Uma dura realidade

A imprensa portuguesa estava dividida quanto a um eventual favoritismo da seleção local para o título da Copa do Mundo. Os que viam o Mundial como possível de ser conquistado creditavam tal fator unicamente à presença de Cristiano Ronaldo, mesmo com este há mais de ano sem marcar pela equipe das Quinas. Os outros reconheciam no grupo de Carlos Queiroz um time frágil, dependente de lampejos de seus principais atletas, e que, se tiver Ronaldo mais bem marcado, não sabe mais como atacar.
A exibição contra Costa do Marfim fez com que a segunda parcela de jornalistas – aliás, bastante considerável por lá – mostrasse que tem mais razão. Um 0 a 0 que se não foi de dar sono, foi extremamente truncado, devido à marcação muito bem feita e aplicada dos Elefantes e à total falta de criação por parte de Portugal, no que evidenciou a dura realidade do time de Queiroz: falta não apenas o diferencial em campo, mas principalmente fora dele, no banco de reservas. E o pior: trata-se de uma realidade previsível já há um tempo.
O treinador surpreendeu positivamente ao escalar Danny, em ótima fase com a camisa rubro-verde, rendendo para tal o experiente Simão. A expectativa era boa, tendo em vista o dinamismo que o luso-venezuelano havia dado ao time nas partidas anteriores, jogando ao lado de Cristiano Ronaldo e Liedson. Na lateral esquerda, Fábio Coentrão, em poucas chances, desbancou Duda, que nunca realmente havia convencido no posto. Dentro do elenco que foi à África, de fato, era o onze que soava mais consistente.
No início da partida, o cenário pareceu promissor. Portugal detinha a bola na maior parte do tempo e nos primeiros momentos, Cristiano Ronaldo demonstrou vontade e vinha bem, acertando inclusive um arremate na trave. Mas quando os africanos apertaram a marcação e bloquearam as ações de Deco (principalmente) e Raul Meireles, além de dificultar a saída de Pedro Mendes, os tugas ficaram com poucas saídas. Ronaldo e Danny tiveram que recuar para buscar a bola e caíram de produção, e a defesa partia para a ligação direta, sem sucesso.
No segundo tempo, Queiroz sabia que precisava fazer alguma mudança na equipe. Mexer na armação e na movimentação era necessário. Mas aí o treinador olha para o banco e… Quem colocar? Apenas dois dos reservas tinham real vocação ofensiva – Simão e Hugo Almeida. A entrada do ex-capitão da equipe era esperada, até para se tentar maximizar as ações de ataque. E ele entrou, rendendo um Danny irreconhecível perto daquele dos últimos amistosos. E Simão nada acrescentou à equipe. Não criou nem atacou, e, mais atrás, o meio seguia travado.
Então entra Tiago no lugar de Deco, bastante apagado no confronto e anulado pela marcação dos africanos. Só que, como Simão, o jogador do Atlético de Madrid conseguiu ir tão mal quanto o luso-brasileiro. Até pior. Travou pelo menos dois contra-ataques portugueses e sobrecarregou Raul Meireles. O problema é que, não fosse Tiago, quem mais poderia entrar? Miguel Veloso, que apesar de bom chutador, é um volante? E aí, os nomes de João Moutinho (deixado de lado com alguma justificativa, diga-se) e até Carlos Martins já ecoavam na cabeça de Queiroz…
A dificuldade do técnico ao mirar o banco e não encontrar opções que mantivessem o grupo ofensivo com qualidade foi clara. Olhando as peças que tinha, o treinador até colocou aqueles que eram mais “próximos” do que desejava. Também evidente a importância que Nani tinha para a equipe. Em campo, além de ser uma opção de jogadas a Cristiano Ronaldo, liberaria Danny para reforçar a equipe na segunda etapa. Lamenta-se também a lesão de última hora de Ruben Micael, meia que poderia bem ser um substituto muito melhor a Deco que Tiago.
Mas, pode-se dizer, não houve só más notícias após empate truncado contra Costa do Marfim. Enquanto o lado direito por vezes era uma avenida para ataques marfinenses, o esquerdo se viu bem protegido. O jovem Fábio Coentrão não se intimidou e mostrou que não é apenas bom apoiador, mas sabe marcar bem. Teve seu jogo comprometido pela necessidade tática a ele incumbida de segurar as investidas de Demel e Eboué, mas correspondeu com segurança ao que lhe foi solicitado. Foi bastante elogiado, inclusive por seu treinador no Benfica, Jorge Jesus.
Contra os norte-coreanos, Carlos Queiroz poderia ousar e lançar mais a frente os laterais, especialmente Coentrão. Vencer por uma margem de gols interessante é essencial em se pensando em classificação, aproveitando-se do fato do Brasil ter saído do Ellis Park com somente um gol de saldo. Ronaldo e Liedson também precisam jogar mais próximos. Nos momentos que conseguiram isso contra os africanos, tramaram bons lances. Será preciso também que Deco, que deixou o campo irritadíssimo com Queiroz, reclame menos e busque mais o jogo do que fez nesta terça. Precisa fazer jus ao título de “mágico” e ser ele – e não somente Ronaldo – o armador da equipe.



