10 centímetros impactantes
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A Fifa havia estabelecido, em seu “manual de regras da Copa do Mundo”, vulgo caderno de encargos, que as placas de anúncios nos estádios da Copa de 2014 teriam 90cm de altura, pelo menos. No entanto, passado um tempo, a entidade máxima do futebol voltou atrás e fixou o tamanho das placas publicitárias nos jogos do Mundial do Brasil em 1m. Com isso, muitos dos projetos dos estádios tiveram que ser adaptados, já que previam o tamanho menor.
A questão pode até parecer banal, mas é vital na arquitetura dos projetos. Afinal, como a altura das placas pode interferir na visão dos torcedores, as arquibancadas de alguns estádios terão que ser ajustadas.
“Não concordamos com a decisão da Fifa. Mas estamos fazendo as alterações no projeto para atender a essa medida. A altura das arquibancadas do Beira Rio está sendo adaptada para que não ocorra o que houve na Copa da África do Sul. No estádio Soccer City, as seis primeiras fileiras não foram utilizadas”, afirma o vice-presidente de patrimônio do Internacional, Emídio Ferrreira.
O diretor colorado se refere a um fato bastante noticiado por aqui. No Mundial deste ano, realmente, não era possível observar a linha de fundo, por exemplo, se o torcedor ocupasse os assentos mais próximos do campo, que acabaram interditados. Foi o caso, por exemplo, do belo estádio Moses Mabhida, em Durban, e do Peter Mokaba, em Polokwane.
“Estamos adaptando a curvatura da arquibancada inferior e, consequentemente, os pilares. Estamos alterando a planta das instalações que ficam abaixo das arquibancadas como vestiários, áreas técnicas, zonas mistas…”, explica o arquiteto responsável pelo Castelão, em Fortaleza, Ronald Werner Fiedler.
A Fifa, em seu caderno de encargos para o Mundial, faz uma série de exigências em relação às arquibancadas, como inclinação dos assentos e 100% das cadeiras com visibilidade total do campo.
O Maracanã é um caso de exagero da entidade nas cobranças. Por várias vezes – já que o estádio receberá a final do Mundial em 2014 – o projeto teve que ser alterado. Sendo que diversos pedidos foram ignorados na fiscalização e conclusão das obras na África do Sul. A reforma do estádio carioca pode ficar em cerca de R$ 880 milhões.
O jornalista Mauro Cezar Pereira, da ESPN Brasil, esteve na África do Sul e constatou, na prática, as balelas praticadas pela Fifa. Em seu blog, ele postou algumas fotos dos estádios sul-africanos citados acima. Lugares caríssimos, sem a devida divisão do gramado, com placas e até mesmo banco de reservas impedindo a visão. E, em alguns casos, de boa parte do campo.
Alterações nas quatro linhas também
Além dos assentos, o campo de algumas arenas também passará por modificações. De acordo com o autor do projeto do estádio da Fonte Nova, em Salvador, Marc Duwe, o campo será rebaixado em 10cm para resolver o impasse criado pela Fifa.
Mesmo com adaptações, existe a possibilidade de haver alguns lugares em que os torcedores não consigam visualizar as linhas laterais e as de fundo. Tanto Marc Duwe quanto Ronald Werner Fiedler afirmam que alguns assentos terão esse problema. “Isso ocorerá em uma pequena porcentagem. Menos de 1% dos assentos da Fonte Nova”, disse Duwe. Já no Castelão, calcula-se que 200 lugares tenham o problema da visão das linhas do campo.
Os estádios brasileiros, porém, deveriam estar melhor preparados para as mudanças. Segundo Ciro de Menezes, diretor da C4 Publicidade, uma agência que trabalha com o marketing em gramados de futebol, a média de altura dessas placas no pais já é de 1m. “Menos que isso seria muito pequeno para a visualização em um estádio”, explica o publicitário.
Um dos poucos projetos que não sofreu mudanças por causa da determinação da Fifa foi o Estádio Nacional, de Brasília. O arquiteto responsável pela arena da capital do Brasil, Eduardo de Castro Mello, disse que já tinha feito a planta considerando a medida de 1m de altura nas placas de publicidade.
“Como as placas de 1m estavam sendo usadas na África do Sul, consideramos essa medida na hora de fazer o projeto. Por isso não tivemos que alterar a planta”, garante Mello.
O Mineirão, por sua vez, também não teve a planta alterada. De acordo com informações do comitê organizador, como o estádio de Belo Horizonte já é uma obra consolidada, não é possível alterar a arquitetura da arena. Consequentemente, alguns assentos poderão não ser utilizados.
Na prática, como se pode perceber, 10cm tiveram impactos equivalentes a metros em alguns projetos. A pequena medida fez com que arquitetos tivessem que redesenhar o projeto dos estádios da Copa de 2014. Uma pequena alteração, que foi responsável por grandes mudanças.
Que isso não sirva, porém, como mais uma desculpa para o enorme atraso das obras.