24º – Miguel Muñoz: Eterno madridista

Um madridista puro sangue. Assim pode ser definido Miguel Muñoz. Ídolo como jogador, lenda como treinador. Primeiro homem a levantar a taça da mais importante e valorizada competição interclubes da Europa, comandando um time dentro e fora do campo. Como capitão e técnico.

Muñoz teve uma vitoriosa e idolatrada carreira. Após iniciar seu contato com o mundo da bola no renomado Colégio Casancio (o mesmo que formaria Emilio Butragueño), o meia, nascido no distrito de Salamanca, em Madri, atuou por diversos clubes da capital, como Ferroviaria, Girod, Imperio, antes de assinar seu primeiro contrato com o Logroñés.

Passou, com sucesso, por Racing de Santander e Celta de Vigo, onde chamou a atenção do Real Madrid após conquistar o quarto lugar na Liga de 1948 (melhor posição no história do clube) e o vice-campeonato da Copa do Rei, perdendo a final para o Sevilla por 4 a 1 (gol de honra marcado por Muñoz).

Contratado em 1948, junto com o atacante e colega de equipe Pahiño, Miguel Muñoz logo tornou-se uma das principais figuras dos merengues e capitão da equipe que passava por um momento de reformulação após quase ser rebaixado. Durante dez anos como jogador, disputou 347 jogos oficiais pela equipe blanca, marcando 23 gols e conquistando três Taças dos Clubes Campeões Europeus (atual Liga dos Campeões) e quatro campeonatos espanhóis.

Treinador blanco

Até mais importante do que os títulos, foi a amizade conquistada com o craque Di Stéfano um dos grandes destaques madridistas nessa época que marcou Miguel Muñoz. Sinônimo de entrosamento dentro de campo, a ligação gerou frutos (e alguns problemas) no futuro.

Após pendurar as chuteiras, Muñoz parecia saber que seu futuro continuaria sempre ligado ao Real. No mesmo ano (1959), assumiu o comando do Plus Ultra, time B do clube, formado por atletas da base. No ano seguinte, tornou-se treinador do time principal, tendo como missão reformular a equipe e abrir passagem para as novas promessas, que deveriam aos poucos assumir o lugar de seus amigos e antigos companheiros de equipe.

Sua trajetória como técnico teve um início meteórico. Logo em seu primeiro ano conquistou a Copa dos Campeões da Europa, quinto título seguido do Real (em cinco edições disputadas), eliminando Jeunesse Esch (com duas goleadas), Nice (com um 4 a 0 em Madrid), os rivais do Barcelona (com duas vitórias por 3 a 1) e Eintracht Frankfurt na final, com um show de Di Stéfano (3 gols) e Puskas (4 gols) e goleada por 7 a 3.

De quebra, ainda bateu os uruguaios do Peñarol na final da Copa Intercontinental, com um sonoro 5 a 1 em Madrid, se tornando o também o primeiro clube campeão do mundo.

Em 1961, conquistou o primeiro de cinco títulos seguidos da La Liga (feito só alcançado novamente pelo próprio Real Madrid na década de 1980), terminando o torneio 12 pontos a frente do Atlético, grande rival da capital e segundo colocado. A supremacia ficou clara com o tri sendo obtido em 1963 novamente com uma dúzia de pontos a mais que o vice e eterno rival Atlético.

Após perder a chance de obter o hexa em 1965 com apenas um ponto a menos que os colchoneros, os merengues alcançaram a partir daí mais um tri consecutivo com facilidade, de 1967 a 1969. Venceria ainda o nacional de 1972, deixando Valencia e Barcelona para trás.

Uma dura decisão

Apesar das vitórias, Muñoz se deparou com algumas difíceis decisões ao longo da carreira. Em parte por que havia sido contratado para reformular um time do qual já havia feito parte: “Eu me tornei treinador de uma equipe cujos jogadores haviam sido, em sua maioria, meus companheiros. E ir prescindindo deles por uns e outros motivos foi muito doloroso”, dizia.

Um dos momentos mais marcantes ocorreu em 1964, quando se deparou com a responsabilidade de tirar da equipe seu melhor amigo e companheiro, Alfredo Di Stéfano, craque e mentor do estilo ofensivo e vitorioso do Real Madrid da década de 1950. Admirador confesso de Di Stéfano, Muñoz optou antes por apresentar sua demissão a junta Diretiva dos merengues.

Após ver sua demissão recusada pelo presidente Santiago Bernabéu, Miguel Muñoz comandou a equipe que foi derrotada na final da Taça dos Campeões Europeus para a Internazionale (1 a 3), em Viena (Áustria), em uma quarta-feira. No fim de semana seguinte, ao escalar o time que enfrentaria o Atlético de Madrid pela semifinal da Copa do Rei, o treinador deixou de fora seu amigo Alfredo Di Stéfano.

A derrota para a equipe Nerazzurri fora a última partida do ídolo pela equipe blanca. A decisão mais difícil de sua vida. “Alfredo era meu amigo e companheiro de quarto nos hotéis e concentrações. Eu o admirava. Na realidade, me deixava de olhos arregalados cada vez que pegava na bola. Mas já tinha 38 anos e suas condições físicas não eram as melhores. Poderia ter continuado titular jogando somente como ponta, com um raio de ação limitado, como Ferenc Puskas, mas queria seguir estando em todos os lugares do campo”, desabafou certa vez. “Não podíamos seguir assim”.

De novo a Europa

Os títulos da Liga seguiam sendo conquistados sem dificuldades, mas a história do clube madridista exigia a formação de uma equipe para o futuro, cuja meta era a obtenção do sexto troféu continental. Dando forma a uma jovem equipe, pouco a pouco Muñoz começou a forjar talentos como Pirri, Amancio, Sanchis, Zoco e Velázquez.

Na Taça dos Campeões Europeus de 1965/66, o time madridista passou por Feyenoord (com um 5 a 0 de Madrid), Kilmarnock (goleando por 5 a 1, também em Madrid), Anderlecht e Internazionale (vingando a derrota na final dois anos antes).

Na decisão, disputada no dia 11 de maio de 1966, a equipe de jovens promessas, capitaneada pelo veterano Gento e apelidada de “Ye-yé”, venceu o Partizan, em Bruxelas (Bélgica), por 2 a 1 de virada (gols de Amaro e Serena), conquistando pela sexta vez a atual Liga dos Campeões da Europa.

Do Real à Seleção

Os título continuaram a chegar à sala de Troféus da equipe madridista. Dessa forma, Muñoz bateu o recorde de permanência como técnico do Real. Foram 14 anos de glórias (com 595 partidas e 352 vitórias), que tiveram um ponto final na temporada 1973/74, quando o time foi eliminado pelo Ipswich Town na Copa da Uefa, terminando em oitavo lugar na Liga espanhola. A saída, contudo, não significou o fim da carreira de Miguel Muñoz. O técnico ainda comandou Granada, Sevilla e Las Palmas, onde obteve o vice-campeonato da Copa do Rei em 1978, perdendo a final para o Barcelona.

Faltava, contudo, a seleção, pela qual havia disputado apenas sete partidas como jogador. O fracasso da seleção espanhola na Copa de 1982, disputada em casa, obrigou a Federação Espanhola a demitir José Emilio Santamaría, abrindo as portas para Muñoz. Comandando o time até a Eurocopa de 1988, na Alemanha, Miguel Muñoz mudou a cara do selecionado nacional, obtendo um vice-campeonato na Eurocopa de 1984 e um quarto lugar na Copa de 1986, no México. Saiu após a eliminação da Espanha na Eurocopa de 1988, como segundo técnico com mais partidas no comando a seleção (63 partidas).

Segundo treinador com mais partidas pela Liga Espanhola (atrás apenas de Luis Aragonés), Miguel Muñoz morreu em Madri, em 16 de julho de 1990, aos 68 anos e foi sepultado no cemitério La Almudena.

Sempre lembrado pelas vitórias e pelo otimismo, forjado, segundo ele, nos tempos da Guerra Civil, nenhuma frase define melhor Miguel Muñoz como a proferida por Pablo Porta, presidente de Federação Espanhola de Futebol, após a classificação da Fúria para a decisão da Eurocopa de 1984: “Um homem com uma flor em um lugar muito especial do coração”. Um coração sempre madridista.

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