21º – Lula: O formador de um esquadrão
Dentre os personagens do grande time do Santos das décadas de 1950 e 1960, ninguém é mais subestimado que Luís Alonso Perez. Lula assumiu o cargo de treinador do Peixe em 1954 e, ao longo dos 12 anos em que orientou jogadores como Pelé, Pepe e Zito, conquistou um total de 38 títulos. Mesmo assim, constantemente é acusado de não ter talento. Das lendas que rondam o seu nome, a mais famosa é a que afirma que Lula jogava a camisa para o alto no vestiário antes de escolher os 11 titulares.
É óbvio que a quantidade de craques que tinha sob a sua tutela facilitou a trajetória do treinador. Mas também não se pode negar a sua qualidade na hora de projetar novos jogadores. Além de ter formado alguns dos principais nomes da equipe nas categorias de base, foi ele também o responsável por buscar promessas em ascensão em outros clubes.
Manter um time no auge ao longo de uma década sem que perder a motivação foi o maior mérito de Lula. Ao todo, o Peixe comandado pelo técnico de jeito simples fez 776 partidas. Foram nada menos que 513 vitórias e as redes adversárias estufaram 2.385 vezes, média de mais de três gols a cada partida.
Do volante à beira dos campos
O futebol foi um passatempo que se transformou em ofício para Lula. Sem nunca ter sido atleta, trabalhou com o pai em uma padaria antes de dirigir um táxi pelas ruas de Santos. E durante uma corrida e outra é que o motorista começou a se dedicar também ao esporte. Espectador assíduo de peladas nas praias e nas várzeas, logo passou a participar de torneios amadores da cidade.
As primeiras experiências como treinador foram em clubes de bairro, como o Palmeirinha e o Americana. O trabalho bem feito com os garotos da região não tardou a resultar em títulos e, pouco depois, em uma boa proposta. Chamado pela Portuguesa Santista, Lula ensinava às categorias de base um pouco daquilo que aprendera sobre o jogo apenas ao observar.
Meninos da Vila
Da Briosa, o treinador seguiu para a Vila Belmiro, onde também lidaria com jovens. E foi revelando talentos na base santista é que Lula se projetou definitivamente. Sua primeira oportunidade na equipe principal do Peixe aconteceu em 1952, quando tinha apenas 30 anos de idade.
A passagem como interino, no entanto, não durou muito. De volta às categorias inferiores, o time de juvenis, no qual brilhavam Pepe e Del Vecchio, ganhava notoriedade sob o seu comando. Tanto é que, cerca de dois anos depois, Lula voltou a ser convidado para ficar à frente do elenco profissional do Santos. Desta vez em definitivo.
Sina de títulos
Ao longo das treze temporadas em que esteve no banco de reservas santista, apenas duas foram de seca para Lula. A torcida precisou de mais de um ano para comemorar o primeiro título sob a batuta do treinador: arrebatou o título do Campeonato Paulista de 1955 – que na verdade, só foi definido no início de 1956. Em campo, alguns dos prodígios que passaram por suas mãos durante o período nos juvenis. Del Vecchio, inclusive, foi o artilheiro da competição, anotando o total de 23 gols.
Depois desta conquista, a fonte só não emanaria novas taças em 1957. Até 1966, quando deixou o clube, foram mais 37 títulos. Uma verdadeira dinastia foi instaurada no território estadual. Exceção feita às intromissões de São Paulo e Palmeiras, foram oito êxitos no Paulistão em apenas dez anos. Para melhorar, o time de Pelé impôs um duro jejum aos maiores rivais a partir de 1957. Por 11 anos, o Santos desconheceu o sabor das derrotas para o Corinthians.
Nacionalmente, na recém-criada Taça Brasil, os alvinegros foram vice-campeões já na primeira edição. E entre 1961 e 1965, emendaram cinco taças consecutivas, fato nunca repetido em competições nacionais. Também contra equipes de fora do Estado, foram quatro títulos no Torneio Rio-São Paulo. Nesta galeria, porém, nenhum troféu se projeta tanto quanto os da Libertadores da América e do Mundial Interclubes.
Campeão da Taça Brasil de 1961, o Santos ganhou o direito de participar da competição continental no ano seguinte. Na primeira fase, três vitórias e um empate diante de Deportivo Municipal e Cerro Porteño, com classificação assegurada para as semifinais. Na segunda partida contra o El Ciclón, inclusive, Lula foi decisivo. Depois do empate no Paraguai por 1 a 1, o treinador percebeu Pelé incomodado e resolveu deixá-lo no banco para a partida de volta. Mordido, Pelé entrou com tudo durante a partida e fez dois na goleada por 9 a 1.
Depois de empatar com a Universidad Católica fora de casa, vitória simples na Vila Belmiro, que garantiu o time na decisão. E ante os atuais bicampeões da América, o Peñarol, vitória no Centenário e derrota na Vila, resultados que levaram a final para a partida de desempate. Com Pelé, que ficara de fora dos dois primeiros jogos, o Monumental de Nuñez veio abaixo. Três a zero no placar, com dois tentos do Rei e outro contra. O Santos conquistava ali a sua primeira Libertadores.
No Mundial de Clubes, por sua vez, o adversário era o Benfica, que batera o Real Madrid em uma eletrizante decisão de Copa dos Campeões. De qualquer forma, os portugueses não foram páreos para o Peixe no Maracanã e perderam por 3 a 2. Já na partida de volta, marcada para o Estádio da Luz, Lula surpreendeu. Tirou Mengálvio para deslocar Lima para o meio-campo e colocar o zagueiro-central Olavo na lateral-direita. A estratégia mostrou-se certeira e, com ponta-esquerda Simões anulado, o Santos não teve dificuldades para abrir 5 a 2 e ficar com o planeta sob os seus pés.
Um ano depois, a segunda tentativa de conquista da América foi mais curta, mas não menos dura. Por serem os atuais campeões, os santistas caíram já nas semifinais, enfrentando o Botafogo. Depois do 1 a 1 em São Paulo, mesmo com Garrincha de volta depois de seis meses parado, os cariocas acabaram goleados no Rio de Janeiro por 4 a 0.
As finais desta vez seriam contra o Boca Juniors. Diante de 100 mil espectadores no Maracanã, Coutinho, em noite inspirada, contribuiu para o triunfo por 3 a 2. E nem mesmo os 50 mil presentes na Bombonera intimidaram Pelé em sua atuação de gala nos 2 a 1 feitos pelos brasileiros.
Nos meses seguintes, o bicampeonato viria também no Mundial. Apesar de derrotada na Itália, a equipe treinada por Lula fez o seu dever no Maracanã diante do Milan. Os 4 a 2 aplicados na volta provocaram o jogo-desempate, que foi novamente sediado no Rio de Janeiro. Dalmo, de pênalti, foi o único que balançou as redes durante os 90 minutos, o que seria suficiente para a comemoração.
Percepção fora do comum
Mais que títulos, entretanto, Lula deixou a sua marca no Santos graças aos nomes que ajudou a projetar ao longo de seus doze anos como treinador. Além dos supracitados Pepe e Del Vecchio, o técnico buscou e lapidou outras diversas joias que hoje são marcas registradas do período áureo do clube. Dentre eles, ninguém menos que Pelé. Tamanho era o apreço de Lula pelos garotos que, de tão bem avaliado, Coutinho quase foi escalado entre os profissionais aos 14 anos de idade.
Mas a sensibilidade do técnico não se aplicava somente à base do próprio clube. Lula também tinha um faro preciso na hora de perceber talentos em outras equipes. Foi desta forma que trouxe Lima e Dorval do Juventus, Mengálvio do Aimoré, Toninho Guerreiro do Noroeste e Carlos Alberto Torres do Fluminense.
Mesmo em seus últimos anos na Vila, o comandante ainda possuía conhecimentos suficientes para firmar promessas na equipe principal santista. Já de saída, deixou o caminho preparado para Edu e Clodoaldo, que, além de vitoriosos com o próprio clube, também ficaram com o tricampeonato na Copa do Mundo de 1970.
Metodologia paternal
Fora o olho clínico para descobrir potenciais craques, outra característica que contribuiu bastante para o sucesso do treinador foi a sua postura franca e próxima de seus comandados. Bonachão, Lula esteve longe de ostentar o estilo “professor” ou “estrategista”. Antes de qualquer coisa, era sincero no ambiente de trabalho.
O comandante do esquadrão santista sabia manter o bom clima em seu grupo. Segundo o próprio Lula, em entrevista concedida à Revista do Esporte em 1962, para ser um grande técnico é preciso “ser honesto, fazer com que os seus comandados tenham confiança em si, ter autoridade no serviço que executa, para evitar palpites de terceiros, e saber dirigir-se aos seus comandados nos diversos momentos”.
Durante os treinamentos, com a agenda apertada dos alvinegros, Lula mais orientava do que exigia. Não era de grandes invencionices táticas, preferia prezar pelo talento intuitivo de seus jogadores. “Antigamente jogava-se e deixava-se o adversário jogar, à semelhança do futebol praticado hoje pelo Santos. Atualmente, a grande maioria das nossas equipes preocupa-se mais em defender do que em atacar. Sistema rígido ou variável? Ora, devemos jogar de acordo com o nosso adversário, nunca ficar preso a um sistema. Isso é muito perigoso”, dizia.
Folclore do futebol
E apesar de possuir um método de resultados mais do que comprovados, Lula não passava ileso das brincadeiras nas concentrações. Seu jeito popular, simplório, era motivo de constantes brincadeiras por parte dos jogadores, principalmente por conta da forma de se expressar. São célebres os “causos” nos quais pedia para “os quatro jogadores do meio-campo formarem um triângulo” ou nos quais falava que Coutinho tinha “promoção para engordar”.
Outros comentários dão conta de que Lula também era um treinador que trabalhava forte no plano espiritual. Os vestiários fora de casa seriam quase sempre benzidos por alguns amigos do técnico. Nas décadas de 1950 e 1960, o jornalista Antonio Guzman chegou mesmo a afirmar que Lula fazia despachos em uma praia de São Vicente para alcançar melhores posições nos campeonatos.
Separação dolorosa
O longo casamento com o Santos, no entanto, teve fim no ano de 1966. Inimizades dentro do clube tornaram a sua vida insustentável e Lula largou o cargo que ocupou com tanta maestria. Dentre as versões para a sua saída, existe inclusive uma que conta que foi Pelé quem pediu sua cabeça para os cartolas do Peixe. Não há provas, contudo, que confirmem tal história.
Ao deixar o Santos, Lula foi prontamente contratado pelo Corinthians. E se a sua passagem pelo Parque São Jorge carece de títulos, ao menos o treinador foi o responsável por quebrar o jejum de vitórias do Timão sobre o Santos, que ele mesmo começara em 1957. Em jogo histórico no Pacaembu, com gols de Paulo Borges e Flávio, os corintianos afastaram de vez a maldição que o clube sofria. Apesar da pressão sofrida e das duas bolas na trave acertadas pelos santistas, ainda assim a estrela de Lula prevaleceu.
Amor sem volta
Depois de 35 jogos e da demissão no Corinthians, o técnico trabalharia na Portuguesa e no Santo André, também sem atingir maiores feitos em ambos. Seu coração, entretanto, ainda permaneceria na Baixada Santista. Não era segredo para ninguém que o seu grande sonho era retornar ao alvinegro no qual se consagrara.
Conforme o filho de Lula, Marcos Alonso Perez, o seu pai teria mesmo recusado uma endinheirada proposta do futebol europeu no final da década de 1960. Ninguém menos que o Real Madrid, então hexacampeão continental, teria procurado o treinador. Segundo Marcos, porém, a paixão pelo Santos teria feito Lula rechaçar a procura dos Merengues. Vale lembrar que, entre 1960 e 1974, Miguel Muñoz foi o técnico dos madridistas.
Lenda ou não, o fato é que Lula ainda mantinha fortes ligações com o Peixe mesmo anos depois de deixar o comando técnico. Em 1971, foi cabo eleitoral da oposição no pleito à presidência do clube, contribuindo para a saída de Athiê Jorge Cury após 26 anos no cargo. Contudo, logo ficou frustrado com o novo mandatário. Ao contrário do que o técnico imaginava, Vasco José Faé não o chamou novamente para assumir a equipe.
Longe do time para o qual dedicara boa parte da vida, Lula definhava por conta de sérios problemas de saúde. Além de hipertenso, também possuía problemas renais. Obrigado a receber um novo rim, durou poucos dias após a operação de transplante, devido a uma infecção generalizada. Morreu aos 50 anos de idade, no dia 15 de junho de 1972, sem mais voltar ao clube que ajudou a tornar o melhor do mundo.