A bola não entra por acaso

 

Por Daniel Ottoni

O livro ‘A bola não entra por acaso’ retrata a trajetória de Ferran Soriano como vice-presidente do Barcelona entre 2003 e 2008. O quadro encontrado não era dos mais animadores. Uma das filosofias da atual gestão acreditava que modernas técnicas de gestão não poderiam trazer muitos benefícios para o clube. Tudo se resumia à bola na rede, deixando de lado uma estratégia que hoje faz diferença em qualquer área.

O quadro se resumia a uma equipe desprestigiada, há quatro anos sem ganhar um título e com dificuldades para se classificar para a Champions. Altos (e desnecessários) investimentos em jogadores pouco conhecidos que não renderam e arrecadações bem abaixo do esperado. Um dos maiores exemplos foi os 30 milhões de euros despendidos em dois brasileiros: Geovanni e Rochemback, que pouco fizeram. Jogadores como Saviola e Riquelme não se adaptaram bem e eram pouco úteis.

A faturamento do clube era de 123 milhões de euros, distante dos 300 milhões que poderiam ser conquistados. A folha salarial ocupava quase 90% dos rendimentos, bem longe dos 50% a 65% ideais, além das despesas estarem só aumentando.

Ações de marketing precisas, afirmação do clube como uma empresa com potencial de alcance global e venda de ingressos diferenciada, conseguindo lotar um estádio para 80 mil pessoas em todos os jogos, são alguns fatores que foram implantados. Em suma, pensar do tamanho do Barça e retomar o orgulho e identidade perdidos.

Era o momento de revolucionar e evoluir. Eliminar gastos e mudar muita coisa, principalmente neste começo de trabalho, momento mais propício para modificações. Pensar em outros jogadores, que chegassem mais motivados e colocasse o Barcelona onde ele merece. Teria-se que correr riscos e inovar, ao mesmo tempo.

O jogador que comandou a reviravolta foi Ronaldinho Gaúcho, trazido do PSG. Outros que chegaram e fizeram um bom papel foram Zambrotta,. Eto´o, Davids, Henry, Thuram e Deco. Além do talento do jogador, era estudada sua capacidade de compromisso e a possibilidade de se encaixar na equipe, naquele momento.

Neste período, a indústria do futebol se consolidava com a presença das televisões privadas, que com a compra dos direitos de transmissão, aumentam substancialmente o faturamento das equipes, principalmente as maiores. Inevitavelmente, tudo gira em torno do dinheiro e o lucro obtido não era satisfatório e condizente com a grandeza de um clube como o Barcelona.

Uma das chaves citadas por Soriano é ‘interpretar e compreender a lógica’ dentro da atividade futebolística. O mercado mostrava um quadro não muito favorável, com clubes pagando além do valor justo por jogadores pouco conhecidos, gerando inflação.

Nesse ramo, ser um bom negociador pode fazer a diferença. Negociar contratos e salários com jogadores e fornecedores pode ser uma arte. Saber até onde se pode ir, quão se pode ceder e falar sobre valores no momento ideal não é tarefa para muitos.

Identificar o momento certo (durante ou após uma temporada?) de propor um contrato e saber lidar com pessoas de diferentes culturas e referências não é nada fácil. As emoções (planejadas e descontroladas) são inevitáveis e é preciso saber lidar muito bem com elas.

Ao mesmo tempo em que se pode encontrar um inglês anglo-saxônico com liberdade para falar de dinheiro e que não têm problemas em fazer uma negociação inteira pela internet, pode-se também encontrar dirigentes italianos, que fazem questão de encontrar pessoalmente para discutir propostas e valores.

Foi montada uma diretoria que tinha pouco conhecimento no mundo do futebol mas com uma trajetória de sucesso no mundo dos negócios, em diferentes áreas.

Um dos pontos interessantes na nova gestão era identificar mercados em potencial que até então eram pouco explorados. A chegada da marca Barcelona em locais comoÁ sia e EUA foi muito bem aceita e trouxe boa quantidade de dinheiro para o clube. Em relação ao patrocínio, muitas discussões aconteceram até se chegar a decisão de pagar para ter estampada na camisa a logo da Unicef, passando uma visão mais social e menos interessada no lucro, tão e somente.

Pontuar as mudanças e adaptar o estilo de liderança a elas foi outra ação precisa e eficaz da gestão de Soriano. Uma equipe pode e deve ter diversos tipos de líderes dentro do seu elenco e identificá-los e selecioná-los de forma eficaz pode ser um diferencial.

Inovar, mas correndo riscos limitados é um dos ensinamentos de Soriano que podem ser levados para várias áreas de negócio. No entanto, é preciso saber o mercado onde se atua, a parcela deste mercado que se quer conquistar e as condições existentes para agir dentro de sua capacidade.

Um baita aprendizado para qualquer área de negócios.

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Equipe Trivela

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