hoofdklasse (terceira divisão da Holanda, totalmente amadora), com oito partidas invicto. Mas, depois, não consegue o título. E, ao fim da temporada, a federação holandesa estabelece a meta: para voltar a ser profissional, ou o AGOVV vencia a Hoofdklasse C (grupo da Terceira Divisão com jogos disputados aos domingos), ou nada feito.

Após a pausa de inverno, alguns ex-jogadores, como Hendrie Krüzen e John Stegeman, ajudam a equipe a se reestabelecer, mas a equipe perde pontos nas últimas rodadas e, ao ser derrotada, em pleno Berg en Bos, para o campeão HSC'21, perde a chance de voltar ao profissionalismo.

Com o orgulho ferido e, ao mesmo tempo, reconquistado, o time se reforça bastante na pré-temporada. Chegam veteranos como Marcel Valk e, principalmente, Stanley Menzo, ex-goleiro do Ajax, que acumularia, junto da carreira de jogador, o cargo de representante comercial, para conseguir patrocinadores que pagassem a licença para disputar a Eerste Divisie, a segunda divisão holandesa.

Em campo, o clube faz a sua parte. Vence a Hoofdklasse C e, na decisão contra o campeão dos grupos disputados aos sábados, o Huizen, conquista o título da Hoofdklasse nacional. E, finalmente, em janeiro de 2003, o clube consegue a licença por parte da KNVB. 32 anos depois de ser forçado a tornar-se amador, o AGOVV era, novamente, um clube profissional. Agora, com o nome de AGOVV Apeldoorn.

Na primeira Eerste Divisie, em 2003/04, uma campanha honrosa. Se não pela posição (10º lugar), pelo fato de ter tido o artilheiro do campeonato – um certo Klaas-Jan Huntelaar, emprestado pelo PSV. E, na temporada 2005/06, o clube consegue vencer o sexto período do torneio, garantindo vaga na Nacompetitie, play-off que dá direito a uma vaga na Eredivisie – que não veio, com a eliminação para o TOP Oss. 

O que não significa que a equipe nunca mais tenha enfrentado problemas. O clube figura, normalmente, na metade da tabela da Eerste Divisie – e chegou até a ter três pontos retirados por problemas financeiros, na temporada 2007/08. Porém, o sonho de estar na Eredivisie, um dia, se mantém de pé. Para um clube surgido de maneira tão pitoresca, todavia, é um desafio possível de ser vencido.

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Equipe Trivela

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