20º – Ênio Andrade: Unanimidade brasileira

“Seu” Ênio, Professor, Mestre, “O Cabeça”. Muitas eram as alcunhas pelas quais ficou conhecido Ênio Andrade Vargas. Jogador aguerrido, técnico brilhante e vencedor. Tido por muitos como retranqueiro, conquistou três campeonatos brasileiros por três times diferentes (Internacional, Grêmio e Coritiba).

Por onde passou, “Seu” Ênio conquistou torcedores (com as vitórias), dirigentes (com os títulos) e jogadores (com a humildade). Talvez apenas a mídia esportiva não tenha em um primeiro momento sido arrebatada pelo estilo do “Professor”. Um detalhe que o tempo tratou de corrigir.

Jogador “gaúcho” e guerreiro

Ênio nasceu no dia 31 de janeiro de 1928, em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul e cidade que marcaria sua trajetória nas glórias esportivas como treinador e jogador.

Sua carreira como jogador de futebol começou na zona norte da capital, no Esporte Clube São José, aos 18 anos. Após dois anos no Zequinha, o inteligente e técnico meia se transferiu para o Internacional aos 21 anos, onde conquistou os campeonatos estaduais gaúchos de 1950 e 1951, fazendo parte, ao lado de craques como Larry, Bodinho e Chinesinho, do Inter comandado por Teté conhecido como Rolinho, que sucedeu o Rolo Compressor da década de 1940.

Sua conquista mais relevante como atleta, contudo, viria após sua transferência para o Grêmio Esportivo Renner, em 1951. No novo clube, ele fez parte ao lado do futuro goleiro do Palmeiras e da Seleção Brasileira Valdir de Moraes, do time que ficou conhecido como o “Papão de 54″, campeão gaúcho de 1954. Após o título do Renner, seriam necessários mais 44 anos para que outra equipe quebrasse a hegemonia da dupla Gre-Nal – até o Juventude vencer a final contra o Inter em 1998. Também em 1954, conquistou o Campeonato Municipal de Porto Alegre.

Dois anos mais tarde, em 1956, Ênio fez parte da seleção gaúcha que representou o Brasil no Pan-americano do México. Os gaúchos sagraram-se campeões em cima da Argentina com um empate por 2×2, com Ênio anotando o segundo gol contra os hermanos. Passaria ainda pelo Palmeiras, entre 1958 e 1960, onde conquistou o Campeonato Paulista de 1959 e a Taça Brasil do ano seguinte como reserva de Chinesinho (ex-Internacional) e depois do ainda jovem Ademir da Guia. No clube paulista, marcou 35 gols em 138 partidas. Foi para o Náutico, antes de retornar ao São José para encerrar a carreira, em 1962.

Início suado

Após abandonar os gramados, Ênio tornou-se treinador, mas levaria um bom tempo até que conquistasse prestígio para dirigir sua primeira equipe profissional de renome. Seu primeiro trabalho de destaque foi no Esportivo de Bento Gonçalves no início dos anos 1970. Treinando um time com jogadores como Neca, que mais tarde levaria para o Grêmio, e Cacau, conquistou títulos do Interior e resultados expressivos contra a dupla Gre-Nal, o suficiente para a direção tricolor o contratar em 1975, para a sua primeira passagem pelo Grêmio. Com um elenco fraco tecnicamente, Ênio pouco pôde fazer para parar o poderoso esquadrão colorado que comandou o futebol gaúcho na década.

No ano seguinte, o técnico teria sua primeira passagem pelo Nordeste, treinando Santa Cruz (em 1976) e Sport (em 1977), e participando das conquistas estaduais das duas equipes, antes de retornar ao Sul do país para dirigir Juventude e Coritiba, em 1978.

Campeão invicto

Somente ao retornar ao Beira-Rio pela primeira vez como treinador, em 1979, é que Ênio conquistaria o primeiro título nacional de sua carreira. E, talvez, o mais notório, aquele que jamais foi repetido por nenhuma outra equipe: o Campeonato Brasileiro invicto de 1979, vencido pelo Internacional. Na final, duas vitórias contra o Vasco (2×0 e 2×1) deram o tricampeonato brasileiro ao colorado. Foram 16 vitórias e 7 empates, um aproveitamento de 79,7% dos pontos disputados, o segundo melhor da história, perdendo apenas para o próprio Inter campeão de 1976. Foram ainda 40 gols marcados e apenas 13 sofridos.

Pode-se argumentar que, com Falcão, Valdomiro, Mauro Galvão, Batista, Jair, Mario Sérgio e outros grandes jogadores, fosse fácil ser campeão brasileiro. No entanto, praticamente os mesmos jogadores haviam alcançado apenas a terceira colocação no campeonato estadual do mesmo ano.

O ciclo de vitórias de Ênio no colorado, contudo, não durou muito. No ano seguinte, Ênio levou o Internacional a final da Libertadores e a semifinal do Brasileirão. Mas as duas derrotas nas fases decisivas (para o Atlético-MG no Brasileiro e para o Nacional-URU no torneio continental), aliadas ao vice no estadual perdido para o arqui-rival, fizeram com que o novo presidente do clube na época, José Asmuz, demitisse o treinador.

Campeão com o inimigo

Em um lance de esperteza da direção gremista, Ênio não precisou andar mais de 3 km para arranjar um novo emprego. Logo depois de sua saída do Inter, ele assumiu o comando do Grêmio. Após um início conturbado, questionado de um lado pela torcida colorada (pela “traição”) e de outro pela torcida tricolor (por sua ligação com o rival), “Seu” Ênio logo impôs seu estilo.

No primeiro semestre de 1981, levou uma equipe qualificada, mas tecnicamente inferior ao adversário, que era a base da seleção brasileira da época, ao título de campeão brasileiro. Contra o São Paulo, duas vitórias: 2×1 no Olímpico (dois de Paulo Isidoro) e um surpreendente e inesquecível 1×0 no Morumbi, com Baltazar marcando e frustrando mais de 95 mil torcedores paulistas.

Dois anos mais tarde, o Grêmio se sagraria campeão mundial. Ênio já havia deixado a equipe, mas a pedra fundamental para as conquistas de 1983 fora colocada no Morumbi, no gol de Baltazar.

Campeão com o regulamento

Após a saída do Grêmio, Ênio Andrade ainda treinou o Náutico, sagrando-se campeão pernambucano em 1984 e primeiro treinador campeão estadual pelos três grandes de Pernambuco.

No entanto, o feito mais impressionante da carreira de Ênio Andrade como treinador foi o título de campeão brasileiro pelo Coritiba, em 1985. A equipe paranaense não era mais do que boa, mas foi deixando grandes rivais como Santos, São Paulo, Cruzeiro, Flamengo e Fluminense pelo caminho. Baseada em uma forte marcação, a equipe formada por Rafael; André, Gomes, Heraldo e Dida; Almir (Vavá), Marildo (Marco Aurélio) e Tobi; Lela, Índio e Édson bateu o Bangu nos pênaltis na final, em um Maracanã lotado por torcedores dos grandes times cariocas.

Campeão brasileiro, o Coxa terminou a edição do torneio com menos pontos e menos vitórias do que outros setes times (foram 17 pontos a menos que o vice Bangu). Em aproveitamento, o time não estaria nem entre os 12 primeiros colocados. Além disso, foi apenas 23º em número de gols marcados (25) e até hoje o único campeão brasileiro com saldo de gols negativo (-2). “Seu” Ênio começava a ser reconhecido como um dos primeiros treinadores que jogava com o regulamento “embaixo do braço”.

Colorado vice

Após breve passagem pelo Sport, em 1986, ele retornou ao Internacional para levar o Colorado à final do Campeonato Brasileiro de 1987. No entanto, a equipe carioca, com um gol de Bebeto, bateu o colorado no Maracanã. Ênio mais uma vez baseara o seu time na defesa. Vencendo alguns jogos por 1 a 0, empatando outros.

O jovem goleiro Taffarel chegou a ficar oito jogos sem sofrer gols. Mas Zé Carlos, Jorginho, Leandro, Andrade, Zico, Renato e Bebeto formavam um esquadrão difícil de ser batido. Em 1988 ainda treinou o Palmeiras, mas não conseguiu tirar o alviverde da fila. Em 44 partidas no comando, foram 15 vitórias, 17 empates e 12 derrotas.

Uma Raposa no comando

Na década de 1990, “Seu” Ênio alternou suas passagens entre Cruzeiro e Internacional, com uma breve estadia em Bragança Paulista, com o surpreendente Bragantino. Pelo clube mineiro deixou sua marca vencendo a Supercopa dos Campeões da Libertadores, em 1991 (batendo o River Plate-ARG no Mineirão por 3×0, após uma derrota fora por 2×0), e o Campeonato Mineiro de 1992.

Mas suas partidas mais lembradas pela torcida celeste são os duelos finais contra o São Paulo de Telê Santana, em 1995. Por falta de datas no calendário esportivo brasileiro, a decisão valia tanto para a Copa Ouro como para a Copa Master Supercopa daquele ano.

No primeiro jogo, no Mineirão, Palhinha abriu o placar para os paulistas após falha do goleiro Dida. No fim do primeiro tempo, Rogério revidou uma agressão do xará são-paulino e o árbitro Wilson de Souza Mendonça expulsou o zagueiro. Após uma revolta do time cruzeirense, também foram expulsos Vanderci, Fabinho e Marcelo.

Percebendo que jogar o segundo tempo todo com apenas sete jogadores seria um massacre, Ênio Andrade substituiu rapidamente meio time, realizando as três substituições permitidas. Na volta do intervalo, Luis Fernando Gomes simulou uma contusão e saiu de maca; como já haviam sido feitas todas as substituições e, pela regra, nenhum time pode jogar com menos de sete atletas, o árbitro não teve outra opção senão determinar o fim da partida.

No jogo de volta, no Morumbi, mesmo desfalcado, mas já com o time com 11 jogadores, o Cruzeiro venceu com gol de Dinei no tempo normal e nos pênaltis por 4×1, sagrando-se campeão e com “Seu” Ênio novamente carregando a marca de guiar suas equipes com o regulamento sempre em mãos. No fim daquele ano, o “Mestre” se aposentaria do futebol.

Filosofia de futebol

“O Cabeça”, como era conhecido, morreu em sua cidade de origem, Porto Alegre, no dia 22 de janeiro de 1997, vitimado por complicações pulmonares.

Acusado de retranqueiro, nunca chegou a treinar a Seleção Brasileira. A pergunta que fica é: quem perdeu? O “Professor” Ênio ou o selecionado nacional, que não tem em suas páginas gloriosas o nome do grande mestre do futebol gaúcho, tricampeão brasileiro no período da “ressaca” brasileira entre o tri no México (em 1970) e o tetra nos EUA (em 1994)?

“Um gênio dentro do campo, e um mestre fora dele”, como bem definiu Ruy Carlos Ostermann. Sua filosofia simples de trabalho, que conquistava os jogadores, podia ser resumida em uma frase do mestre sempre dita aos atletas: “Eu perdi, nós empatamos, vocês ganharam”.

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