23º – Gusztav Sebes: Comandante dos “Mágicos Magiares”

Comandante da poderosa seleção húngara da década de 1950, Gusztav Sebes não era apenas o chefe da comissão técnica da lendária equipe. Era também o vice presidente do Ministério do Esporte e presidente do Comitê Olímpico do país. E ainda tinha o poder de montar os clubes, distribuindo os jogadores conforme seu gosto e interesse, além de controlar as partidas e torneios da seleção, reunindo os jogadores quando e pelo tempo que bem entendesse.

Com esses benefícios e todo o conhecimento que possuía sobre o jogo, Sebes foi responsável por montar a equipe considerada a predecessora do “Futebol Total”, aplicando sua ideias socialistas e juntando astros como Puskas, Czibor, Kocsis, Hidegkuti, Bozsik e Grosics. E também por uma das maiores injustiças da história do futebol: a derrota na final da Copa do Mundo de 1954 para a Alemanha.

Um jogador “sindicalizado”

Filho de sapateiro, o meio-campista Sebes começou a praticar futebol aos 12 anos. Emigrou para França, onde encontrou trabalho na Renault, participando ativamente de greves e movimentos sindicais e defendendo os modestos Sauvages Nomades e Olympique Billancourt.

Em 1927, voltou para a Hungria, onde por 13 anos defendeu as cores do MTK FC, com o qual conquistaria por três vezes o campeonato húngaro e uma vez a Copa da Hungria. Pela seleção, disputou apenas uma única partida, como meia direito, em 15 de março de 1936, contra a Alemanha. Jogou mais de 200 partidas pelo campeonato nacional antes de encerra a carreira.

Início mediano

Após terminar sua carreira nos relvados, Sebes decidiu tornar-se treinador porque, para ele, o futebol era uma questão existencial. Seriam, no entanto, os seus créditos políticos, apreciados pelo poder stalinista, que o iriam levar, em 1949, até ao banco da seleção húngara.

Iniciou sua trajetória comandando equipes em divisões inferiores do futebol húngaro. Em clubes, o máximo que alcançou foi disputar por dois anos a primeira divisão do nacional, obtendo um nono lugar com o Csepeli WMFC na temporada 1943-44. Em 1946, foi demitido do modesto Budafoki MTE, após o time ser rebaixado no grupo ocidental da Liga Húngara com apenas cinco vitórias em 26 partidas.

Política certa

Muitos se perguntam ainda hoje como um treinador com resultados, até então, no máximo, medianos poderia assumir uma forte seleção húngara. Vice-campeã do Mundial de 1938, os húngaros contavam com grandes jogadores e mantinham no pós-guerra a mesma fama de potência conseguida antes do conflito.

A paixão pelo futebol resistira a todo sofrimento e no clima do pós-guerra transformava-se num grande divertimento para todo o povo húngaro. Percebendo essa força, o regime comunista resolveu transformar o futebol numa bandeira política. Para isso, nada melhor do que um socialista convicto.

Sebes, um homem com recomendáveis credencias socialistas, que em meados dos anos 1930 organizara, em Paris, uma manifestação de operários da Renault e que depois fora um dos principais ativistas do movimento sindical na Hungria do pós-guerra, tinha as credenciais apreciadas pelo poder stalinista. Dessa forma, em 1948, junto com Bela Mandik e Kompoti-Gabor-Kleber, começou a fazer parte de uma comissão que assumiu o comando da seleção da Hungria. No ano seguinte, com o título de Vice-Ministro do Esporte, Sebes obteve o controle completo do planejamento da “Seleção Magiar”.

Poder na seleção

Com o cargo de chefe da comissão técnica, vice-ministro do Esporte e presidente do Comitê Olímpico húngaro, Sebes começou a pôr em prática seu sistema de jogo “socialista”. Para isso, e aproveitando-se desse controle e poder que detinha, distribuiu os melhores jogadores do país em dois clubes principais, possibilitando aos mesmos um entrosamento impossível de ser adquirido apenas com o tempo em que estivessem a disposição da seleção.

Como o forte Ferencvaros, então potência da liga húngara, contava com forte sentimento nacionalista, o jeito foi apelar para o até então pequeno AC Kispest, fundado em 1909, mas de poucas conquistas. O clube passou a se chamar Honved (defensores da pátria, em húngaro) e representar o time do Exército. Contando com a sorte de encontrar já nesse pequeno clube do lado sul de Budapeste, os amigos de infância Puskas e Bozsik, trouxe também Czibor, o goleiro Grocis, o zagueiro Lorant e os atacantes Budai, Kocsis e Czibor, vindos do Ferencvaros, praticamente desmantelado.

Para equilibrar um pouco as coisas, para o MTK FC, ligado à Polícia Secreta húngara, a AVH, e time pelo qual jogara a maior parte da carreira como atleta, Sebes deslocou o zagueiro Zakarias, o lateral Lantos e os atacantes Hidegkuti e Palotas. Até a Copa de 1954, o Honved conquistaria quatro títulos nacionais, ficando o MTK com as outras duas taças.

Olimpíadas de Helsinque

Além de todo esse poder, Sebes ainda contou pelo tempo que quis com a possibilidade de juntar os selecionáveis para treinos e amistosos. Assim, conquistou com facilidade as Olimpíadas de 1952, em Helsinki, na Finlândia, derrotando Romênia (2 a 1), Itália (3 a 0), Turquia (7 a 1), Suécia (6 a 0) e Iugoslávia (2 a 0), sofrendo apenas 2 gols e marcando 20. Stanley Rous, presidente da Federação Inglesa e amigo de Sebes, estava presente à grande final e, encantado, fez o convite para uma amistoso contra os inventores do futebol. A Inglaterra se arrependeria para sempre dessa ideia.

Para além de saber jogar com o comportamento humano, Sebes passava também muitas horas pensando em pequenos detalhes do jogo. Antes da memorável vitória e exibição de Wembley, em novembro de 1953, com o encontro com os ingleses já marcado, se deslocou a Wembley para assistir a um jogo entre a Inglaterra e uma seleção do resto do mundo, terminado com um empate de oito gols. Sebes desceu ao relvado pouco antes do inicio do jogo e reparou que a bola nunca saltava mais de um metro. Ficou curioso e na manhã seguinte regressou ao estádio. Calçou umas chuteiras e, de gravata, correu com a bola no campo, deu uns chutes e observou os ressaltos que ela fazia. Mediu a largura e o cumprimento do relvado, perante o olhar espantado dos tratadores do campo e, antes de voltar a Budapeste, solicitou três bolas de marca inglesa.

Na Hungria, alargou o campo de treinos para 110 por 70 e, três vezes por semana, os jogadores treinavam com as bolas inglesas, simulando situações de jogo, um exercício ainda muito pouco utilizado. Quando, meses depois, a seleção magiar entrou em Wembley já nada lhe era estranho. Sebes tinha reproduzido, num simples campo de treinos de Budapeste, todos os importantes pormenores do fantástico cenário inglês.

“O Jogo do Século”

Em 25 de Novembro de 1953, a Hungria se impôs diante de um time inglês que incluía Stanley Matthews, Stan Mortensen, Billy Wright e Alf Ramsey e venceu por 6 a 3. Em uma exibição maravilhosa de futebol, Hidegkuti marcou três vezes e Puskás duas.

Apesar de lembrada pela beleza de seu jogo e a classe de seus jogadores, o duelo também marcou uma virada na tática, dinâmica de grupo e na fluidez de campo de um time dentro dos gramados. Sebes sabia motivar seus jogadores: “Se vencemos os ingleses, em Wembley, os nossos nomes serão lendários”, afirmou nos vestiários.

Após o jogo, envergonhados, os ingleses solicitaram uma revanche, marcada para maio de 1954, como preparação para a Copa. O jogo aconteceu no Nepstadion, atual Estádio Ferenc Puskas, em Budapeste. A Hungria realizou outra apresentação de gala e massacrou a Inglaterra por 7 a 1.

“O Milagre de Berna”

No Mundial, era apenas questão de tempo até os húngaros humilharem seus adversários e conquistarem o título nos gramados suíços. E a primeira fase só confirmou o favoritismo: 9 a 0 na Coreia do Sul e 8 a 3 na Alemanha. Após derrotar o Brasil na chamada “Batalha de Berna”, pelas quartas-de-final, por 4 a 2, venceu o bicampeão Uruguai pelo mesmo placar e alcançou a final pela segunda vez na história. O duelo seria contra os alemães, que haviam sido goleados na primeira fase. Barbada? Assim esperavam os húngaros.

O estádio Wankdorf acomodova 60 mil pessoas preparadas para ver a consagração húngara. Apesar de Puskas colocar seu time à frente do marcador em apenas seis minutos de jogo, e com Czibor marcando o segundo gol dois minutos depois, a vantagem se desfez com Max Morlock e Helmut Rahn marcando para o selecionado germânico. O segundo tempo assistiu a erros impressionantes dos húngaros e, a seis minutos do fim da partida, Rahn marcou novamente. Puskas teve um gol anulado quando faltavam apenas dois minutos e a invencibilidade húngara de 32 partidas caiu justamente na partida final da Copa do Mundo: 3 a 2 para a Alemanha. Os 143 gols marcados (e apenas 33 sofridos), 29 vitórias e três empates viraram pó justamente no momento que não poderiam.

Legado eterno

O futebol húngaro estava na vanguarda da inovação tática na década de 1950. A formação 3-2-5 tradicional (ou WM) foi virada de cabeça para baixo com os “Mágicos Magiares”. Sebes aprovou um protótipo do sistema 4-2-4. Quando o velho WM incorporou duas atacando de dentro para frente, dois alas e um centro-avante, esta nova abordagem viu o centroavante recuado para trás de dois atacantes. Um meia foi puxado de volta para reforçar a defesa.

Ferenc Puskas disse certa vez: “Quando atacamos, todos atacam, e, na defesa, era o mesmo. Fomos o protótipo de Futebol Total”. Era o famoso ideal socialista de Sebes, uma noção na qual cada jogador tinha o mesmo peso e era capaz de jogar em todas as posições.

Gyula Grosics, recordou mais tarde: “Sebes era muito comprometido com a ideologia socialista, e você podia sentir isso em tudo o que ele dizia. Ele fazia de cada jogo importante ou competição uma questão política, e muitas vezes tratava o duelo em questão como uma luta entre o capitalismo e o socialismo, dizendo que no campo de futebol acontecia essa oposição como em qualquer outro lugar”.

Em seu livro de memórias, intitulado “Alegrias e Desilusões”, Sebes, confesso admirador de Hugo Meisl (técnico do poderosos “Wunderteam” austríaco dos anos 1920/1930) e Vittorio Pozzo (treinados da Itália bicampeão mundial nos anos 1930), explica que para formar uma grande equipe não bastava reunir jogadores com grande técnica. Essas qualidades só seriam decisivas se acompanhadas de uma inteligência de jogo especial e um comportamento forte nos treinos e, sobretudo, no modo de vida. Considerava obrigatório conhecer a personalidade de todos os seus jogadores fora de campo.

Como exemplo de um jogador completo sob todos esses aspectos, citava o nome de Josezf Turay, atacante do Ferencvaros, um dos melhores jogadores da história do futebol húngaro. Em campo era a inteligência personificada para jogar futebol. Fora deles, não sabia ler nem escrever. Quando, porém, se tornou famoso em todo o país, teve a humildade de revelar aos seus dirigentes que era analfabeto e que isso lhe fazia sentir um enorme complexo de inferioridade, por isso queria aprender a ler e escrever. Já era um jogador de nível internacional quando terminou seus estudos. Para Sebes, ele era o exemplo do caráter que teriam de ter todos os jogadores de seus times.

Pós Copa

Na Hungria, a derrota despertou a fúria dos torcedores. Uma das acusações táticas era a de ter colocado, na final, Czibor a jogar pela direita, onde o seu pé esquerdo não poderia funcionar de forma plena. Sebes explicou que a intenção era aproveitar a debilidade do lateral esquerdo alemão Kohlmeyer. Orgulhoso, sempre recusou demitir-se. Acabaria por ser afastado em 1956, após uma derrota para a Bélgica por 5 a 4. O “Time de Ouro” húngaro seria desfeito após a “Revolução Húngara” de 1956.

Com o passar dos anos, Sebes que tornaria-se adorado por todo o futebol húngaro. Treinaria ainda a seleção húngara sub-23 e o modesto Diosgy?ri, sem obter resultados relevantes. Morreu em 30 de janeiro de 1986, uma semana depois de completar 80 anos e no ano que a seleção da Hungria disputou sua última Copa do Mundo, caindo ainda na primeira fase, após sofrer uma goleada por 6 a 0. Um time bem distante daqueles Mágicos Magiares que, sob o comando de Sebes, encantaram o mundo.

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Equipe Trivela

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