Segunda divisão holandesa: a pirâmide se reorganiza

Com campeão e play-offs de acesso já definidos, Eerste Divisie se prepara para uma nova realidade em 2016/17, com uma nova divisão para “ajudar”

Sabe-se que a Eerste Divisie, a segunda divisão holandesa, é um campeonato meio estranho, até confuso. Afinal de contas, é o último estágio do profissionalismo no futebol do país – as divisões restantes são todas amadoras. Sem contar todos os cenários bizarros, já levemente presentes na primeira divisão: uma goleada extravagante aqui, um time fraquíssimo ali, um goleador em fase abençoada acolá… ah, e ainda há os famigerados play-offs pelo acesso ao final da temporada, com os tais “campeões de período” (isso você leu aqui, ano passado).

Pelo menos, a edição 2015/16 da Eerste Divisie já está com sua definição relativamente adiantada. Nesta semana, o Sparta Rotterdam garantiu o título (e a volta à Eredivisie, após seis anos de ausência), com uma vitória por 3 a 1 sobre o Jong Ajax, o time Ajacied de aspirantes. E todos os participantes da Nacompetitie – nome dado pelos holandeses aos play-offs – já são conhecidos. O que dá mais tempo para se preparar rumo a uma substancial mudança a partir da próxima temporada.

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Esta mudança reorganiza a “pirâmide” do futebol holandês de clubes. Tenta sacudir mais o nível técnico da segunda divisão, e também aumentar, ou mesmo estimular, uma profissionalização nos clubes. É a volta da Tweede Divisie, equivalente à terceira divisão, a partir de 2016/17. Existente entre 1956 e 1971, ela retornará para intermediar o caminho entre o amadorismo da Topklasse (hoje, a terceira divisão holandesa) e o (semi)profissionalismo da Eerste Divisie.

Nesse retorno, a Tweede Divisie contará com 18 participantes: 14 promovidos da Topklasse (os sete primeiros da “conferência de sábado” e da “conferência de domingo” nas quais ela é dividida), mais quatro equipes aspirantes de clubes profissionais. Outra medida anunciada pela federação holandesa foi a obrigatoriedade de acesso e descenso entre a Eerste Divisie e a Tweede Divisie: o último colocado da segunda divisão cairá, enquanto o campeão da terceira será promovido. É algo opcional no cenário atual: o campeão da Topklasse, geralmente amador, pode optar entre subir para a segunda divisão ou ficar na terceira – afinal, os custos já aumentariam bastante em caso de opção pela promoção. E isso torna inexistente o rebaixamento da segunda para a terceira divisão.

Como se fosse um ensaio, a edição 2015/16 da Eerste Divisie viveu momentos complicados, antes mesmo de começar. Pela crise financeira que o aflige, o Twente desistiu de colocar no torneio sua equipe de aspirantes, o Jong Twente. Ou seja: ao invés de 20, foram 19 os participantes da segunda divisão. O que já dificultou cálculos na tabela, já que uma equipe folgava obrigatoriamente em cada rodada, e deixou várias equipes com números diferentes de jogos.

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Foi, aliás, o que possibilitou ao Sparta Rotterdam garantir o título na 35ª rodada, a quatro do final da temporada regular: a equipe tinha 32 partidas, uma a menos do que o VVV-Venlo, vice-líder com sete pontos atrás dos Rotterdammers. E seria justamente a equipe da cidade de Venlo a folgar na rodada. Bastava vencer o Jong Ajax que o título viria para os Kasteelheren (em holandês, “donos do castelo” – referência a Het Kasteel, estádio do Sparta). E venceram, no 3 a 1 citado no início desta coluna, abrindo dez pontos de vantagem a três rodadas do fim do torneio regular. A torcida não poupou na comemoração: invadiu o gramado para festejar o título.

Também houve sérias dificuldades em relação à manutenção do tradicional Fortuna Sittard, que esteve a um passo de perder sua licença profissional durante a temporada. Clube em que Mark van Bommel começou a jogar (e por que Bert van Marwijk passou como atleta e treinador), o FSC ficou sob o olhar próximo da federação, por ter uma dívida de 900 mil euros para pagar por sua licença. Pelo menos, houve a salvação: um grupo de empresários da cidade de Sittard ajudou com um pouco, os torcedores fizeram sua parte com algumas doações, e o Fortuna Sittard conseguiu pagar o débito, seguindo com a licença para atuar na segunda divisão.

Mas, claro, também há coisas boas a se olhar. Contando com os gols de Thomas Verhaar e as boas atuações de alguns jogadores ofensivos (destaque para o meio-campista Paco van Moorsel e o ponta Loris Brogno), mais a segurança oferecida pela defesa (aqui, merece menção o goleiro Roy Kortsmit), o Sparta teve um time talhado para disputar a segunda divisão. Uma boa sequência de oito vitórias seguidas foi fundamental para colocar o time na rota do título – a ponto de permitir uma derrota e três empates seguidos, sem grandes consequências, antes do triunfo decisivo contra o Jong Ajax.

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De quebra, os play-offs pelo acesso prometem ser atraentes. Estão garantidas equipes tradicionais, como NAC Breda e Go Ahead Eagles, que tentarão voltar rapidamente à Eredivisie; outras, como Emmen e Almere City, nunca jogaram na elite em suas histórias. Sem contar a incerteza sobre penúltimo e antepenúltimo colocados da Eredivisie: não se sabe quem tentará a manutenção na primeira divisão, entre Willem II, Excelsior, De Graafschap e Cambuur.

Mas talvez o clube que simbolize a situação atual da segunda divisão da Holanda é o Achilles ’29, clube amador de Groesbeek: campeão da Topklasse em 2012/13, o time escolheu se profissionalizar e arriscar o acesso à segunda divisão. Não está bem atualmente: é o antepenúltimo colocado. Mas não cairia, se houvesse rebaixamento. E está profissionalizado, com maior estrutura. Pode ser o exemplo a ser seguido por quem participar da Tweede Divisie.