Acabou a blindagem

Quando o craque está de volta ao futebol brasileiro, tudo é festa. Apresentação pomposa, hino do clube tocando, pose para fotos e embaixadinhas. Se a grana não estiver curta, de repente rola até helicóptero. Se a presidente do clube gostar de aparecer, pode até copiar seu penteado. Ronaldinho Gaúcho retornou ao país com a expectativa do torcedor, mas badalação ainda maior por parte da mídia. No futuro, antropólogos rirão um bocado ao pesquisarem sobre a novela de sua contratação, com vários clubes brigando pra decidir quem pagava mais por um atleta tão desinteressado. Sem falar nas caixas de som do Olímpico.

Mas em um período de apenas quatro dias, o dentuço voltou a sentir na pele, com algum atraso, o que é ser tratado como um jogador como outro qualquer. Quinta, diante do Emelec, foi duramente vaiado por boa parte dos flamenguistas que compareceram ao Engenhão. De bônus, ainda ouviu aquele tradicional desaforo invasivo relativo a certa parte de sua anatomia. Ontem, foi muito bem expulso pelo árbitro Eduardo Cordeiro Guimarães num Fla-Flu de times mistos, ao dar um pisão violento no meia Wagner.

Não é o primeiro vermelho que Ronaldinho toma com a camisa do Flamengo, já que foi premiado da mesma forma quando trocou agressões com um jogador do Ceará, em jogo do Brasileirão passado. Mas é a primeira vez que o ex-melhor do mundo (ênfase no “ex”) é punido por algo que vem fazendo com regularidade: dar pontapés para tentar recuperar a bola após desperdiçar algum lance. Pode até ter sido um caso isolado, mas chuto que isso marca o fim do tratamento VIP que ele vem tendo por parte da arbitragem.

Reverência excessiva ao craque repatriado não é novidade nenhuma. Ronaldo era beneficiado de forma inversa, com faltas marcadas a favor do Corinthians à menor encostada que seus marcadores (em geral, também respeitosos demais) lhe davam. Ídolo, carismático e fora de forma (o que gerava piadas, mas despertava compaixão), promoveu involuntariamente uma mistura entre os conceitos de respeito e proteção. Com o tempo, a novidade perdeu a graça e isso parou de acontecer.

E não pense que isso se deve ao clube em que Ronaldinho atua ou aquele em que Ronaldo atuava. Se Kaká voltasse hoje ao São Paulo (não que vá acontecer), tenho certeza de que os árbitros brasileiros se preocupariam mais com o púbis dele do que o departamento médico do Real se preocupa hoje. É injusto, mas natural. Vítima de atrasos no pagamento e sem paparicos mil, Ronaldinho talvez já tenha notado que a festa está chegando ao fim (o Mano Menezes ainda não). Aos poucos, a carruagem vai virando um pagode caído, com cerveja quente e mulher feia.

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Equipe Trivela

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