Portugal

Uma tarde de sol no Restelo para ver o Belenenses — o verdadeiro, claro

Entre alfinetadas à B-SAD e canções de amor singular, estar em Belém é ver que futebol não é só um negócio, que o clube é uma doutrina cujos Deuses são os heróis do passado e que a Bíblia Sagrada é a história lapidada pelos Rapazes da Praia

Não há nada mais bonito do que um dia de céu azul em Lisboa, disse-me um amigo antes de eu embarcar para Portugal. E ele estava certo. Tudo bem que depois de três semanas seguidas de chuva fina e tempo execrável em Blumenau qualquer mancha azulada que aparecesse sobre a minha cabeça já seria uma obra de arte, mas teve outra coisa que tornou tudo sublime por lá. Coincidentemente (ou não), essa “coisa” também leva na essência os tons cerúleos.  

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Lisboa de fato é linda, maravilhosa, cosmopolita. O Porto também é encantador, com pratos notáveis, vinhos espetaculares. Mas é numa freguesia, localizada na própria capital portuguesa, que vivi os momentos mais singulares da passagem pela terrinha: Belém — ou… “Blém”, como diriam os lusitanos. É um lugar com uma atmosfera que vai muito além de ser benfiquista ou sportinguista. Quando se sobe a Rua dos Jerónimos e se vira à esquerda na Avenida do Restelo isso fica ainda mais claro.  

Ao desembarcar do comboio na estação em frente ao Museu Nacional dos Coches, bastou andar uns 200 metros para olhar à direita e ver a imponência do Estádio do Restelo, casa do Clube de Futebol Os Belenenses — o verdadeiro e que recusa imitações, mas já, já eu falo sobre isso. Tudo bem que as arquibancadas não são visíveis lá de baixo, mas as torres de iluminação destoando em meio ao bege e alaranjado das casinhas e prédios fazem um contraste futebolístico ao turismo que impera na terra do pastel de Belém.  

Cheguei por lá pouco antes do meio-dia e o Belenenses jogava às 15h contra o Loures, pela quarta rodada do Campeonato de Portugal — equivalente à nossa Série D. À procura de onde adquirir a minha entrada, me deparo com o porteiro meio atabalhoado provavelmente pós-sesta dominical. Não julgo, eu havia acabado de comer alheiras a poucos metros do Mosteiro — mas as alheiras de Guimarães são mais apetitosas, fica a dica. 

— Amigo, onde eu compro bilhete para o jogo de daqui a pouco? — pergunto. 

— Não sei, acho que às 13h já tem alguém por ali — me responde ele com o olhar sonolento. 

— E tem algo para fazer por aqui até lá?  

— Podes assistir ao jogo dos iniciados. 

Iniciados nada mais são do que os atletas da base. Sendo assim… Jogo de futebol? De graça? Em Portugal? Topei. Chegando lá era uma partida pela 10ª rodada do Nacional de Juniores B Sub-17. Como um bom adepto do Futebol Alternativo no Orkut, não hesitei em me sentar nos primeiros degraus que vi para assistir à partida que terminou 6 a 0 para o Sporting contra os Azuis. Não era bem uma preliminar, mas para mim foi quase isso 

A partida acabou, olhei à esquerda e a loja do clube estava aberta. Lá fui tentar comprar meu ingresso. Ao chegar, amor à primeira vista. A começar pelos bustos que remetem aos heróis do passado, pela fachada tradicional com azulejos, a vista para Belém e um espaço recheado de uma história centenária que ficou machucada nos últimos 10 anos por desrespeitos da SAD. Não tive dúvida alguma: havia me convertido ao Belenenses.

Entrada da Loja Azul (Foto: Augusto Ittner)

Camisa comprada — ou melhor, camisola —, cachecol na mão, só faltava o ingresso. Viajante solitário, não era acompanhado por nenhum sócio e os funcionários do clube insistiam em entender o que eu estava fazendo por lá.  

— Mas vais apoiar o Belenenses? — me perguntou a mulher do caixa, desconfiada. 

— Sim, não quero ir na torcida visitante — deixei bem claro. 

A minha afirmação gerou um vaivém dentro da loja. Talvez eles não estivessem esperando que um brasileiro aleatório chegaria ao Restelo, se apaixonaria pelo clube e decidiria assistir ao jogo do quarto escalão do futebol português na bancada poente. Movimentação para cá, sussurros para lá, logo me aparece um barbudão intitulado Victor Alegria. São Victor. Quanta alegria. O sobrenome não era por acaso. 

— Se te perguntarem, diga que te deixei entrar como se fostes sócio. 

Abençoado seja. 

Ingresso e Victor Alegria autoriza a entrada (Foto: Augusto Ittner)

O jogo contra o Loures, num 24 de outubro, tinha um quê especial e um quê de preocupação. O primeiro ponto é pelo fato de a partida ser poucos dias depois de um Belenenses e Sporting pela Taça de Portugal — foi o reencontro das duas equipes e a reedição do clássico desde a divisão do clube entre B-SAD (que ficou na primeira divisão) e Os Beleneneses, o verdadeiro, em 2018. Além disso, os Azuis vinham de derrota para o Pêro Pinheiro e precisavam vencer para continuar na ponta do grupo e manter viva a chance de classificação à segunda fase. 

Ao pisar no estádio vem uma explosão de sentimentos. Primeiro por uma enorme faixa posta na pista de atletismo e direcionada à torcida: “O Belenenses é livre, é dos sócios desde 1919 e joga no Restelo”. A clara provocação à B-SAD e à Codecity (empresa dona SAD, Sociedade Anônima Desportiva) fica ainda mais evidente quando os jogadores entram em campo com uma camisa cuja inscrição é “Os Belenenses só jogam no Restelo e rejeitam imitações”. 

O Belenenses é Livre (Crédito: Reprodução CFB)

Alfinetadas à parte, a explosão de sentimentos que citei há pouco é complementada com a música que os ultras do Belém entoam assim que começa o jogo: “Somos um clube campeão, dos maiores de Portugal. Não importa a divisão, nosso amor é igual. Escolhemos renascer, mas vamos regressar, o caminho será longo rumo ao nosso lugar. Juntos vamos estar unidos nessa paixão. Com a Fúria a apoiar, voltarás campeão. Oh grande Belenenses, ouve a voz de todos nós. Voltarás onde pertences. Nunca te deixamos só”.  

Os pelos do braço arrepiaram e ali entendi que apesar de ambicionarem a volta à elite, o Belenenses é muito mais do que um Distrital de Lisboa, um Campeonato de Portugal. É uma doutrina, uma crença cujos transcendentes são os Rapazes da Praia. Estando no Restelo é fácil entender por que quem nasceu para ser B-SAD jamais será Belenenses de facto e de jure. 

Ah, o jogo? Terminou com vitória Azul. 2 a 0 e a conquista de um novo adepto. 

O contexto do recomeço 

Sem entrar no mérito das SADs, que pode ser assunto para depois, um breve resumo do porquê o Belenenses ter se dividido em dois. O início desse novo capítulo da história dos Azuis começou em 2012, quando o clube enfrentava uma série de problemas financeiros e os sócios aprovaram a venda de 51% do capital à Codecity Sports. 

Dois anos depois já rolou a primeira treta. Uma das cláusulas do contrato previa que os sócios poderiam recomprar a maioria das ações da Sociedade Anônima Desportiva em 2014 e 2017. O problema é que a Codecity rompeu essa cláusula e foi apoiado, à época, pela Justiça, que entendeu que Os Belenenses não teriam condições de garantir estabilidade financeira e esportiva às equipes. 

Aí vieram outros molhos à polêmica: ainda em 2014, os sócios do Belenenses foram impedidos de entrar no espaço tradicional dentro do Estádio do Restelo, uma clara afronta à tradição; neste mesmo ano, a torcida cobrou explicações sobre a ausência de Deyverson e Miguel Rosa (titulares) no jogo contra o Benfica, sob a acusação de beneficiar o rival; em 2017, sete derrotas seguidas, algo nunca ocorrido na história do Belém.  

Belenenses é diferente da B-SAD – Foto Twitter OPastel1

Nesse meio tempo, os protestos “SAD, rua” já tomavam conta do entorno do Restelo e o movimento “Belenenses somos nós” já havia se instalado. Para completar a receita do bolo, em 2018 terminou o contrato de utilização do estádio pela Codecity e o Belenenses pediu 15 mil euros por jogo para a renovação. A SAD recusou e se mudou para o Jamor, um estádio nacional português onde pagaria cerca de um quinto do que o Belém havia pedido. 

Codecity Rua – Protesto da torcida (Foto: twitter OPastel1)

A mudança da casa do Belenenses SAD foi o estopim para o rompimento dos laços entre a Sociedade Anônima Desportiva e o clube histórico. Em 30 de junho de 2018, os sócios decidem separar o clube da SAD e recomeçar do zero, às vésperas do centenário. Os Belenenses, então, constituem uma nova equipe, que mantém o escudo, o patrimônio, as conquistas, o estádio e que entra na 3ª divisão do Distrital de Lisboa — que hoje é o equivalente à 7ª divisão de Portugal.  

A SAD, apesar de ter ficado com a vaga na primeira divisão, bateu pernas. Mas de nada valeu. Foi impedida de usar qualquer símbolo referente aos Belenenses e teve de abrir mão da Cruz de Cristo — no lugar, entrou um escudo que remete a um logotipo e que leva a Torre de Belém, ponto turístico da freguesia. Até o tom do azul teve de ser alterado, da alegria da cor do céu, à escuridão do azul marinho — com perdão da parcialidade deste trecho do texto, caro leitor. 

Em julho de 2020, depois de já ter sido campeão da 3ª divisão de Lisboa e estar às vésperas de conquistar a 2ª divisão distrital, o Belenenses rompe todos os laços com a Codecity, se tornando plenamente independente. Depois disso, ainda veio a conquista da 1ª divisão de Lisboa e o acesso ao Campeonato de Portugal — a quarta divisão, da qual já falei lá no comecinho.  

Para colocar um ponto final nessa história e passar a régua, no dia 30 de outubro de 2021, poucos dias depois do jogo que descrevi no início, o Tribunal Arbitral decidiu, em última instância, que o Belenenses é independente da SAD e que, portanto, poderia traçar o seu caminho desportivo sem qualquer tipo de empecilho jurídico.  

Foi um curioso desfecho que, na prática, era o contrário: um começo. 

Panorâmica do Estádio do Restelo (Foto: Augusto Ittner)

Fontes: zerozero.pt, @OPastel1, osbelenenses.com

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Augusto Ittner

Blumenauense, torcedor do Metropolitano, foi narrador da Rádio Nereu Ramos de 2012 a 2016 e comandou jornadas esportivas em quatro Campeonatos Catarinenses e quatro Séries D. Formado em Jornalismo pela Unisociesc, exerce a profissão há 10 anos e hoje é coordenador do Jornal de Santa Catarina, veículo mais importante do Vale do Itajaí. Acredita no futebol como um meio de transformação social cujos clubes são instituições, não negócio.

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