A vida é feita de sono e Fúria

Afinal, o estilo da seleção espanhola dá sono ou é brilhante? O debate durante a semana que passou foi bem mais animado do que quase todos os jogos que envolveram a equipe na Euro 2012. Sobre a eficiência deste time, ninguém pode discordar, as conquistas passam na cara de todo mundo a sua supremacia. Sobre o talento dos jogadores envolvidos, tampouco, a não ser que você finja que Arbeloa é regra e não exceção. O cada vez mais célebre tiki taka hipnotiza não apenas o adversário, mas também o espectador, lutem seus olhos contra ou não. Os que acham que o melhor de uma festa é esperar por ela não se cansam de ver o bailar dos jogadores que passam a bola e se deslocam para recebê-la. Fosse uma roda de samba, chamariam de miudinho. Já os que gostam mesmo é de cair na gandaia, se perguntam sobre o clímax, que teima em não chegar.

Ignorando o cansaço físico ou a implicância, que seriam as razões mais óbvias, duas coisas podem fazer brotar o sono em quem assiste a uma partida de futebol: a ruindade da peleja ou o desinteresse por ela. Por mais que gosto seja sempre algo muito pessoal, é difícil atribuir baixa qualidade ao jogo de uma seleção que dá aulas sobre fundamentos básicos da modalidade como o passe, o posicionamento e a marcação. Cairia no terreno da implicância, algo até certo ponto esperado no tratamento àqueles que estão vencendo demais. Como muitos dos críticos eram pessoas que se envolvem com futebol internacional e que dedicaram boa parte do seu tempo à apreciação da Euro, também não poderia ser  simplesmente uma questão de falta de interesse.

Particularmente, concordo com as duas teses, sem medo de cair em contradição. O estilo da Fúria é encantador, mas cansativo quando aplicado em sua essência. Contanto que respeite as regras, qualquer forma de jogar futebol é legítima. Não se trata de pedir o espetáculo pelo espetáculo, porque o futebol ainda é um esporte e o objetivo de quem entra em uma competição ainda tem de ser vencê-la (nada pessoal, Barão de Coubertin). O que vinha incomodando no desempenho da Espanha era justamente o desperdício. Como pode uma geração tão talentosa se contentar em impor seu estilo, marcar um golzinho, cozinhar o jogo, vencer de forma magra, levantar a taça e voltar para casa? Bastaria para entrar na história, não para adoçar a memória.

Alguns defensores da armada espanhola usaram o fantástico desempenho por ela apresentado na final como um “cala a boca” aos críticos. Na verdade, a Fúria apenas deu razão a todos que bocejavam. Aproveitando, enfim, todo o seu potencial, mostrou que o seu toque de bola é bonito por si só, mas fica arrebatador quando usado a serviço da objetividade. Usando uma analogia que ecoaria com tranquilidade na Andaluzia: uma mulher pode ser naturalmente bela, mas fica bem mais sedutora quando roda a sua saia no flamenco e fuzila o seu par com o olhar. Vertical e avassaladora, La Roja partiu para cima da Itália e a devorou. Sem perder a identidade. Melhor ainda: justificando-a.

Mordida pelas críticas? Tomada pelo espírito de decisão? Provavelmente. Mas Del Bosque, treinador de currículo cada vez mais recheado, pode reivindicar sua parcela de mérito. Ou poderia, se fosse de fazer marketing pessoal (fora que um “¡Aquí és trabajo!” pegaria mal em um país vivendo crise de desemprego). Sabendo que a Itália de Prandelli valorizaria a posse de bola, como no confronto entre as duas seleções pela primeira fase, parece ter orientado seus comandados a arriscarem mais. A falta de um centroavante de ofício, maior crítica que lhe foi feita durante a Euro, não foi sentida. Pelo contrário, Fàbregas, o falso nove, foi fundamental durante a primeira etapa. Contribuiu também o despertar de Xavi, que parecia estar se guardando para quando o Carnaval chegasse. Além de tirar terreno de Pirlo, deu duas assistências que compensaram qualquer discrição no decorrer do torneio.

Mesmo sem Puyol, um dos seus líderes, e David Villa, o seu artilheiro, a Espanha se tornou o primeiro país a vencer duas Euros e três grandes torneios de forma consecutiva. Ainda que reservas de grande qualidade como Javi Martínez, Cazorla, Juan Mata e Llorente pouco ou nada tenham jogado, igualou o número de títulos continentais da Alemanha. Sem permitir que os ânimos acirrados entre atletas de Barcelona e Real, dueto de rivalidade cada vez mais feroz, instalassem a discórdia no grupo, fez a Itália tomar quatro gols em uma partida oficial pela primeira vez desde a final da Copa do Mundo de 70. Talvez nem vá precisar recorrer a promessas como Thiago, Adrián e Muniaín, frutos do excelente trabalho nas categorias de base, mas já é considerada a grande favorita para a de 2014, onde tentará prolongar sua saga, logo nos campos do país mais vencedor da história do futebol.

Enquanto os descontentes ladram (ou pegam no sono), a caravana espanhola passa. Ou troca passes.

Na hora de ganhar o 10…

Bem no último ato, Prandelli cometeu seu único grande erro na Euro 2012. Não bastasse a imprudência de gastar a terceira substituição ainda no primeiro terço do segundo tempo, insistiu com Thiago Motta, quando o momento era de acionar Diamanti (ou Giovinco, de repente) e mandar a Azzurra para o abafa. A lesão do volante não só mostrou de que lado a sorte estava, mas também foi o jeito que a bola encontrou para punir a falta de ousadia. Aliás, não ter apostado no único jogador com vocação para trequartista do elenco foi o passo que faltou para que o treinador italiano cumprisse plenamente com o seu compromisso de dar uma cara mais atraente à seleção de seu país.

Com Balotelli muito bem marcado e Cassano sem lampejos, a Itália dependia ainda mais de Pirlo, que estava ocupado demais com Fàbregas e, principalmente, Xavi. Fica a lição para  quem quiser parar o maestro da Juventus nos poucos anos que lhe restam de carreira: não vai adiantar colocar um cão de guarda em cima dele, o melhor é povoar sua região com jogadores de talento, que o tragam outras preocupações. A torcida é para que Pirlo possa desfilar seu talento por gramados brasileiros nos próximos dois anos e para que o trabalho de Prandelli seja devidamente valorizado. Revelar bons valores para municiá-lo passa a ser o principal desafio do futebol italiano, tão pouco afeito a dar espaço a seus jovens atletas.

Resumão da Euro

O craque –  Andrea Pirlo, que foi durante o resto do torneio exatamente o que Xavi foi na decisão: ponto de referência e diferencial.

O técnico – Dúvida forte entre Paulo Bento e Cesare Prandelli. Um conseguiu armar uma equipe que travou Espanha e Alemanha, as duas mais fortes seleções do mundo, mas não venceu nenhuma delas. O outro tomou um baile na segunda vez que enfrentou uma delas, mas venceu a outra com autoridade. Bento encontrou a posição ideal para Cristiano Ronaldo na seleção portuguesa, enquanto Prandelli estendeu o tapete para Pirlo brilhar pela Azzurra. O lusitano teve um elenco mais limitado e reduzido, ponto a favor dele. Mas pesou a transformação que Prandelli ousou colocar em prática no jeito de jogar da Itália. Fica aqui meu voto para ele, acompanhado de um puxão de orelha pela falta do trequartista.

O personagem – Não poderia ser outro: Mario Balotelli. Além dos gols que definiram a semifinal contra a Alemanha, marcou presença pelo estilo polêmico, as declarações engraçadas e seu embate pessoal contra o racismo vindo das arquibancadas.

As revelações – Difícil elencar novidades em um torneio disputado entre seleções, presume-se que ninguém tenha chegado lá por acidente. Jordi Alba, que já vinha bem pelo Valencia, entra na lista por ter tido seu primeiro destaque com a camisa de sua seleção. Gebre Selassie e Václav Pilar, escondidos no futebol theco e de mudança para a Bundesliga, e Yevhen Kornoplyanka, destaque da anfitriã Ucrânia, completam a relação.

A decepção – Holanda. Acho que não preciso justificar…

O golaço – Mais importantes e igualmente bonitos foram o segundo gol de Balotelli contra a Irlanda e o primeiro gol da Espanha na final, resultado do que há de melhor no estilo de jogo da campeã. Mas ainda fico com o voleio de Ibrahimovic.

O jogão – Não existe jogo oficial monótono entre Itália e Alemanha. Nem vitória do time de branco, choramingam os tedescos.

A torcida – “You'll never beat the Irish”.

A seleção – Tenho a opinião de que a seleção do torneio deve, na medida do possível, refletir os desenhos táticos que nele triunfaram. Por isso, montei uma equipe que utiliza Pirlo armando o jogo por trás dos meias e, ainda que torcendo um pouco nariz, consagrei o falso nove de Del Bosque (só Messi me convence na função), até por considerar que nenhum centroavante teve brilho constante por toda a Euro. A saber: Casillas; Glen Johnson, Pepe, Piqué e Jordi Alba; Pirlo, Xabi Alonso e João Moutinho; Cristiano Ronaldo, Fàbregas e Iniesta. Menções honrosas para Buffon, Hummels (que perdeu sua vaga graças a Cassano), Sergio Ramos, Lahm, De Rossi, Khedira e Özil.

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