Vitória simbólica

O jogo foi apenas o de ida das semifinais da Taça de Portugal. Mas o resultado não passará batido nessa reta final de temporada. O Benfica superou o Porto por 2 a 0, em pleno Estádio do Dragão. Colocou-se muito próximo da decisão da Taça, visto que pode perder por até 1 a 0 na Luz que ainda assim se classifica. Vitória que, no entanto, tende a ter reflexos mais palpitantes no desenrolar da Liga Zon Sagres, onde ambos são os únicos com reais chances de título. Reflexos muito mais positivos às Águias.
Claro que tal análise passa, em partes, por algum exercício de futurologia, tendo em vista o futebol lutar contra qualquer lógica. Todavia, é chegado o momento que aqueles que aguardavam mais equilíbrio no Campeonato Português desta temporada mais esperavam. É quando o Benfica, enfim, começará a botar pressão no Porto. Já o vinha fazendo, é verdade, emplacando uma série de vitórias significativa, impedindo os portistas de darem passos em falso. Mas havia a sensação de que algo ainda era preciso.
Faltava, no entanto, um resultado no confronto direto que pudesse servir como uma “mensagem” aos Dragões de que há alguém na cola preparado para dar o bote à liderança, e alguém que tem capacidade de se aproveitar do duelo que ainda resta entre a dupla para se aproximar de vez da briga pelo título. Se havia alguma dúvida sobre as possibilidades do Benfica após o 5 a 0 sofrido no primeiro turno, a reação encarnada, consolidada com o triunfo no clássico fora de casa, derrubou-a.
O Porto veio com o time principal, mas, mesmo desfalcado de jogadores importantes, como Fucile e Falcão, foi mal. Errou no ataque como na defesa. À frente, Hulk — que não é centroavante e perde potencial atuando pelo meio — não conseguia avançar na marcação. Nas pontas, Varela buscou jogo e parecia ser o homem mais perigoso dos portistas, mas teve atuação irregular, e James Rodrigues só apareceu para cavar pênalti, levar amarelo e ser substituído pelo limitado Cristian Rodriguez, única opção de banco.
A estranha (avaliando-se pelo que se viu ao longo da temporada) fragilidade ofensiva, apoiada pela dificuldade do meio-campo em armar. Mas foi na defesa que se viram as maiores limitações. Maicon, zagueiro que até agora não mostrou ser o defensor seguro da época de Nacional, falhou no gol de Fábio Coentrão e pareceu em outro mundo, menos em campo. Helton também se mostrou abaixo do usual. Até o bom Fernando, esteve irreconhecível — falhou no segundo gol encarnado. Apenas Sapunaru se salvou.
Por outro lado, o Benfica fez uma partida bastante equilibrada, principalmente à defesa, mas com grande aplicação por parte dos atletas. Foi um Benfica que não se apegou, por assim dizer, a um futebol plástico, mas investiu em uma marcação eficiente, que soube ocupar bem os espaços no setor de meio-campo — principalmente com Javi Garcia — e nas pontas. Atrás, Luisão foi bem e Sidnei fez bela partida, mostrando segurança e, pelo menos por agora, dando esperança de que é o substituto ideal para David Luiz.
Não foi uma Águia individualista, embora se possa destacar a ótima atuação de Fábio Coentrão, cuja vontade e qualidade para atuar tanto na contenção como no apoio ao ataque e nas aparições como elemento surpresa — tal qual no primeiro gol — mostraram que a atuação pífia em sua visita anterior ao Dragão fora atípica. Sua expulsão, é verdade, poderia complicar os encarnados, mas a boa disposição (física e tática) do Benfica foi suficiente para dificultar as ações portistas.
A vitória, naturalmente, não influencia o campeonato nacional nos pontos, mas terá seu impacto. Primeiro porque, por mais esdrúxula que seja a Taça da Liga, o Porto caiu fora dela sem nunca ter mostrado interesse de ganhá-la, atitude que, independente do torneio em questão, não deve existir em hipótese alguma. O diferencial de uma equipe campeã é o apetite pela conquista de títulos, e trabalhar essa mentalidade, especificamente para a partida de volta da Taça de Portugal, será um dos desafios de André Villas-Boas.
O segundo ponto é justamente Villas-Boas. Trata-se, como já se falou aqui, de um treinador de enorme potencial e conhecimento. No entanto, será a hora do técnico mostrar sua capacidade para fazer sua equipe e si próprio administrarem pressão. Nada está definido na Taça, mas tendo em vista a situação complicada do Porto no torneio, é fato que a conquista da liga se torna quase uma obrigação, tanto para garantir um título (que não o da Supercopa) na temporada, como pela distância aberta desde o começo.
O que dá mais ênfase a essa pressão é a ascensão e a confiança do “novo” Benfica. Muito, faça-se justiça, pela volta por cima de Jorge Jesus, que parou de inventar, analisou melhor suas peças e, apostando mais na aplicação do que na plasticidade, transformou a Águia insegura do começo da temporada e da Liga dos Campeões em um time “guerreiro”, determinado. Una-se a isso a impressionante regularidade de Coentrão, a precisão de Sálvio e Javi Garcia, e Saviola, que joga por dois no ataque.
Por um lado, há uma diferença de 11 pontos entre Porto e Benfica (que é relativamente ilusória, já que os Dragões têm um jogo a mais), e o fato de a partida encarnada na rodada adiantada aos portistas ser contra o Sporting. Na matemática benfiquista, porém — com alguma razão de ser, observando o status de Águias e Leões no campeonato —, a expectativa é de que essa diferença caia para 8 e, no confronto direto (3 de abril), pode reduzir a 5 pontos. A aposta encarnada é que as limitações expostas no elenco do Porto e a pressão de um time que venha errando pouco “arrancar-lhes” pontos até abril.
O que se viu no Dragão na quarta deve ser bem ponderado (era outro torneio, outra motivação, etc.), mas, reforça-se: começa agora o teste de Villas-Boas e da maturidade de seu Porto para não apenas não se deixar abater pelo resultado — derrota para um rival histórico e direto —, mas reverter a pressão para Lisboa. Algo que se faz emplacando vitórias de peso, um maior equilíbrio entre os setores (bem diferente do apresentado ante o Benfica) e um espírito oposto àquela vista contra o Gil Vicente.
Os portistas ainda estão em uma situação confortável e são amplamente favoritos ao título. Mas se até algumas semanas havia alguma incerteza sobre o que realmente queria o Benfica em Portugal nesta temporada, Jesus e seus comandados mostraram a Villas-Boas, na Taça, que o Benfica está, realmente, vivo.



