Considerada a liga mais forte que o futebol já viu, a Serie A dos anos 80 e 90 reuniu a maioria dos astros do futebol mundial. Mesmo com a ainda existente limitação ao número de jogadores estrangeiros contratados por clube, a quantidade de talento importado era tão grande que escorria até para a divisão inferior, a Serie B, que chegou a contar com titulares de seleções importantes e até recém-coroados campeões europeus e mundiais.

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A partir da temporada 1982/83, os astros internacionais marcaram presença (em menor volume, é verdade) também na categoria de acesso – exceto por 1988/89, quando, talvez como um efeito tardio do congelamento das importações em 1985, não foi registrado nenhum estrangeiro sequer atuando na segunda divisão do Calcio. Já nas temporadas 1991/92 e 1992/93, o número chegou a uma dezena, um recorde para o período.

É importante lembrar as peculiaridades das regras vigentes para a Serie B no período o qual este texto abrange – isto é, entre a abertura dos portos em 1980 e o esgarçamento das fronteiras pela Lei Bosman a partir de 1996: aos clubes da segunda divisão não era permitida a contratação de estrangeiros. Mas as equipes rebaixadas que importaram jogadores enquanto estavam na elite eram autorizadas a mantê-los – se fosse de interesse mútuo, é claro.

Também vale lembrar que o número máximo de estrangeiros por equipe acompanhou o da Serie A por um tempo: era de apenas um nas primeiras temporadas, passando a dois inscritos a partir de 1984 – limite que permaneceu mesmo com os aumentos posteriores na Serie A (para três contratados em 1988 e para cinco no elenco e três relacionados a partir de 1992/93).

Joe Jordan: o primeiro

Ainda no fim dos anos 70, antes mesmo dos portos reabrirem, o Milan já sonhava com Zico, Falcão e o meia-atacante belga Jan Ceulemans. Por ironia, quando a contratação de estrangeiros foi enfim permitida aos clubes da Serie A, os rossoneri não puderam aproveitar de imediato: haviam sido rebaixados na temporada anterior em virtude do escândalo do Totonero. Somente ao retornarem à elite, para a temporada 1981/82, é que puderam importar jogadores.

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E seu primeiro teria perfil um tanto mais modesto que os astros brasileiros com os quais havia sonhado: tratava-se do centroavante escocês Joe Jordan, do Manchester United, prestes a completar 30 anos e que havia disputado as Copas do Mundo de 1974 e 1978 (e jogaria a de 1982) por sua seleção. O desdentado artilheiro, que vivera grande fase no Leeds (onde jogou entre 1970 e 1978), acabou apelidado “squalo” (ou “tubarão”) pelos tifosi.

A nova passagem milanista pela Serie A durou apenas uma temporada, e o time foi novamente rebaixado, agora em campo. Jordan marcou apenas dois gols em 22 jogos, um deles na vitória de virada por 3 a 2 sobre o Cesena fora de casa, na última rodada, que acabou não sendo suficiente para livrar o Diavolo da queda. Na Serie B, porém, seu bom desempenho ajudaria ao Milan de volta, o que o colocou como um dos ídolos daquele período difícil do clube.

Atuando ao lado de jovens como Franco Baresi, Mauro Tassotti, Alberrigo Evani, Sergio Battistini e Aldo Serena, o escocês marcou 10 gols em 30 jogos, consagrando-se como artilheiro do time na competição, conquistada pelo Milan com oito pontos de vantagem sobre a Lazio, segunda colocada. Marcou ainda o gol de honra na derrota por 2 a 1 para a Juventus numa partida pela fase de grupos da Copa da Itália em Turim.

Porém, mesmo com o retorno dos rossoneri à elite do Calcio, ele não permaneceu no clube, transferindo-se para o Verona por uma temporada e logo depois retornando à Inglaterra para defender o Southampton.

Os casos Pasculli e Henrik Larsen

Embora não chegasse até o fim da Copa do Mundo do México, em 1986, como titular da seleção argentina que se sagraria campeã, o atacante Pedro Pablo Pasculli teve participação importante naquela conquista: foi o autor do único gol na vitória sobre o Uruguai, no clássico platino das oitavas de final. Jogador revelado pelo Colón de sua Santa Fé natal e que também marcou época no Argentinos Juniors, participando de duas conquistas nacionais, na ocasião do Mundial mexicano era um dos estrangeiros do Lecce, recém-rebaixado no Calcio.

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Estreante na Serie A naquela temporada 1985/86, o clube gialorrosso passou a maior parte da competição na lanterna e teve rebaixamento decretado com vários jogos de antecedência, embora ao longo da campanha somasse algumas vitórias surpreendentes. Assim, Pasculli se viu na estranha situação de retornar ao país onde atuava como campeão do mundo com sua seleção, mas tendo pela frente uma segunda divisão para jogar com seu clube.

Na primeira temporada em que jogou a Serie B, Pasculli marcou nove gols (entre eles o da vitória por 1 a 0 no derby contra o Bari), mas o acesso escapou num jogo-desempate com o Cesena. Já na segunda, seu número de tentos subiu para 12, entre eles o que abriu a vitória por 2 a 0 sobre o Catanzaro, rival direto, na antepenúltima rodada, ajudando no retorno à Serie A onde, na campanha seguinte, o Lecce obteria uma ótima nona colocação, a melhor de sua história.

O argentino seguiria no clube, ajudando-o a manter-se na elite por mais duas temporadas, até o rebaixamento em 1991. Só mesmo depois da campanha fraca na Serie B em 1991/92, na qual os giallorossi andaram ameaçados por um novo descenso, é que ele finalmente encerraria sua história no Lecce, do qual ostentaria por algum tempo a marca de maior goleador estrangeiro.

Situação semelhante à de Pasculli em 1986 viveu o meia dinamarquês Henrik Larsen, alçado a titular da seleção de seu país num ciclo de renovação após a eliminação da Copa do Mundo de 1990. Trazido do Lyngby para o recém-promovido Pisa na temporada 1990/91, formava a trinca de estrangeiros dos nerazzurri com os argentinos José Antonio Chamot e Diego Simeone. Com a queda da equipe a fim daquela campanha, no entanto, ele teve de ser emprestado, já que apenas dois estrangeiros poderiam ser inscritos na categoria de acesso.

Voltou ao Lyngby por uma temporada e seguiu na seleção, com a qual levantaria de maneira surpreendente o título da Eurocopa de 1992, disputada na Suécia. Na semifinal do torneio, contra a Holanda, Larsen marcara os dois gols da Dinamarca no empate no tempo normal e converteu seu pênalti na série que levou os nórdicos à decisão. Findada a competição – e o empréstimo ao Lyngby – teria que voltar ao Pisa, que não subira à Serie A.

Novamente enfrentando o problema do excesso de estrangeiros, o clube nerazzurro teve que se desfazer de Simeone, vendido então ao Sevilla. Embora badalado pelo título continental, Larsen, porém, não aproveitou a nova oportunidade: disputou apenas oito partidas, sendo substituído em metade delas, e não marcou gols. Acabou saindo antes da virada do ano, por empréstimo ao Aston Villa. E logo deixaria o Pisa em definitivo.

Os argentinos

O misto de sensações experimentado por Pasculli em 1986 quase se repetiu para um trio de compatriotas quatro anos depois, mas com um agravante negativo: além de terem de encarar a Serie B ao voltarem de um Mundial, o zagueiro Roberto Sensini (Udinese) e os atacantes Abel Balbo (também Udinese) e Gustavo Dezotti (Cremonese) ainda sofreram in loco a derrota da Argentina para a Alemanha Ocidental na final da Copa do Mundo de 1990.

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Balbo terminou a Serie B 1990/91 como um dos artilheiros, com 22 gols. Mas ele e Sensini ainda tiveram de lamentar a perda do acesso graças a uma punição de cinco pontos imposta ao clube pela federação, decisiva na classificação final. Só mesmo na temporada seguinte, quando o atacante foi mais econômico nos gols (balançou as redes 11 vezes), é que a dupla enfim voltou à elite, de onde não mais sairia, em duas carreiras extensas no Calcio.

Dezotti, por outro lado, fez 11 gols em 1990/91 (metade da marca de Balbo), mas pôde sorrir com o acesso dos grigiorossi. Porém teve de conviver com os altos e baixos da equipe, novamente rebaixada em 1992. Obteve mais um acesso na temporada 1992/93, na qual marcou 12 vezes, e encerrou sua trajetória no clube de Cremona com mais uma campanha na elite, antes de deixar o futebol italiano e seguir para o México.

Companheiro de Pasculli no Lecce, o meia Juan Alberto Barbas também teve carreira consistente no clube – ainda que os giallorrossi não apresentassem a mesma regularidade. Em seus cinco anos na Apúlia, Barbas disputou três temporadas na elite (incluindo a de estreia em 1985/86 e a melhor de todos os tempos em 1988/89) e duas na Serie B – nas quais balançou as redes mais vezes: foram nove gols em 1986/87 e sete na campanha do acesso em 1987/88.

O Pisa foi outro clube que apostou em argentinos no início dos anos 90. Na janela de novembro de 1990, o clube trouxe dois jovens: o defensor José Antonio Chamot (21 anos), do Rosario Central, e o volante Diego Simeone (20 anos), do Vélez Sarsfield, para fazer companhia ao citado Henrik Larsen e ao meia holandês Mario Been, pouco utilizado. Mas o time era bastante frágil e caiu sem muita resistência na primeira temporada.

Para a campanha da Serie B, apenas a dupla argentina foi mantida no elenco, desta vez com Chamot mais presente na equipe do que Simeone (ao contrário do que acontecera na temporada anterior). Sem o acesso, o volante foi negociado com o Sevilla, abrindo espaço para a volta de Henrik Larsen. O defensor, por sua vez, firmou-se: mesmo com o Pisa novamente falhando na briga para voltar à elite, ele subiu de divisão ao se transferir para o Foggia, da Serie A.

Dali em diante, Chamot experimentaria uma extensa carreira no Calcio, passando logo a seguir à Lazio e mais tarde ao Milan. Simeone, por sua vez, teria que reconstruir seu prestígio no futebol espanhol para só em 1997 voltar à Itália, contratado pela Internazionale ao Atlético de Madrid. Mais discreta foi a passagem do zagueiro Victor Hugo Sotomayor, revelado pelo Racing de Córdoba: duas temporadas no Verona, com um descenso em 1989/90 e um acesso em 1990/91, antes de seguir para o futebol suíço, onde defendeu o Zürich.

Também naquela virada da década, o talentoso meia Pedro Troglio fez carreira no Calcio: chegou em 1988 vindo do River Plate para o Verona, trocando os Scaligeri pela Lazio no ano seguinte. Em 1991, seguiu para a Ascoli, com a qual foi rebaixado em sua primeira temporada, disputando as duas seguintes – suas últimas na Itália – na Serie B. Embora o acesso não tenha vindo, cumpriu campanhas dignas, antes de seguir para a emergente J-League japonesa.

Já o também meia-armador Leo Rodríguez não chegou a se firmar em três anos na Atalanta: na primeira temporada (1992/93) fez 19 partidas, a maioria saindo do banco. Na segunda, disputou apenas um jogo antes de ser emprestado ao Borussia Dortmund. Quando voltou, a Dea havia caído para a Serie B. Em atrito com o técnico Emiliano Mondonico, fez apenas cinco partidas como titular, e ao fim da temporada seguiu para a Universidad de Chile.

O nome argentino mais famoso a passar pela segundona do Calcio, porém, será relembrado mais adiante no texto.

Os brasileiros

Não foram apenas os argentinos que frequentaram em massa a segundona do Calcio neste período: muitos brasileiros que não tiveram a sorte de atuar em equipes mais poderosas acabaram se vendo com uma Serie B pela frente quando as equipes em que jogavam desciam de divisão. Foi o caso do lateral-esquerdo Pedrinho Vicençote (ex-Palmeiras e Vasco) e do meia Luvanor (ex-Goiás) em sua empreitada com o Catania, equipe que disputara a elite em 1983/84 já considerada fadada ao rebaixamento, o que acabou acontecendo.

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A dupla foi a pioneira brasileira na Serie B após a reabertura dos portos, juntamente com o meia Elói (ex-Portuguesa, America e Vasco), rebaixado com o Genoa, e que disputou apenas três partidas e sequer ficou até o fim da temporada, repatriado pelo Botafogo. Pedrinho e Luvanor, por outro lado, permaneceram naquela campanha e também na seguinte, em ambas tendo a missão de salvar o Catania de nova degola (o que conseguiram).

O lateral-esquerdo Branco também não conseguiu trazer o Brescia de volta à elite depois de ter sido rebaixado em 1987. Mas de lá conseguiu uma transferência para o Porto, que lhe ajudou a recuperar seu lugar na Seleção Brasileira. Já o volante Milton, revelado pelo Coritiba, amargou dois rebaixamentos consecutivos com o Como, para onde foi após defender a equipe olímpica brasileira nos Jogos de Seul: para a Serie B em 1989 e para a C1 em 1990.

Já do trio brasileiro que não teve sucesso na tentativa de segurar o frágil time do Pescara na elite em 1988/89, dois jogadores (exceto Junior, que conseguiu retornar ao Flamengo) chegaram a ficar para a disputa da Serie B em 1989/90: o atacante Edmar fez apenas oito jogos em sua primeira campanha na divisão de acesso, mas conseguiu ficar mais uma temporada, na qual atuou 18 vezes e marcou dois gols. Já o meia-atacante Tita nem esquentou lugar: depois de apenas duas jogos, conseguiu retornar ao futebol brasileiro, repatriado pelo Vasco.

Outro que andou pela Serie B do Calcio foi o atacante Amarildo, ex-Internacional, que depois de disputar uma temporada na elite com a Lazio e outra com o Cesena, desceu à segunda divisão com os bianconeri. Naquela campanha de 1991/92, marcou oito gols em 32 jogos, mas teve de se contentar com um oitavo lugar e trocou o Calcio pelo futebol português. Por fim, a passagem do ex-atacante são-paulino Müller pelo Torino será detalhada mais adiante.

Os que jogaram Copas do Mundo estando na Serie B

O nível técnico reconhecidamente bom da categoria de acesso do Calcio permitiu que muitos jogadores de nome e que defendiam seleções importantes fossem convocados para Copas do Mundo naquele período mesmo atuando na segunda divisão italiana. E alguns chegaram a ter atuações destacadas nos Mundiais, vindos quase sempre de temporadas redentoras na Serie B.

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Tarimbado pelas ótimas participações nas três últimas Copas do Mundo com a seleção da Polônia, o zagueiro Wladyslaw Zmuda chegou ao Calcio em 1982, aos 28 anos, para defender o Verona, mas pouco atuou e foi dispensado antes do início da temporada que culminaria no surpreendente scudetto dos Scaligeri. Teve rápida passagem pelo New York Cosmos, até ser recrutado na janela de meio de temporada pela Cremonese, o time mais modesto da elite naquela temporada.

Zmuda chegou a marcar um gol no empate em 1 a 1 com a Lazio, mas não conseguiu evitar o inevitável: o simpático clube de camisa vermelha e cinza retornou à Serie B – e o zagueirão permaneceu. Naquele momento, ele ainda era nome regular da seleção polonesa, que contava com ele para mais uma Copa do Mundo, a do México. E ele acabaria incluído entre os 22 do selecionador Antoni Piechniczek graças ao bom desempenho na categoria de acesso: embora não alçasse seu clube de volta à elite, teve sequência maior de jogos.

Na Copa, depois de ficar de fora dos jogos da fase de grupos, entrou nos minutos finais da partida contra o Brasil, pelas oitavas de final, na qual alcançou o recorde de partidas em Mundiais (21 jogos) pertencente ao alemão Uwe Seeler e batido apenas em 1998 por outro germânico, Lothar Matthäus. E Zmuda o fez como jogador da Cremonese, clube pelo qual disputaria mais uma temporada, 1986/87, na qual atuaria apenas três vezes antes de pendurar as chuteiras.

O brasileiro Müller não imaginava ter que passar pela provação do descenso logo em sua primeira temporada no Torino, a de 1988/89. Apenas quatro anos depois de chegar perto de seu oitavo scudetto, o time grená cumpriu temporada desastrosa e encerrou um período de quase 30 anos consecutivos na elite do Calcio – e, jogando ainda mais sal na ferida, poucas semanas após os 40 anos da Tragédia de Superga, que dizimou sua histórica equipe do pós-Segunda Guerra.

O ex-são-paulino, porém, teve bom desempenho individual, anotando 11 gols e sagrando-se artilheiro da equipe. A mesma marca foi alcançada em sua temporada na Serie B, quando o Toro conquistou o acesso com quatro rodadas de antecipação e o título com boa folga de pontos. Foi o suficiente para se manter no radar do técnico Sebastião Lazaroni, que levou como titular do Brasil à Copa do Mundo da Itália, na qual a Seleção ficou sediada justamente em Turim.

Müller ficaria mais uma temporada no clube, a de 1990/91, mas perderia espaço, atuando apenas sete vezes antes de retornar ao São Paulo. Ele também participaria, como atleta do Tricolor Paulista, da Copa do Mundo de 1994, a que mais contou com atletas atuando na Serie B naquele período: três, sendo que todos tinham posto de destaque em suas seleções.

Um deles era o romeno Gheorghe Hagi, que havia causado impacto na Copa do Mundo disputada em solo italiano, em 1990, e em seguida fora contratado pelo Real Madrid, onde não rendeu o esperado após duas temporadas. Descartado, foi vendido ao pequeno Brescia, com o qual foi rebaixado na Serie A em 1992/93 após perder um spareggio (jogo desempate) com a Udinese. E lá foi o talentoso, porém um tanto dispersivo meia jogar a divisão de acesso do Calcio.

Dos quatro romenos com os quais o Brescia do técnico Mircea Lucescu contava na temporada da queda, apenas Hagi e o meia Ioan Sabau permaneceram (Dorin Mateut seguiu para a Reggiana e Florin Raducioiu, para o Milan). E o armador apelidado “Maradona dos Cárpatos” cumpriu ótima campanha: marcou nove gols, tornando-se o vice-artilheiro do time, e conduziu os biancoazzurri ao acesso. Do Calcio, seguiria para brilhar em gramados norte-americanos na Copa do Mundo de 1994, de onde sairia com uma transferência para outro gigante espanhol, o Barcelona.

O surpreendente rebaixamento da Fiorentina na temporada 1992/93 foi marcado pela também surpreendente decisão de dois de seus estrangeiros em permanecerem no clube para jogarem a Serie B: o meia alemão Stefan Effenberg e o atacante argentino Gabriel Batistuta. Com jogadores desse porte (o centroavante já havia balançado as redes 16 vezes mesmo na campanha do descenso), o que se esperava era um retorno tranquilo à elite.

E ele veio: o acesso foi confirmado com quatro rodadas de antecedência, e o título, duas mais tarde. Batistuta repetiu os 16 gols marcados na campanha anterior, mas em menos jogos (26 contra 32), e Effenberg – que deixaria a Viola logo depois, voltando ao Borussia Mönchengladbach que o revelara – contribuiria com outros sete, além de várias assistências. O argentino, por sua vez, ficaria para se tornar um ídolo imortal no clube de Florença.

O caso Bierhoff

Em meados de anos 90, um atacante alemão era uma das atrações da Serie B. Entre 1992 e 1995, Oliver Bierhoff balançou as redes nada menos que 46 vezes em uma centena exata de partidas pela Ascoli, que, no entanto, não conseguiu tirar proveito desse poder de fogo para conquistar um novo acesso à elite italiana. Para o goleador, porém, foi a projeção decisiva para uma carreira que se mostraria bastante sólida no Calcio.

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Antes de chegar ao clube, aos 24 anos de idade, o goleador havia percorrido um caminho insólito: revelado pelo Bayer Uerdingen, seguiu para o Hamburgo com status de grande revelação em 1988. Após duas campanhas com os hanseáticos, foi negociado com o Borussia Mönchengladbach, onde quase não atuou, seguindo em baixa para o Casino Salzburgo. Artilheiro da liga austríaca, chamou a atenção da Internazionale, que logo o contratou.

Os nerazzurri, porém, não podiam inscrevê-lo devido ao limite de estrangeiros vigente. A solução foi cedê-lo à Ascoli, então na Serie A. Os bianconeri, porém, acabaram rebaixados após terem disputado 13 das últimas 16 temporadas na elite e estavam prestes a mergulhar em uma das piores fases de sua história recente. Mas, pelo menos nas duas primeiras campanhas com Bierhoff, brigaram pelo retorno à Serie A, contando com muitos gols do alemão.

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Em 1992/93, Bierhoff terminou como artilheiro da Serie B, com 20 gols em 35 partidas – 13 deles anotados nos últimos 11 jogos, num ótimo “sprint” final. A Ascoli, no entanto, teve suas aspirações prejudicadas por uma incrível sequência de seis empates em 1 a 1, que tiraram a equipe da zona de acesso. Na última rodada, seu goleador balançou as redes duas vezes, mas não pode evitar a derrota por 3 a 2 na visita ao Padova, que encerrou as chances de subir.

A segunda campanha com Bierhoff na divisão de acesso teve a recuperação como tônica: de início, a equipe se aninhou no meio da tabela, arrancando a partir da metade do returno. Em nenhum momento chegou a frequentar o grupo dos quatro promovidos, mas rondou as primeiras posições e terminou em sétimo, graças em grande parte aos 17 gols marcados – um a mais que Batistuta, da Fiorentina – pelo alemão em 32 partidas, o que lhe valeu a vice-artilharia.

Já a terceira terminaria triste para os Piceni: a queda geral de nível do time, que passou quase toda a campanha na zona da degola, prejudicou o rendimento de Bierhoff, autor de apenas nove gols em 33 jogos. A queda para a Serie C seria consumada de modo humilhante, com uma goleada em casa para a Udinese por 5 a 1 na penúltima rodada. Coincidentemente, a própria Udinese, promovida à Serie A naquela temporada, seria o destino do goleador alemão. E onde ele enfim começaria a fazer história na elite do Calcio.

Outros nomes famosos

Eleito o terceiro melhor jogador da América do Sul em 1981 – atrás apenas de Zico e Maradona – e principal aposta da seleção do Peru para a Copa do Mundo de 1982, o meia Julio César Uribe sofreu grandes decepções tanto no Mundial espanhol quanto em sua passagem pelo Calcio, logo depois, ao defender o Cagliari por três temporadas. Logo na primeira delas, o clube da Sardenha acabou rebaixado ao perder para a Ascoli na última rodada.

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Na seguinte, amargou um medíocre 11º lugar na Serie B em 1983/84. E só escapou da queda para a Serie C no ano seguinte graças a uma punição por suborno aplicada ao Padova. Melhor sorte teve outro sul-americano, o zagueiro uruguaio Paolo Monteiro. Rebaixado em seu segundo ano com a Atalanta, ajudou no retorno imediato à elite em sua única temporada na Serie B, em 1994/95. Um ano depois do acesso conquistado, ele trocaria os nerazzurri pela poderosa Juventus, na qual jogaria até 2005.

Um trio dinamarquês de história marcante na seleção de seu país também passou pela Serie B naqueles tempos. O meia Klaus Berggreen, da Dinamáquina da Copa de 1986, atuou pelo Pisa na temporada 1984/85, marcando expressivos dez gols e levando os nerazzurri de volta à elite. Outro integrante daquela seleção, o ala-direita John Sivebaek veio do Monaco para cair com o Pescara na temporada 1992/93 e seguiu no clube pela campanha seguinte. Fez boas atuações, mas não conseguiu o novo acesso, voltando ao seu país para defender o Vejle.

O terceiro nome foi o ala-direita Thomas Helveg, contratado pela Udinese em 1993, antes mesmo de ter atuado por sua seleção principal (já havia jogado pela equipe olímpica nos Jogos de Barcelona). Rebaixado com os Friulani em sua primeira temporada, redimiu-se com um ótimo desempenho na Serie B em 1994/95 (a última vez em que o clube esteve fora da elite), e se tornou ídolo em Údine até sair para o Milan, após o Mundial de 1998.

Meia talentoso do Aston Villa vencedor da Copa dos Campeões em 1982, o inglês Gordon Cowans viveu experiência no Calcio atuando pelo Bari por três temporadas, ao lado de seu compatriota e atacante Paul Rideout. Rebaixado na primeira, teve boa participação na Serie B em 1986/87 e 1987/88, mas não conseguiu levar o time além de um nono e um sétimo lugar, voltando ao futebol britânico e ao Aston Villa logo em seguida.

Figura regular na seleção holandesa ao longo dos anos 80 e início dos 90, o atacante Wim Kieft fez história no Ajax e no PSV – e entre as passagens, andou pelo futebol italiano, defendendo o Pisa e o Torino. Com os nerazzurri, atuou uma temporada na Serie B, em 1984/85, confirmando seu faro de artilheiro ao balançar a redes expressivas 15 vezes em 38 jogos.

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Nome simbólico da Atalanta nos anos 80, o defensor sueco Glenn Peter Strömberg também atuou pelo clube na temporada 1987/88, em que a Dea conciliou a disputa da Serie B com a da Recopa europeia (da qual alcançou as semifinais). O meia-armador bielorrusso Sergei Aleinikov, vice-campeão da Eurocopa com a União Soviética em 1988, jogou a segunda categoria pelo Lecce em 1991/92, dois anos depois de ter sido titular da Juventus na elite.

Dois atacantes de certo prestígio na virada daquela década para a de 90 também passaram pela Serie B, chegando a jogar juntos no Bologna: o húngaro Lajos Detari e o suíço de ascendência turca Kubilay Türkylmaz (autor do gol da vitória helvética sobre o Brasil num amistoso em 1989) fizeram dupla de frente nos rossoblù na temporada 1991/92, na qual anotaram 19 dos 37 gols da equipe. Türkylmaz seguiu para a campanha seguinte, mas marcou apenas cinco vezes e não conseguiu evitar um humilhante rebaixamento para a Serie C.

Por fim, o lateral-esquerdo croata Robert Jarni atuou em 28 partidas e marcou três gols pelo Bari, seu primeiro clube italiano, na temporada 1992/93 da Serie B. Não trouxe os galletti de volta à elite, mas garantiu uma transferência para o Torino, de onde seguiu para a rival Juventus logo no ano seguinte. Mas sua grande afirmação numa liga europeia importante veio mesmo no futebol espanhol, onde defendeu Betis e Real Madrid.

A última temporada (1995/96)

Depois de atingir seu auge nas temporadas 1991/92 e 1992/93, quando nada menos que uma dezena de atletas estrangeiros desfilou seu futebol na categoria de acesso do Calcio, o número diminuiu para nove em 1993/94, sete em 1994/95 e apenas cinco em 1995/96, naquela que seria a última temporada da restrição à importação de jogadores pelos clubes da Serie B.

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Curiosamente, quase todos eram oriundos da antiga Europa Oriental: o Brescia mantinha o meia romeno Ioan Sabau, o Foggia contava com o atacante russo Igor Kolyvanov, a Reggiana segurava o também atacante russo Igor Simutenkov e o Genoa – o único a contar com dois estrangeiros – tinha no elenco o ponta holandês John Van’t Schip e o goleador tcheco Tomas Skuhravy. Este último, porém, sairia ainda em dezembro, vendido ao Sporting de Portugal.

Destes, o menos badalado tornou-se o mais feliz: com seus oito gols, que lhe deram a artilharia da equipe na temporada, Simutenkov ajudou os granate a retornarem à elite pela última vez – e ainda conquistou uma vaga na seleção russa que disputaria a Eurocopa em junho de 1996 (a exemplo de seu compatriota Kolyvanov e de Sabau, lembrado pela Romênia).

A temporada seguinte seria a primeira no Calcio marcada pela vigência na nova regulamentação para atletas oriundos da União Europeia, que ficou conhecida como Lei Bosman. Além de mudar questões contratuais e proibir qualquer limitação ao número de jogadores vindos destes países nos elencos da Serie A, derrubou também a proibição de contratação de estrangeiros – de qualquer nacionalidade – para os clubes da Serie B.

Entretanto, com a liga italiana sofrendo concorrência cada vez maior em termos financeiros de outros campeonatos (como o inglês e o espanhol), e diante da abertura destes outros mercados, onde também passou a viger a nova lei, a Serie B perdeu a atratividade que havia tido em anos anteriores, com os clubes rebaixados (ou não-promovidos) tendo maior dificuldade para manter seus astros internacionais.

Quinzenalmente, o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.